CONTOS & CRÓNICAS – Revolucionária «para dentro»- por Joaquim Palminha Silva

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Revolucionária «para dentro»

            Claro que me lembro (com saudade!) da Mariana Tabaqueira!

            Mariana Tabaqueira, mulher de cerca de 50 anos, natural da vila de Cuba, senhora de grande felicidade e bem-aventurança, contadas a pensar nas misérias e desgraças de quem não saiba como se pode prolongar a manha... Bem, quem não sabe é como quem não vê!

            O marido, coitado, menos atento que Mariana Tabaqueira aos benefícios da manha devidamente artilhada, não chegou a ver o «25 de Abril»… Maioral, enrolado na manta, a fumar o seu cachimbo, lá nos confins da charneca… Morreu… Melhor dito, foi encontrado morto sentado numa rocha de pedra (como me disseram)… de peito encostado ao cajado! Foi do coração, garantiram… Morreu como se conta numa dessas canções lamurientas, semelhantes a um gregoriano dessacralizado.

            No caminho da vida e da “revolução de Abril”, na agitação da vila e nas “reuniões”, as mais sérias responsabilidades não foram despachadas para Mariana Tabaqueira, mas a viúva do pastor apanhou algumas responsabilidades e ainda a deixaram aplicar a sua sabedoria ao dia a dia colectivo. Sabedoria aprendida na leitura instintiva de alguns folhetos e panfletos, na insegurança da luta, nas “implacáveis” condições criadas pelos “reaccionários” e, vamos lá, pela persistente infelicidade que sempre persegue os trabalhadores… Mesmo assim, «Apesar dos mondongos da reacção, que bom tempo fora aquele!», dizia-me a mulher…

            Eu ia concordando com Mariana Tabaqueira, às vezes nem ouvia o que ela dizia, entretido a colher pensamentos avulso sobre o analfabetismo “revolucionário” do tempo que então se fazia, quando isto era uma grande “esperança”, enquanto ela despachava uma porção de cenas passadas, frases bombásticas e uma teoria que, de tão empalhada de panfletos políticos, parecia uma lista de superstições czaristas, fora do tempo e deslocada no espaço…

            «Que quer vossemecê?! A minha instrução revolucionária foi feita a despachar, mesmo à rasca. Nós, trabalhadores rurais, nunca temos tempo para aprender, como os senhores que estudam na cidade. Foi tudo a despachar… Tudo em obediência ao processo revolucionário em curso. De resto, deve estar lembrado que a gente era pela “dentadura do proletariado”…».

            O que Mariana Tabaqueira deveria querer dizer era “ditadura do proletariado”… Este rebento insólito foi talvez erro de Mariana Tabaqueira… Mas de repente interrompe-me: – «Alto lá! Então, eu não sei! Qual ditadura: – Essa, foi antes do “25 de Abril”!».

            Na cidade não sabiam nada, disse-me Mariana Tabaqueira. Que importa que os outros não saibam. Ela sabia que a “coisa” se chamava “dentadura do proletariado”. Estou de boca aberta a escutá-la, tem a voz de uma força que soa a grande queda de água. Na dança e no feiticismo das confusões, havia um retorno primitivo à simbólica de antropofagias esquecidas na noite dos tempos.

            «Sim senhor! Dentadura do proletariado! É preciso dar dentadas à burguesia! Dentadas e sopapos! Já os camaradas cubanos diziam isso e o chefe do partido afirmava: “É preciso partir os dentes à reacção”!».

            A minha “amiga” confunde as coisas… Que não me atrevesse a desmenti-la! Era o que ela dizia e mais nada!

Mas onde é que esta mulher foi buscar semelhante imagem? E criou com isto uma sobrecarga afectiva, pessoal de “revolução”…

«-Sabe… Eu sou revolucionária para dentro, neste abandono e miséria, fome, exploração, malignidades e tristeza pela falta de homem, de amparo, tornei-me revolucionária para dentro!».

