SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – TEXTO Nº 1- SE RENZI ESCUTASSE AS CORUJAS, de CARLO CLERICETTI

Selecção, tradução e adaptação por Júlio Marques Mota

mapa itália

Sobre os leopardos que querem bem servir Bruxelas – da Itália, falemos então de um bom exemplar

 Texto nº 1- se Renzi escutasse as corujas

Enquanto está a proceder e avançar com as reformas que perturbam a nossa estrutura institucional, a situação do país não pode ser mais alarmante, mas quem o afirma é então denunciado como uma “Coruja”. O crescimento esperado já foi colocado a ZERO e não haverá nenhum crescimento com estas políticas. Só resta uma alternativa.

Um artigo de Carlo Clericetti

site Blogging in the wind

Parte I

Renzi - II

A performance veneziana em língua inglesa de Matteo Renzi (aqui dois dos muito numerosos vídeos difundidos pela WEB

https://www.youtube.com/watch?v=MNdzEQzkceg ou, por exemplo, um outro:

http://video.huffingtonpost.it/culture/matteo-renzi-e-il-suo-inglese/1907/1910 )

é uma perfeita representação da sua personalidade e do seu modo de governar: o importante é passar rapidamente, pouco importa se está enganado ou não enganado. Mas há uma diferença entre uma conferência e uma reforma da Constituição ou do Código doTrabalho. Uma pronúncia cheia de fantasia e algumas palavras inventadas podem gerar alguma provocação mas são sempre palavras que o vento leva depois, que vão embora. Uma reforma mal feita, em contrapartida, permanece e pode provocar prejuízos muito pesados, mudar para pior a vida das pessoas, deteriorar os equilíbrios da democracia.

Isto agora é muito mais do que um risco, tanto sobre o plano institucional como sobre o plano da economia. Quanto ao primeiro aspecto, as pilhas de borrões de reformas elaboradas nestes últimos meses, embora com alguma dificuldade, sempre vão em frente graças à “lealdade” de Berlusconi e do alinhamento do líder da maioria do partido democrata, e parece e parece muito difícil que o grupo que no Partido resiste e se opõe à Direcção do Partido sobre questões críticas possa ter algum êxito quanto a conseguir mudanças realmente incisivas. Produzir-se-á um sistema hiperminoritário, em que uma minoria será capaz de dominar tudo: o governo, o controlo da única Câmara que conta, a Presidência da República, as nomeações para o Tribunal Constitucional, o Conselho Superior da magistratura, a televisão italiana, RAI, toda a autoridade. Acho que essa centralização do poder, mantida por um Berlusconi fazem-nos ter calafrios de terror.

Os limiares de barragem muito elevados previstos no actual projecto de lei eleitoral italiana, dito Italicum, tornarão praticamente impossível a emergência de outras forças políticas, congelando o poder de manobra nas mãos das três principais forças políticas actualmente em Itália, (mas na verdade são apenas o Pd e Forza Italia, se o partido 5 Estrelas não alterar a atitude de recusa para qualquer coligação). Os mecanismos de composição das listas dão aos líderes dos partidos a possibilidade de determinar quem virá a ser eleito. Todo o sistema de pesos e de contrapesos será fortemente atingido e a nossa democracia parlamentar transformar-se-á numa democracia autoritária, com o risco concreto de se transformar posteriormente numa democracia “plebiscitária”.

Tudo isso em nome da “governabilidade”. Que, como vemos, não só não garante que as decisões que se tomem sejam as correctas mas isto pode ser considerado como um conceito muito vago. Não há nenhum sistema institucional que garanta a governabilidade de forma constante e custe o que custar (com excepção da ditadura). Já tínhamos visto sistemas como o inglês e o americano, que durante décadas nos eram apontados como um modelo a este respeito, têm estado em crise e de forma não menos grave que a nossa quando as condições políticas mudaram nos seus respectivos países. Na Europa houve e há vários governos de minoria, mas não me parece que isto tenha causado desastres particulares em nenhum lado. Aqui nós temos exercido durante anos o sistema bipolar e sempre em nome da governabilidade e, nas eleições de 2008, o partido liderado por Berlusconi alcançou uma maioria esmagadora nas duas Câmaras do Parlamento: viu-se que governabilidade este sistema tem gerado. Em suma: estamos a esmagar a Constituição em nome de um slogan.

As coisas não vão melhor para a economia. Os 0,8% de crescimento do PIB previsto para este ano na Lei de estabilidade não passam agora de um sonho impossível de alcançar como acontece igualmente com o valor 0.6 estimado pela Comissão ou mesmo com os mais prudentes 0,2 estimados mais recentemente pela Confindustria. Depois dos péssimos resultados da produção industrial de Maio, REF, um Centro de Estudos muito acreditado, considerou mesmo que durante este ano o crescimento seria de zero. E a ver vamos como se irão passar as coisas não se devendo excluir nada: a melhoria prevista para o segundo semestre deste ano poderia desiludir uma vez mais as expectativas (como avisa Bankitalia, que põe as mãos sobre a sua estimativa anterior de +0.2) e contentar-se em nos oferecer um terceiro ano consecutivo com um crescimento de sinal negativo, uma coisa até agora nunca vista.

Da Europa não há que esperar nada de bom. O relançamento do crescimento que Renzi tinha definido como condição para apoiar a eleição de Jean-Claude Juncker como presidente da Comissão, já se provou para ser um bluff (1) : sob a fumaça das bonitas palavras do seu discurso de nomeação, Juncker confirmou que “no Pacto de Estabilidade não se toca” e deixou claro que não serão envolvidos novos recursos. A “flexibilidade” é já o que se esperava, ou seja, praticamente nada. Não admira, então, se Stefano Fassina lança um preocupadíssimo grito de alarme, chegando à conclusão que se deve assumir a nossa saída do euro não como uma escolha mas como a consequência da desastrosa política que tem sido imposta.

(continua)

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(1) Nota de Tradução. Jean-Claude Juncker mostrou no seu primeiro discurso ser um candidato ao prémio mundial dos Leopardos, prémio que garante estabilidade de rendimento e de emprego a quem for capaz de convencer melhor que todos os outros a mudar na Europa alguma coisa para que tudo fique exactamente na mesma. Exactamente na mesma. Exemplo: no seu discurso declara como “primeira prioridade reforçar a competitividade e o investimento. “ Assim, “nos três primeiros meses do seu mandato” apresentará “um ambicioso pacote sobre o trabalho, crescimento e investimento” que “mobilizará até 300 mil milhões em três anos”. Ora o PIB europeu representa 12.000 milhares de milhares de milhões e a cifra de Juncker de 100 mil milhões ao ano representa apenas 0,8 % do PIB. Mas há ainda aqui uma ratoeira. Mobilizará até …se for possível. Nada é pois garantido, a não ser o seu discurso de que falou disso.

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Ver original em:

http://nuke.carloclericetti.it/Igufisonosaggi/tabid/383/Default.aspx

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