É incrível como as palavras e as aberturas de escape que estas utilizam, quando a corrupção das expressões as populariza (e desenrola), ganham vida própria e, depois, apesar de termos sido nós a dar-lhe o significado original, elas se tornam irreconhecíveis na sua absurda autonomia. Esta é a história de como nasceu e se tornou popular em Portugal, uma expressão nascida em Buenos Aires há muitos anos. Expressão criada involuntariamente por um português, funcionário diplomático, então aí residente e, pobre coitado, assolado por uma paixão amorosa de características dançarinas…
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Agora que me distanciei definitivamente é que vejo como as coisas andavam a cavalo no absurdo, respirando uma atmosfera doentia, um ambiente de neblina com um fundo musical contínuo, avassalador, de tangos a seguir a tangos… É verdade que vivi, amei e me afundei em Buenos Aires… É verdade que tracei nessa cidade, além do quotidiano burocrático de funcionário do Consulado, uma sofrida história de amor capaz de alimentar a fantasia e dar calor ao inverno da minha vida… – Se isto que ando para aqui a arrastar é vida .
Conheci Júlia através de um casal de portugueses que tinham um pequeno restaurante no bairro La Broca, próximo de uma via urbana chamada Caminito. Conheci a branca e rosada Júlia de bom grado. «Muito prazer!», disse-me Júlia, enquanto eu, com enorme esforço, distanciava o olhar das almofadas dos seios.
Poderia ter acontecido vir à conversa muito assunto importante (as mães da Plaza Mayo durante a ditadura, por exemplo), mas o mais interessante de tudo para Júlia era falar de Júlia e de como se encontrava em tal ou tal momento, o que fazia ou deixava de fazer, quem conhecia ou dizia conhecer… Para mim, o mais estranho e importante foi ouvir Júlia, ouvi-la falar de banalidades com risonha displicência, rendido de amor por completo, enquanto ela permanecia senhora da situação, talvez inacessível, na sua qualidade de “senhora feudal” do bairro e “ mulher fatal” da minha pobre vida de então.
Na qualidade de estrangeiro, descendente de antepassados desbravadores do Rio de la Plata, palpitava-me que eu era em Buenos Aires apenas tolerado funcionário diplomático, “autorizado” a ouvir Júlia falar em privado e a tanguear-se em público noite após noite (rosa de espinhos aveludados), exibindo os passos da dança como se esta fosse uma habilidade de Circo, um número de trapézio, condimentando cada sessão com apimentado contorcionismo sentimental, naturalmente com a ajuda do seu corpo marmóreo e da sua voz de tonalidade grave, acariciadora. Como haveria de gostar Carlos Gardel, se fosse vivo…
Grande apaixonada da sua cidade e do tango, ela chamou-me sempre para dançar nos cafés do bairro Recoleta… Entretanto, os do restaurante, sinceros amigos, diziam-me quase todos os dias ao jantar, quando me encontrava só na sua grande sala: «- O Joaquim tem o bem-estar garantido, goza da melhor respeitabilidade local, além de óptimo alojamento hoteleiro, está livre de mulheres fáceis e de dívidas difíceis, que é um raro “estado de graça”!… Para que vai incorrer no erro, na imprudência de abraçar uma “paixão” por Júlia?! Por mais viril que se julgue, para quê insistir nessa “paixão”, se nunca poderá dançar o tango?»… Na altura, eu não entendi o alcance do aviso nem vi no tango, com a sua música serpenteante, uma ameaça diabólica a um coxo… A um “pássaro” de asas feridas.
Nada tenho a esconder, mas quero chamar-vos a atenção para o seguinte: – Não é saudável deixar que a mulher amada dance com outros homens, só porque não sabemos nem podemos dançar o tango… Não é saudável verificar que ela dança como se nos estivesse a amar de longe, como se fosse um Paganini do tango e, em cada instante, voluptuosa e coruscante, olhar-nos fixamente de longe… E eu sentado na mesa do fundo… Quando eram os braços de outro homem que, tango a tango, recolhiam as suas febris e clandestinas carícias…
Realmente, em vez de me perder, poderia ter aprendido a dançar o tango, pois havia argentinos que ensinavam aos coxos uns passos aceitáveis, mas o tempo da extinta ditadura, deixaram-me manco da perna direita e inútil para o tango, para toda e qualquer dança de salão.
Tive de acompanhar Júlia nos tangos que dançava, dos braços deste para os daquele argentino e, como se uma “sorte maligna” pairasse sobre a sua figura, só conseguia controlar a minha paixão (por breves instantes) após uma sessão de tangos, como se andasse “a distribuir o meu amor” pelas pistas dos cafés a norte de Buenos Aires, tal e qual um motociclista distribuidor de “pizzas” dos nossos dias… Com efeito, namorei Júlia à “janela dos tangos”, vendo-a despertar do gelo que aparentava para se lançar na corrente musical, nos braços dos ocasionais dançarinos que a acompanhavam nas pistas da velha cidade. Nessas alturas o meu corpo dissolvia-se e ficava por terra, lago de orgulho liquefeito, poça de amor-próprio entornado, lama de sentimentos desperdiçados… – Júlia, qual Valquíria de fórmulas titânicas, escolhia o campo de batalha todas as noites… E todas as noites o meu corpo era sacrificado no vazio, esmagado pelo nada, golpeado na frustração, sem atingir a imortalidade do Walhalla!
Fosse como fosse, a emancipação de Júlia era para mim mutiladora! Sob as vergastadas de muitos tangos, quantos namorados foram castrados da sua vontade própria, quantos foram esfolados da sua viva personalidade, para que os caprichos tangueadores de Júlia se cumprissem?! – Não! Eu não fui o único, vim a saber depois…
Um dia Júlia desapareceu sem deixar rastro, porventura foi matar o vício de tanguear aqui e ali, usando outro incauto e desprevenido das ruas e avenidas de Buenos Aires… Eu regressei a Lisboa, terminada a “comissão de serviço”…
Os índices de violência sentimental e o triunfo da mentira amorosa não foram nunca apanágio de Buenos Aires, pelo menos é o que penso, guarnecido como estou com a informação do escritor, e descendente de portugueses, Jorge Luís Borges.
No entanto, foi nessa cidade que conheci a violência sentimental do egoísmo feminino e a mentira amorosa, apesar de tudo a coisa mais ternurenta de toda a minha vida de aventureiro e diplomata. Desde então deixei de ouvir tangos, pois o engenho da música é para mim uma prova tangível do que me aconteceu, quando uma tal Júlia, viciada em tangos, me andou a tanguear em Buenos Aires…
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Aqui tem o leitor a remota e sentimental origem da palavra tanguear que, nascida em Buenos Aires para significar “trocar as voltas”, veio poisar em Lisboa definindo a acção de quem quer “distrair”, “entreter” e, como o tango, de quem anda a ludibriar alguém, passo a passo, malabarismo corporal após malabarismo corporal. Enfim, de quem anda a tanguear o próximo!

