OLHOS COR DE NÉVOA, por ETHEL FELDMAN

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Olhos cor de névoa

 

Crepúsculo

 

O teu corpo está curvo, a cabeça pesa, as insónias e um largar continuado informam:

– Estou velho, preciso de paz…

Sereno anuncias:

– Miriam, estou me apagando…

Moro longe, tenho muito trabalho, estou cansada e o coração vai ficando pequeno com as minhas desculpas. Não quero ver a tua cabeça tombar num sono que anuncia a partida. Não quero assistir o teu olhar que se perde quando pareces acordar.

Sonho com outras mortes, pergunto à minha irmã se o fim se aproxima e ela diz que talvez. Será que ainda vais estar vivo no dia do teu aniversário?

– Não sejas tão negativa… – dizem-me os familiares.

Não sei o que responder, porque há dias em que desejo que a despedida se faça breve e tu possas partir sabendo que vais.

Serei a ave de rapina que pressagia a morte?

A memória leva-me ao nosso último almoço em família em casa do meu irmão. Sobes os dois andares com dificuldade. Vais para a sala e encontras a mesa de jantar. Escolhes uma cadeira e sentas-te. Dou-te um beijo. Levantas a cabeça e sorris.

– Já viste, filha? Todos os filhos juntos. Há quanto tempo isso não acontecia?

Teus olhos azuis cor de névoa ainda conseguem brilhar. Estás velho e cansado.

E eu digo que sim, pai.

Quantos sim repeti por cansaço?

Sim ao meu coração partido.

Sim à solidão que toma conta de mim.

Sim ao medo do fim.

Sento-me no sofá que está encostado à janela. Do meu lado direito os cd’s estão arrumados na vertical. Não há prateleiras a separá-los. Não é possível tirar um sem que todos os outros  venham juntos.

Não sei qual é o primeiro que sustenta o próximo. Quem sabe?

Do lado direito os DVD’s estão arrumados na sequência do sentimento de quem lá os colocou.

Minha irmã e minha mãe estão sentadas no sofá encostado à parede do lado esquerdo. Meu irmão traz o computador e senta-se ao lteu lado, junto à mesa de jantar.

Ana, a tua neta mais nova, coloca a sua cabeça no colo da avó. Sabe bem estar em família.

Há quanto tempo que não estávamos todos juntos, pai.?

Não coloques já o boné pai, ainda é cedo.

 

A morte

 

São quase dez da manhã.  Elias, meu irmão abre a porta e abraça-me. Do lado direito uma porta de vidro mostra o teu corpo inerte no chão, coberto por uma colcha de algodão amarela, entre duas poltronas cor de laranja e uma mesa de madeira.  Na cozinha, está Miriam, a minha mãe com a minha irmã Esther.

Eram quase 9h00 quando Esther telefonou-me a chorar:

– o pai morreu…

Atravesso o hall de entrada acompanhada por Rafael, o meu marido. Abro a porta que dá acesso à sala de jantar. Dois homens fardados estão à janela. Uma mesa de jantar define a nossa distância.

Na cozinha, Ana abraça a avó.

Tu és a morte alheia para os policias que aguardam a certidão de óbito.

Aproximo-me de ti, afasto a mesa e sento-me no chão. Levanto o pano que te cobre o corpo.

Parece que dormes. No teu rosto ainda quente, dou-te um beijo e em silêncio olho devagar para os teus olhos semi-abertos, a tua boca que descai e os teus braços que sem vida desenham o chão ao longo do corpo.

Não fossem os móveis que nos rodeiam fazendo de nós mobília, tudo estaria certo no lugar certo.

Lembro-me de Daigo Kobayashi, o violoncelista que acabou por se tornar um “nokanshi” e diz que foi com a morte que compreendeu o sentido da vida. Belo filme de Yojiro Takita.

Se Daigo estivesse aqui, arranjaria espaço, afastaria as poltronas, a mesa de centro e o sofá que está na direção da tua cabeça. Faria da sala um palco. Forraria o chão com os tatames necessários para acolher o teu corpo. Entre ti e o chão haveria um tapete de palha de arroz prensado.

No palco, dois atores e o silencio que a morte pede.

– O senhor da funerária chegou…- avisa Esther.

Cubro o teu corpo, tapo o teu rosto e levanto-me.

Um homem baixo, pouco mais velho do que eu, com cabelos brancos, aparece na sala. Olha para as paredes, olha para o chão e aproxima-se de ti. Dá dois passos e levanta o pano rapidamente. Pára e mede o teu corpo com os olhos. Os polícias continuam na janela.

