CONTOS & CRÓNICAS – “O maluco do Céu” – por Joaquim Palminha Silva

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Era um hábito muito antigo em si, a que infelizmente nunca desejou renunciar. Vinha-lhe da infância, desde o tempo do orfanato: – Todas as noites, antes de se deitar e adormecer, espreitava o Céu!

Parecia-lhe que com esse gesto de simples curiosidade nocturna poderia prever, meteorologicamente falando, o dia seguinte. Embora não o confessasse ao primeiro que lhe aparecesse, acreditava que esse gesto dirigido ao Céu lhe poderia também proporcionar a leitura de um amanhã radioso, sob o prisma espiritual e sentimental…        No entanto, a maior parte das vezes que olhara o Céu, as suas esperanças não se concretizaram: – Amanhecia com chuva e vento, ou calor de rachar, derretendo pedras.

Quanto ao resto, o Céu não entornava sobre a sua cabeça nada de extraordinário, e se o dia só transpirava tédio, já não era mau de todo, pois a maior parte das vezes cada jornada tinha a sua desgraça impressa logo ao alvorecer. Desgraça grande, média ou pequena. Ele até tinha criado, para uso próprio, uma escala de infelicidade para distinguir os dias menos bons dos dias péssimos ou absolutamente maus!

Mas o Céu permanecia violentamente silencioso… Ele é que lhe emprestava objectivos de organização da Humanidade e do indivíduo, no sentido da harmonia, da paz e do amor, e outras coisas que tinha um secreto pudor em confessar.

A observação cada vez mais minuciosa do Céu, levou-o a uma forma de informação superior, embora não científica. Começou a dedicar os seus tempos livres à leitura de tudo o que aparecia sobre Astrologia.

E foi assim, lendo e interpretando mal o que ia memorizando, que chegou à conclusão que no Céu, habitação infinita dos corpos celestes, existiam astros superiores que governavam os inferiores. No cosmos, portanto, havia uma família de “deuses-astros” que, segundo a sua hierarquia de poder universal (incluindo o seu bom ou mau humor), afectavam os acontecimentos no planeta Terra… e a sua própria existência individual.

No decurso dos muitos anos de vida celibatária, sem que alguém se apercebesse, começou elaborar horóscopos mal amanhados. Horóscopos desenhados após espreitar o Céu, todas as noites, com configurações impossíveis, com significados enigmáticos, absurdos.

Júpiter, que era criador, ressuscitador dos mortos, podia também ser o ordenador do caos. Os presságios da Lua, em virtude da irregularidade das suas fases, tanto impeliam ao crescimento, como à sua contracção. O Sol portador de vida e luz, poderia ser ambíguo, transportando calor abrasador, seca e fome, como uma praga do Egipto do tempo de Moisés. Mercúrio, escriba e pequeno deus da sabedoria que historiava as acções dos homens, tanto poderia trazer o conhecimento que provocava o bem como a informação que alimentava o mal. Saturno, deus da caça, era propício aos negócios e à família, mas às vezes anunciava grandes calamidades. Maligno era o deus Marte, divindade astral da pestilência e da guerra, destruidor das colheitas e anunciador de morte. Vénus, “deusa-astral” do amor e da maternidade, era todavia maléfica para as viúvas e crianças de peito. Além dos planetas, símbolos e alegorias que havia adaptado às suas necessidades, incluíam-se os signos do Zodíaco (Touro, Gémeos, Leão, Balança, Escorpião e Peixes).

Na busca de uma expressão cosmogónica para a sua vida, criou graus hierárquicos que se escalonavam para lhe definirem o dia seguinte.

Todos os dias, antes de sair de casa elaborava um horóscopo, de forma a saber se valia a pena sair para a rua e ir ao emprego.

«- Bem… Se me dá licença, Senhor Madeira… Vou-me chegando. Vai-se fazendo tarde…». E o outro a responder: «- Sim… Sim… Desculpe tê-lo empatado. Senhor Guilherme! Também se faz tarde para mim.».

Muitas vezes, a palavra “solteirão” não significa apenas um homem de meia-idade que se mantém no celibato. Não, “solteirão” no seu caso poderia ser a palavra indicada para designar um resumo de esperas do dia seguinte, de desilusões vividas todos os dias. Podia significar a síntese das suas desditas, a concentração de coisa nenhuma na vida de um homem… após espreitar o Céu e fazer o seu horóscopo, habitando o quarto de hóspedes de um 3ºandar na Rua de Santa Marta (Lisboa).

Entrava no quarto, abria a janela, sentia em si as volúpias da ilusão a acarinharem-no. Firmava-se mais no peitoril da janela. Oh! , o Céu! Fosse qual fosse a origem das conjugações celestiais, Guilherme sentia cada vez menos razões para sair à rua… perante o número de vezes que os seus horóscopos o desencorajavam. Menos razões para ir ao emprego. Menos razões para comer isto e aquilo.

Quanto tempo poderia ele aguentar esta absurda cabra-cega com o Céu? – A situação acabou por se tornar crítica!

Um fim-de-tarde e início de noite, Guilherme trouxe para o terraço do prédio uma canastra cheia de paralelos da calçada, apanhados e coleccionados há longas semanas. Logo que surgiu o azul do Céu, completamente assanhado, Guilherme começou a atirar pedras para o ar, para o espaço… A força poderosa dos ginetes do Apocalipse, talvez servida por Marte, batera-lhe na carripana da cabeça onde se transportavam as ideias de Guilherme… Carripana cansada e avariada de tanto querer ler no Céu a sua vida.

Para onde se havia o homem de voltar?!

– Depressa! Chamem a polícia! (gritou uma vizinha do prédio em face).

– É o maluco do 3º andar… É aquele que passa as noites a falar com o Céu…

– Maluco ou não, é perigoso! Atira pedras a todas as pessoas que passam na rua!

– O meu marido ia apanhando uma pedrada, mas felizmente o paralelo da calçada passou-lhe ao lado…

– Que desaforo! Nunca se viu uma coisa destas… O homem endoideceu a olhar para o Céu!

– Dizem que faz escritos estranhos, enquanto olha para o Céu… Com números e estrelas desenhadas… (afirmava uma rapariga)

– Que medo! Credo! É capaz de ser coisa do diabo… …Senhor guarda! Senhor guarda: as pedras que estão a cair, são atiradas ao ar pelo maluco do Céu! (grita um miúdo).

– Ó senhor guarda, aquilo é fado! (dizia a empregada da Pastelaria «Mimosa»).

Guilherme olhou para baixo do terraço, e ainda disse para os basbaques: «-Que tal está a noite rapazes?». De pedra na mão, ainda o ouviram gritar aos guardas que o agarravam no terraço: «-Larguem-me! A minha zanga é com o Céu! Hei-de amolgá-lo à pedrada! A ele, e mais a sua família de signos e astralidades! Grande azul de mentiras!».

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