Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O Compacto Fiscal e a despolitização
Il Fiscal Compact e la depoliticizzazione, por Thomas Fazi
Sbilanciamoci.imfo, 11 de Julho de 2014
Democrazia svendesi/Intervista a Hugo Radice, docente all’Università di Leeds: «È necessario ripartire dalle conquiste ottenute dai movimenti popolari e di base»
Democracia à venda /entrevista com Hugo Radice, professor da Universidade de Leeds: «é necessário voltar a partir das conquistas obtidas pelos movimentos populares e de base»
Sobre a relação entre as políticas económicas e orçamentais na Europa e a crise da democracia fizemos algumas perguntas a Hugo Radice, professor da Universidade de Leeds.
Como é que o Pacto de Estabilidade Fiscal pode representar um problema para a democracia?
Os limites no exercício dos instrumentos democráticos de tomada de decisão e controle da política orçamental começaram a materializar-se na Europa desde a assinatura do Tratado de Maastricht, há pois 20 anos atrás. Desta forma, por um lado, isto enfraqueceu a capacidade dos parlamentos nacionais de gerirem e controlarem os seus próprios orçamentos e, por outro lado, começaram a adoptar políticas promovidas e garantidas na sua aplicação por um órgão não eleito, a Comissão Europeia. No entanto, durante o período de vigência das restrições de Maastricht os parlamentos nacionais mantinham a capacidade de se coligarem e negociarem no seio da Comissão para contornar ou bloquear decisões consideradas para além dos interesses de seus eleitores. Na sequência da crise da dívida soberana na zona euro, a Alemanha e os países a ela ligados conseguiram que novas e mais rigorosas restrições na política orçamental dos Estados-Membros foram acompanhadas por uma série de instrumentos coercivos e passíveis de levarem a aplicação de sanções determináveis pela Comissão. O pacto Fiscal autoriza a Comissão a recorrer para o Tribunal de justiça para obrigar cada Estado signatário a permanecer dentro do novo limite, ou seja 0,5% para o chamado défice estrutural, sob pena da redução dos fundos europeus atribuídos ou de outras sanções.
Porque é que o conceito de défice estrutural pode ser tão perigoso e em que modo é que ele está relacionado com o tema da democracia?
Não só os economistas radicais, mas também muitos economistas pertencentes ao chamado mainstream neoliberal destacam dois elementos-chave relacionados com a utilização do défice estrutural como um objectivo de política económica. Em primeiro lugar, o défice estrutural não pode ser medido objectivamente durante o processo de formação do orçamento. Em segundo lugar, os sistemas de medição actualmente em uso estão distorcidos: durante as recessões, há uma sobrestimação do défice que leva a cortes nas despesas (ou a aumentos de impostos) o que pode causar ainda uma maior deterioração das próprias recessões.
Afirma-se que o pacto Fiscal é um exemplo perfeito de que se define como a política de ‘despolitização’. O que entende por isto?
A despolitização ocorre quando o controle das políticas públicas de órgãos eleitos como os parlamentos, são sujeitos à análise de peritos não eleitos. O melhor exemplo é o da política monetária, subtraído a quase todos os Ministros da economia, tradicionalmente sujeitos ao controlo dos parlamentos nacionais, e atribuída aos bancos centrais e aos seus governadores. Esta passagem pode parecer sem importância, considerando que os governadores dos bancos centrais, por sua vez são nomeados pelos governos, no entanto, a premissa dessa transferência de poder foi exactamente a de subtrair aos parlamentos a possibilidade de adopção de políticas orçamentais e de estímulo a curto prazo em todos os casos em que estas não seriam do agrado dos Bancos Centrais
O primeiro Renzi foi amplamente elogiado pela imprensa europeia porque parecia querer empenhar-se em conseguir levar a cabo uma abordagem mais flexível para as regras orçamentais na Europa. O que acha disto?
Isto reflecte a crescente agitação pública sobre as políticas de austeridade. Muitas pessoas estão conscientes de que a origem da crise da dívida soberana não residiu em comportamentos pouco virtuosos dos governos mas sim devido ao comportamento altamente lesivo dos bancos que foram autorizados a operar num contexto totalmente desregulamentado. A posição actual de Renzi na Europa parece ser motivado principalmente pela necessidade de não perder o seu apoio eleitoral, no entanto, ainda é considerada como uma posição positiva.
O que deve ser uma real democratização da União Europeia?
Em primeiro lugar, deve ser uma inversão da lógica neoliberal que tem determinado as decisões tomadas nestes últimos trinta anos. Isso exigiria um realinhamento que deveria reunir os partidos de esquerda, os ecologistas e os restantes componentes progressistas. Deve-se recomeçar a partir das conquistas obtidas nestes anos pelos movimentos populares e de base. Sente-se a necessidade de uma política da esperança que tenha a ambição de levar a cabo uma radical mudança de alto a baixo. Mas ao mesmo tempo seria, na minha opinião, um erro abandonar o sonho de uma Europa pacífica e unida.
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Ver o original em:
http://www.sbilanciamoci.info/Sezioni/capitali/Il-Fiscal-Compact-e-la-depoliticizzazione-25432

