2014: ANO EUROPEU DO CÉREBRO E DAS DOENÇAS MENTAIS – ATROFIAS CEREBRAIS NA INFÂNCIA DESAPARECEM COM O AFECTO por clara castilho

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Decorre o Ano Europeu do Cérebro e das Doenças Mentais escolhido pelo Parlamento Europeu, considerando que se trata de um problema que poderá ter causas e tentativas de intervenção comuns a alguns países da Europa. Continuamos a reflectir sobre o assunto.

Comecemos pela positiva. Para uma criança ter saúde mental de que necessita?

Será este o caminho para chegarmos às perturbações mentais.

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Tudo começa ao nascer. Não, tudo começa na gravidez. Não, afinal, tudo começa no desejo de a mãe e o pai terem um filho. Nem sempre tal acontece, certo?

Para a criança crescer bem, não é só de boa alimentação e das condições de habitação que necessita. Tem que ter quem “cuide” dela, têm que ter uma ligação de afecto privilegiada com alguma pessoa, tem que ter um meio que a envolva que funcione como um “envelope”.

Resumindo, um ambiente seguro, de protecção, mas também de disciplina,  proporcionado por pessoas amadas, respeitadas e que possam  dar continência às suas emoções, por mais difíceis que sejam.

A mãe, ou o seu substituto, funciona como um “objecto” referente no processo de subjectivação progressiva do bebé, iniciando um novo ciclo de identificações pela descoberta sucessiva de uma identidade do ser, depois de uma, identidade de geração e depois identidade de sexo.

Com as novas metodologias, com os “scanners” ao cérebro, pode ver-se a diferença entre dois períodos de vida de algumas crianças. Por exemplo, com as crianças encontradas em asilo na Roménia, alguns anos atrás, pode constatar-se que, nessa altura, que todas tinham uma atrofia cerebral, no lobo frontal, que é o que dá substrato neurológico da antecipação e está ligado ao lobo temporal, que é o da memória. Confinadas aos seus leitos, sem exploração dos espaço, sem ligações afectivas especiais com ninguém, sem interacção, não tinham podido desenvolver os seus lobos frontais e não podiam aprender os circuitos da memória

Na altura, criou-se uma rede de famílias de acolhimento, e muitas das crianças foram adoptadas noutros países. E que aconteceu? Um ano depois, novos “scanners” de controlo comprovaram que quase todas as atrofias tinham desaparecido! E isto devido ao efeito das relações, da alteridade.

João dos Santos conta-nos um facto que eu desconhecia: “É conhecida a experiência dos campos de Lebensborn da Alemanha, durante a guerra, introduzidos por Himmleer. Nesses campos, jovens alemãs arianas recebiam os soldados arianos vindos da frente de batalha. Os filhos eram considerados como pupilos do Estado e sujeitos aos cuidados mais atentos de educadoras especializadas, pois se destinavam a ser elementos destacados do futuro. As enfermeiras puericultoras tinham responsabilidade de 8 a 10 crianças, não podiam ocupar-se de nenhuma individualmente e, segundo parece, nem mesmo lhes deviam falar enquanto eram bebés. Assim, apesar de uma rigorosa selecção de progenitores (indivíduos sãos e de raça pua) e de lhes terem sido proporcionado os maiores cuidados de orem higiénica, e a assistência do melhor pessoal técnico, essas crianças não tinham mãe ou pai real, personificado num indivíduo, mas apenas um pessoal mercenário para cuidar delas, em grupo. Inquéritos feitos junto do pessoal técnico e de alguns indivíduos criados nesses campos, mostraram que: as crianças tinham, com muita frequência, atrasos de três a cinco anos; que nenhuma delas falava ou dizia palavras antes de 2 anos; que raras foram as que conseguiram andar antes dos 2 ou 3 anos; que quase todos urinavam na cama até aos 5 ou 6 anos; um grande número apresentava deformidades físicas (por falta de estímulo) e havia, entre elas, idiotas e surdos mudos (cerca de um em cem); a maior parte fez apenas a instrução primária, raras vezes fizeram o curso e, segundo parece (em cerca de trezentos casos estudados), nenhuma chegou a um curso superior.( Fundamentos psicológicos de educação pela arte in AA.VV., Educação Estética e Ensino Escolar, Lisboa, Ed. Europa-América, pp.47

 

 

 

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