CONTOS & CRÓNICAS – “Carapaus fritos”- por Joaquim Palminha Silva

contos2 (2)

           A empresa de camionagem (transporte de passageiros) «Setubalense», registou que o Joaquim chegou ao escritório com cinco minutos de atraso… Daí a pouco ninguém parava com o cheiro a benzina. Toda a gente se queixava menos ele. Até abriram a única janela que dava para a rua. «Que raio de fedor a benzina!», dizia o senhor Barata, o caixa. Joaquim, coitado: “moita carrasco”! Envergonhado e vermelho até mais não!

Compreende-se bem a sua humilhação. Teria de confessar que não tinha outro casaco. A benzina falava por ele. Existência materialmente estreita, de poupança, de miséria envergonhada.

Órfão, há muito que morava num 3º andar com a avó, por não ter meios para alugar casa própria. Ela é que lhe tratava da comida, da roupa e, por conseguinte, lhe limpava as nódoas e lhe engomava as camisas. Nessa manhã, no meio da casa de entrada, cheio de frio: «Não torne a limpar a roupa com essa bodega! E muito menos o casaco! Não estou para ser motivo de chacota no escritório». Depois de um instante: «Não me demore! Por sua causa vou chegar tarde ao emprego!».

Está visto que o cheiro a benzina, em si mesmo, pode incomodar.

Na tarde seguinte, ao voltar a casa, Joaquim subiu insaciável as velhas e gastas escadas, de olho lacrimoso e beiço pendente a gotejar saliva … Cheirava a peixe frito, a avó sabia o que melhor lhe enchia o garfo: – Carapaus fritos com arroz de tomate!

A sua angústia, a sua inquietação, os seus problemas existenciais, só cediam diante da mesa com uma travessa de arroz de tomate e outra cheia de carapaus fritos, desses pequeninos, estaladiços, cheirosos. Face a isto, os odores do jantarinho em família dos vizinhos do lado, moderados pequeno-burgueses, deixavam-no indiferente. Mas à palavra «carapaus fritos», os seus olhos deitavam labaredas! Comia os carapaus fritos por que lhe pareciam que o ajudavam a vencer, paulatinamente, o enfado do dia-a-dia. Porque, carapau a carapau, parecia vingar-se da injustiça social, da sua vida de pobreza envergonhada e, em última instância (que diacho!), enchia o bandulho e matava a fome crónica que o não deixava… Com os carapaus fritos com arroz de tomate, confeccionados pela avó, podia desabotoar-se um pouco e, dando uma palmada no ventre dizer arrotando: «Aaaaah! Este já ninguém mo tira!».

A empanzinada, devastadora, besunta, fazia-lhe uns estragos: – Algumas nódoas de óleo no casaco, forte cheiro a peixe frito na roupa.

E a velhota: «Ó filho, tu não hás-de andar agora com a roupinha cheia de nódoas e a cheirar a peixe frito, como um moço de taberna!».

Está visto, que o fedor a benzina pode incomodar muita gente, deprimia Joaquim (deixá-los rir!). Salvo quando o uso da benzina era motivado pelas nódoas dos carapaus fritos!

O que verdadeiramente o vexava era a sensação de acanhamento que vivia, encolhido, cheio de privações escondidas, envergonhado. Incapaz de encontrar rapariga que olhasse para si. Era não ter em casa um par de sapatos para mudar, um casaco para substituir o que ficara a cheirar a peixe frito… – Carapaus fritos com arroz de tomate, está visto, valiam bem umas nódoas! Idiossincrasias…

***

A dor é um sentimento relativo, social e geograficamente determinado. Talvez uma abstracção metafísica. A humilhação diária, permanente, que vivia nesta cidade onde toa a gente sabe a história de toda a gente: – Para ele, a Dor é isso! Isso é que dói!

Ninguém precisava perguntar-lhe, tão sereno e composto, que nome de família levava embrulhado debaixo daquela aparência banal. Foi tudo muito rápido, após a morte dos Pais num desastre de automóvel! Muitos ais, delíquios, correrias, gritinhos, ajuntamento de familiares em volta dos mortos. Mas a herança mal deu para pagar dívidas de jogo, contraídas pelo pai.

Os círculos selectos da cidade olharam o Melo, e nada disseram. Queriam lá saber de um Melo caído na pobreza…. Mas ele gostava de imaginar que haveriam de dizer entre si: «Portou-se com a estoica serenidade com que os seus maiores aguentaram as cutiladas das cimitarras sarracenas, nas batalhas de antanho!».

Descia as escadas do 2ª andar do prédio, saía de casa muito senhor de si, de mãos nos bolsos e cigarro na boca. E pensava: «Que me importa a mim que eles reparem?!». Depois, acrescentava de si para si: «Saibam que tenho lá no meu quarto um belo fato novo cor de mosto e às riscas!». Noite e dia velam-no anjos da guarda que Deus põe à cabeceira dos cavaleiros decaídos, das mais delicadas e nervosas constituições da coeva aristocracia… Pensava ele…

Os embaraços financeiros da família atiraram-no para aquele 2º andar de prédio. Todo envolto em ligaduras e adesivos sociais, procurava desinfectar-se da pobreza, saltando a barreira da banalidade, pulando a cancela da vulgaridade, das grosserias, da ordinarice. Acreditava que vivia um efectivo triunfo pessoal no seio da derrota social, que efectuava uma espécie de sublimação ao cair de uma classe social alta para uma classe social baixa!

Era de tarde. Estava um lindo pôr-do-sol de Outono. Chegou à porta do prédio. Preparava-se para subir ao seu 2º andar, com o aprumo que compete a um Melo. Estacou inesperadamente. Houve um instante de silêncio. Voltou a cabeça de sobrancelhas carregadas, e sentiu as primeiras ondas de exalação penetrarem-lhe nas narinas. Que horror: – Cheirava a peixe frito!

Perde-se a noção do que seja uma vida digna, uma personalidade acima da média, tudo o que entrou (carinho, amor, sonhos e sofrimentos) na formação de uma pessoa… Naquela tarde, um odor tépido a peixe frito (carapaus?) açoitava-lhe a vida, falava-lhe das rivalidades de classe, dos direitos adquiridos pela pobreza, e “tayloriza-lhe” o prédio: – C’est la guerre!

Melo a bater-se contra a pobreza e ela a gozá-lo! «Não vale a pena, não vale a pena!»… E na “terra de ninguém” da “luta de classes”, onde às escondidas ainda gemia (« Mamã! Mamã!»), o cheiro a peixe frito dáva-lhe a pesada, monótona e custosa ideia de que são tortuosos os caminhos da vida!- Peixe frito: meu Deus, que horror!

Leave a Reply