NO VERÃO, PENSAR NO MAR – OS BACALHOEIROS – MUSEU MARÍTIMO DE ÍLHAVO – LIVRO “A MEMÓRIA DOS BACALHOEIROS – UMA CONTRIBUIÇÃO PARA A SUA HISTÓRIA”, de ANTÓNIO MARQUES DA SILVA – por Clara Castilho

Como dizia anteriormente, agora que estamos “ a banhos”, pensemos no outro mar, aquele que nos dá o peixe, aquele onde muitos trabalham em condições precárias.

O bacalhau que hoje comemos já não será pescado por pescadores portugueses. Será em melhores condições, eventualmente. E recorremos, por razões práticas, cada vez mais, ao bacalhau congelado, que não tem o mesmo sabor.

A história da pesca do bacalhau pelos portugueses apareceu pela primeira vez referenciada em 1353 quando D.Pedro I e Edward II de Inglaterra estabelecem um acordo de pesca, o que  indicia que esta actividade já se realizava em anos anteriores, e em tal quantidade, que justificasse a necessidade de a enquadrar nas relações entre os dois reinos.

Em 1504 já havia colónias de pescadores de Viano do Minho e de Aveiro na Terra Nova. Estas colónias correspondem a um tipo de pesca sedentária, onde os barcos encontravam uma base em terra, e a partir daí os pescadores saiam em embarcações mais pequenas à pesca com aparelhos de linha. O amanhar do peixe e a primeira seca e salga era também em terra.

bacalhoeiros

Até ao reinado de D. Sebastião a actividade aumenta, levando à publicação de um “Regimento para as frotas da pesca do bacalhau”, pelo qual estas frotas eram reorganizadas sob um comando unificado.

A história foi complicada, com questões com Espanha e Inglaterra.

No ano de 1835, foi constituída a Companhia de Pescarias Lisbonense, que assumiu o reinício da pesca do bacalhau em Portugal nos bancos da Terra Nova até 1857. Em 1917 a pesca do bacalhau empregava 1400 homens de tripulação.

 Depois de 25 de Abril de 1974, a situação da indústria bacalhoeira portuguesa que se encontrava caótica não conseguiu recuperar. O jornalista Ferreira Fernandes, no seu livro Lembro-me que…  conta que Moçambique decidira boicotar o bacalhau vindo da Noruega (logo, não pescado por portugueses), por este país dar apoio à Frelimo. E refere que o bacalhoeiro Adélia Maria foi lançado à agua no ano de 1974, tendo depois dele, até hoje, só mais três bacalhoeiros portugueses sido foram construídos.

Com a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia em 1986, tudo se alterou, por razões de ordem diversa, onde se incluem a definição de Zonas Económicas Exclusivas e factores de natureza biológica.

O Museu Marítimo de Ílhavo tomou a seu cargo manter a memória da frota bacalhoeira portuguesa. Podemos ler no seu site (http://museumaritimo.cm-ilhavo.pt/frota/) : “Enquanto instituição depositária de um valioso espólio documental, relacionado com a memória da pesca do bacalhau, o Museu Marítimo de Ílhavo tem procurado ampliar, proteger e divulgar o vasto património ligado a essa actividade multissecular, através do desenvolvimento de diversos projectos de investigação”. Têm uma base de dados que se assume “como um instrumento de pesquisa essencial, que torna possível não só acompanhar a evolução quantitativa dos navios da frota bacalhoeira ao longo dos últimos 170 anos, mas também identificar e analisar as suas características específicas”.

O livro A Memória dos Bacalhoeiros – Uma Contribuição para a Sua História de António Marques da Silva “ conta-nos os momentos vividos pela tripulação do veleiro de madeira “Gazela Primeiro” que integrava a Frota Pesqueira Portuguesa e que todos os anos até 1969 largava rumo aos bancos de pesca do bacalhau da Terra Nova. Pescou durante pelo menos 70. É um livro feito de memórias e de momentos de amizade e sacrifício vividos num espaço exíguo e desconfortável onde muitas vezes a vida perigava.

 

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