Penso de mim para mim: esta agora! Mariana Tabaqueira esboçou um riso amargo e, revirando os olhos, com as bolsas avermelhadas sob as pálpebras, explicou-me como é que se podia ser “revolucionário para dentro”.

            Os lavradores tinham a despensa trancada a cadeado, e ela nem podia entrar na casa, sempre a cheirar a encerado e a novo. O seu mundo era a horta e, às vezes, a cozinha. Cuidava do galinheiro, da “criação”: – Patos, perus, galinhas, coelhos… Centos de bicharada… Galinhas eram mais que muitas, coelhos eram à farta!

            Um dia, com as magras migalhas de dinheiro que lhe davam, pensou: «Nunca mais passo fome». O realejo da teoria política mal cerzida, começou a arranhar-lhe o estômago…

            Todos os dias, cerca das seis ou sete horas da manhã, a voz metálica do lavrador, do patrão, tocava uma alvorada de ralhos… Ora um belo dia, Mariana Tabaqueira, resolveu deixar de ser trouxa e, ela também, em vez de ralhos às sete da manhã, desatou aos gritos na cozinha, para que a patroa ouvisse… «Que triste sorte a minha! Agora vão culpar-me! Estão quatro galinhas e um galo no chão da capoeira… Mortos e bem mortos, sem arranhadura de bicho… Isto é morrinha que lhes deu… Que triste sina a minha!».

            Ouvindo os gritos, veio a patroa pelo corredor: «-Ó mulher! Cale-se, enterre as galinhas e acabou-se a barulheira!». Mariana Tabaqueira olhou-me de forma ladina, e disse: «Então vossemecê não sabe que se misturar alfinetes da costura na ração das galinhas, com as picadas na goela e no interior do papo, as pitas morrem em poucos minutos… Está vossemecê a ver?! Nunca mais passei fome. Comi sempre das galinhas que matava… Eu é que escolhia a galinha que me deveria servir e aos meus em cada jantar… Agora já compreende quando digo “revolucionária para dentro”!».

            Que ódio armazenou Mariana Tabaqueira! Ah! Com que espasmo de gozo ela me falava, a coberto da impunidade do tempo e como que passando em revista o “processo revolucionário em curso”. Dizia-me: «Isto vale o que vale… Quanto pesavam as galinhas que matei às alfinetadas?». Depois, voltando ao ponto de partida: «Assim fechei o negócio… Revolucionária para dentro!».

            Com esta passagem, a minha curiosidade converteu-se em pasmo! “Revolucionária para dentro”, isto é, restituindo a si mesma o que pedira à vida e esta lhe negara… Galinhas mortas às alfinetadas! Melhor, só no “velho testamento” ou no Almanaque Borda d’Água!

            Mariana Tabaqueira continuava a tagarelar na sua algaraviada cabalística, enquanto eu, como se fosse um antropólogo social, me esforçava por apreender alguma explicação, algumas palavras que me guiassem naquele labirinto, naquela garridice existencial e de doutrina política policroma.

            Os outros, todos os outros, tinham lérias e jogavam à bisca com o povo, sabiam donde vinha o descontentamento e organizavam marchas com os engelhados da sorte, junto das sedes do Governo, aqui, ali, em Lisboa. Os outros desengarrafavam o seu paleio reivindicativo frente ao povo e aos que mandavam, por isso, dizia Mariana Tabaqueira, eram “revolucionários para fora”, exteriores, como os anúncios da televisão… Está bem de ver, ela não acreditava nessas encomendações políticas… Sabia que faziam falta, porque era essa a obrigação dos chefes dos colectivos, das cooperativas, dos sindicatos. Mas ela via claro de outra maneira, aliada a uma pontinha de ironia, a contrastar com a rusticidade labrega dos camponeses do Concelho, por isso, lérias à parte, havia sido “revolucionária para dentro”! E dizia-me isto com o ar importante de personagem a quem está marcado um destino

            … Claro que me lembro de Mariana Tabaqueira! Mulher que não viveu aborregada aos “mestres pensadores” e, por isso, inventou a dentadura do proletariado como se podia ser “revolucionária para dentro”!

 Palminha - I

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