O senhor, que não é Daigo, tem pressa. Fala com os jovens fardados. Eu e os meus irmãos esperamos sentados à volta da mesa de jantar. No nosso olhar mora a tristeza, por trás dela o teu corpo espera que quem não faz parte dela nos dê atenção.

– Antes que a vossa conversa se estenda, peço que se foquem no vosso trabalho. A nossa hora não é igual a vossa. Na nossa o coração chora, na vossa ele se distrai.- digo com calma.

O senhor da funerária, que não sei o nome e por isso batizo-o de Branquinho, propõe aos polícias enviar a certidão de óbito por email. Os jovens fardados agradecem e saem.

– Qual é a forma mais económica de fazermos o funeral? – perguntamos porque o nosso dinheiro é escasso.

– O corpo vai para a câmara frigorífica e de lá direto para o cemitério.

– E com velório?

– O mais barato é numa capela.

– A certidão de óbito?

– Quem me dera ser médico! Envio os dados do falecido e ele envia-me a certidão por email e cobra 80€.

O lado direito do meu corpo sente o teu ainda no chão e lamenta o cenário.

– A segurança social cobre parte das despesas. O nosso serviço, mais o médico e a capela é o mais barato.

– Não queremos nenhuma cruz no caixão – informa o meu irmão.

– Vou tentar, mas vai ser difícil. Sem cruz é mais caro. Vão querer cremar?

Elias e Esther apressam-se a dizer que não. Nossa mãe relaciona a cremação aos fornos nazis.

– Também seria mais caro… – diz o senhor Branquinho.

Saímos da sala. Vão te vestir. O sr. Branquinho não é Daigo. Não sei como vão tratar de ti, pai. Não vou assistir.

Um saco azul de lona te levará ao caixão

Três homens cuidam de ti, entre eles um quase menino. Trazem na mão um saco de lona azul com um fecho éclair no meio. Será aí que te irão colocar. Só na funerária é que te transportarão para o caixão. Em seguida farás a viagem para a capela.

Antes de te fecharem no saco, avisam-nos que estás pronto a sair.

Teu rosto vai ganhando a cor azul da morte e o sr. Branquinho sugere que deixemos o caixão fechado. Levas contigo no corpo uma camisa às riscas escolhida pela tua mulher e pela tua neta mais nova. Calças, meias e sapatos compõem o teu corpo.

A família aproxima-se. Estamos ao teu redor. Tens ao teu lado esquerdo Miriam, a tua esposa e nossa mãe, por trás dela o piano que lhe deste. As poltronas não nos dão espaço. Ah, se fosse Daigo, subiríamos ao palco e caberíamos todos. Em frente à mãe está  Esther, a seguir a ela  Rafael e depois estou eu. Por trás de nós, Gabriel o teu neto mais novo, Elias e a sua esposa Dália.  Quase na porta, está Noah, o teu outro genro. Do lado de fora fica Ana que quer resguardar na memória o teu rosto a sorrir.

Minha mãe encontra forma de se baixar. Ainda tem vestido o robe da manhã. Na sua mão direita um lenço molhado.

– Meu amor…

Dá-te um beijo e quase em silêncio segreda-te no ouvido a despedida.

Doce, tão doce é o vosso amor.

“(…) O meu amado é para mim e eu sou para ele.

Ele disse-me:

«Grava-me como um selo no teu coração,

como um selo no teu braço,

porque o amor é forte como a morte (…)”

(in Cântico dos Cânticos)

Agora é a nossa vez de te dizer adeus. Cada um a seu tempo, em silêncio. Teu corpo já está frio. Está na hora de ires, pai.

Saio da sala. Elias e Gabriel ficam com os homens da funerária. Em cada alça, a mão de cada um. Em todos, o peso do teu corpo a confirmar a morte.

Só volto a ver-te na capela. Um caixão fechado coberto por uma manta de veludo. Mesmo aos teus pés um crucifixo. Ao lado, na igreja, celebra-se um batizado.

Quem chega chora mais do que nós. Em cada abraço consolamos a dor alheia ainda estrangeira em nós.

A capela é pequena e cheira a mofo. Ainda não sabíamos que a tampa que fecha o teu caixão tem uma cruz incrustada a todo o comprimento. Encolhemos os ombros. Será importante nos incomodarmos com isso? Não sei se darias a importância que Elias dá.

Foste mudando com a idade e encontrando uma tolerância que eu não conhecia. Deixaste a teimosia só para aquilo que consideravas ser a razão da tua existência. O resto largaste.

Uma fila de cadeiras em forma de ‘u’ ladeia o caixão. Somos poucos e sabe bem que assim seja. Alguns amigos e pouco mais.

Dois passarinhos de origami feitos em papel japonês, dobrados por mim e Ana, substituem as flores que não comprámos.

