CONTOS & CRÓNICAS – “A pedrada no charco” – por Eva Cruz

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De manhãzinha cedo apareceram os três em casa da avó para com ela passarem o dia.

 Apesar do Verão, a chuva miudinha, que tapava o sol como uma cortina de nevoeiro, estragou-lhes os planos. Tinham combinado passar o dia no campo. A avó prometera-lhes apanhar ameixas amarelas, ver as árvores e aprender a reconhecê-las pelos frutos que nascem nos seus ramos. A horta viçosa ia também ajudá-la a ensinar-lhes a distinguir as couves pencas das galegas, a planta dos feijões da planta do milho, a ver corgettes ou abobrinhas, beringelas, repolhos, tomates, feijão verde, e até estava planeado fazerem uma brincadeira com os canos das abóboras na bica do tanque.

 Como iriam então, agora, passar o dia? A tarefa não era fácil. Tentou entretê-los o melhor que pôde. Jogou com eles dominó, fez truques com as cartas, mas depressa se esgotou a paciência de ambas as partes.

 Felizmente o sol começou debilmente a espreitar e à falta de melhor, aventurou-se a avó a sair com eles até a um parque próximo, um pouco mal tratado.

 Correram e saltaram, viram bugalhos, bagas, pegas, gaios e alguns melros. Recordaram tempos de mais pequeninos em que por ali andaram com ela, inventando histórias, apanhando bolotas que ela dizia serem do Piglet ou do Winnie the Pooh. Riram-se ingenuamente da sua ingenuidade de então.

 Subiram, desceram e foram até ao charco no fundo do parque e à nascente de água que borbulhava da terra. Ali viram nenúfares bem abertos, outros em botão e o canavial das margens já amarelecido com as suas hastes acastanhadas. No lamaçal coaxavam as rãs de assustadas.

 Oh, avó, escreve um texto com o título “os assustadores das rãs.”

A avó prometeu que ia tentar.

 Na margem do charco, descobriram muitos olhinhos a fitarem-nos. De repente, as rãs musgosas de verde e castanho, umas grandes outras pequenas saltaram para a água do charco e enterraram-se na lama. A água que até ali estava límpida turvou-se por completo, voltando em breve a clarear. Começou então uma verdadeira caça às rãs, tentando descobri-las por entre as folhas e ervas do lago. Lançando pedrinhas a agitar a água, obrigavam-nas a saltar aqui e além, do fundo e das orlas do charco. Das folhas dos nenúfares saía o grito assustado das rãs.

 Apanha uma, avó. A avó tentou, mas ela escorregou-lhe das mãos. Umas, muito pequeninas, saltitavam por entre as folhas secas do chão. Na mão da avó, puderam então apreciar uma rã bebé que se imobilizou por completo. Morreu, disseram. A avó poisou-a no chão, junto à água. Ela mexeu-se e saltou para o charco. Manhosa!

 Por cima do charco, ouviu-se o som troante e assustador de um avião a voar muito baixinho, provavelmente em manobras. Que susto!

 A avó contou-lhes então que há dias, numa praia longínqua da Palestina, quatro meninos brincavam, como eles, no sossego da sua inocência, quando um avião sobrevoou a praia e os matou.

 Porquê? A avó tentou explicar-lhes, mas eles não entenderam. A do meio, que é uma força da natureza, disse apenas: mais vale ser rã do que humano.

 Foi uma pedrada no remanso do charco.

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