O dia passa devagar. Há um lado em mim que não sabe onde é o meu lugar.

Perto das dez da noite aparece Benjamim, o teu neto mais velho. Viveu contigo um par de anos. Pede para ficar sozinho e quer abrir o caixão. Tenho medo de saber como ele te encontrará.

Deixamo-lo a sós contigo. Espreito e vejo que te dá a mão. Levanta-se e compõe a tua roupa. Tenta calçar-te o sapato do pé esquerdo, mas o teu pé inchou. Volta a sentar-se. Conversa baixinho contigo.

Descubro Daigo?

Entro na sala com Lia, a sua irmã e o meu sobrinho diz:

– Ele está bem. O meu avô está bem.

Eu digo que sim. Hoje digo que sim a tudo. Surpreende-me que este pequeno homem que se mostra incapaz de falar com os vivos trate com tanto carinho quem morre.

– Sim, o teu avô está bem. Seja lá o que isso for. -r espondo cansada.

Deixamos-te perto da meia-noite. Fechamos a capela.

Amanhã serás enterrado. Eu preferia que fosses cremado.

Em casa, na minha cama choro quase em silêncio.

 

Funeral

 

Chego cedo. Vou buscar a mãe. Fazemos o que deve ser feito, sem pensar. O corpo sabe antes de nós tomarmos consciência.

Levo comigo um texto para ler antes da tua última viagem.

Perto das duas da tarde chamo quem está do lado de fora. Pouso a minha mão direita no caixão, onde adivinho estar o teu coração. À minha frente está a mãe, os meus irmãos, marido e cunhados, a minha filha, o meu sobrinho mais jovem e por trás de mim, a minha sobrinha.

Tenho a voz embargada.  Por fim, começo:

 

As coisas eternas

 

Hoje as palavras escondem-se envergonhadas porque dão conta do quanto são pequenas.

Não acredito num lugar onde todos nos encontramos, nem nas vidas que ganham outras vidas.  Sei onde mora o meu pai. Por dentro de mim. E isso me deixa feliz.

O corpo que agora parte amou, disparatou e lutou por um mundo melhor. Escreveu, escreveu, escreveu. Riu e chorou de mansinho. Encarou a morte com dignidade.

O corpo que se despede é semente de vontade de vida.

O corpo que aos poucos se confundirá na terra que o abrigará é do meu pai, do homem que fez de mim parte do que sou. Nada lhe devo porque nas nossas contas não existe crédito, nem débito. Por outro lado, devo-lhe quase tudo.

Aqui, neste pedaço de mim, onde ele me habita.

 

A cruz

 

Elias continua irritado com a cruz e pede que a imaginem como uma foice e um martelo. Reconheço no inusitado a tua marca. Reconheço naquele pedido a vontade dele em te respeitar.

No cemitério, antes da terra que te vai cobrir,  Ana e eu jogamos os passarinhos de origami. Eles fazem votos de longa vida.

Elias diz que não gostas de choros e pede uma salva de palmas.

Em seguida nos convida a cantar ‘A Internacional’, em homenagem à tua juventude e ao teu encontro com a nossa mãe. E todos cantam.

Volto a reconhecer-te no caos que se instala. Um sorriso doce toma conta do meu rosto.

 

Os dias seguintes

 

Não te sei ainda falar dos dias que se seguem. Acordo e penso no teu corpo que aos poucos se desfaz. Leio os teus emails. Cuido da mãe e de Esther que esteve sempre contigo. Cozinho e limpo. Limpo e cozinho. Por dentro desespero mas falta-me tempo para dar conta do lamento.

No 13º dia já sozinha em casa, sucumbo de dor. Perco o norte e permito que o corpo inteiro chore.

Uns dias acordo feliz, noutros com falta de ar. Vou lendo os teus textos. Vou conhecendo e reconhecendo partes de ti, algumas tão presentes em mim. Vou dando conta de que o que antes me irritava hoje me faz sorrir. Vou conhecendo uma tolerância nova de filha para pai.

As coisas vão acontecendo.

A tua morte mostra como ela é plena de vida e reconhece no presente a eternidade.

O que seria o teu próximo romance, ‘O Avesso’,  começa assim:

Alguém me diz:

– Dorme!

E eu durmo. Melhor dizendo: sonho que dormindo estou. Sonho que o meu corpo é todo terra. Sonho que me revolvem, enxadas, pás, ancinhos e atiram-me para dentro de uma caixa de madeira quatro vezes mais comprida do que larga. Sofro cãibras, muitas, e essas já estão fora do sonho, vontade tenho eu de acordar.” (Fernando Correia da Silva)

Vontade que todos temos, pai.

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