PRAÇA DA REVOLTA – “A FACE OCULTA” -por Carlos Loures

Eugène Delacroix - La Liberté guidant le peuple

O processo Face Oculta teve hoje um primeiro desfecho, com o Tribunal Judicial de Aveiro a condenar um ex-ministro a cinco anos de prisão efectiva. Com gravações de escutas telefónicas destruídas, com o possível envolvimento do primeiro-ministro, haveria matéria para um filme… se o processo Face Oculta tivesse ocorrido nos Estados Unidos, daria lugar, primeiro a um bstseller e em seguida a um filme de grande sucesso. Os guiões cinematográficos, misturando realidade com ficção, põem a nu todas as deformidades da sociedade americana. A quase todas…

A estrutura em que assenta o funcionamento da justiça não é poupada – baseado num bestseller de John Grisham, o filme The Firm, 1991 (A Firma), passado ao cinema e protagonizado por Tom Cruise. È um violento libelo contra o sistema judicial norte-americano. Mas a denúncia da corrupção na política, não tem limites – aqui há tempos, a propósito do filme Poder Absoluto (Absolute Power, 1997), realizado por Clint Eastwood, disse que a sociedade norte-americana sofre de muitas mazelas, mas goza de uma quase ilimitada liberdade de expressão – para o as indústrias da informação e do entretenimento não existem instituições sagradas – a CIA e o FBI, são em filmes, séries televisivas ou em romances, envolvidas em tramas sinistras. A Polícia Judiciária não aceitaria tais ficções com fair play. Mas nem o Presidente escapa – precisamente em Poder Absoluto o criminoso é o presidente dos Estados Unidos, interpretado por Gene Hackman.

Num filme anterior, All the President’s Men (Os Homens do Presidente) realizado por Alan J. Pakula em 1976, faz-se a desmontagem do escândalo de Watergate. Dois jornalistas do Washington Post. fazem um trabalho de investigação – Robert Woodward (interpretado por Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman),, descobrindo uma rede de espionagem e lavagem de dinheiro, o que acaba por levar à renúncia do presidente Richard Nixon, envolvido no escândalo.

Mas talvez o exemplo mais claro desta política de banalização cinematográfica da desonestidade dos políticos seja o do filme Wag the Dog (Manobras na Casa Branca), realizado em 1997 por Barry Levinson. O presidente, a poucos dias da eleição, vê-se envolvido num escândalo sexual e as hipóteses de ser reeleito, são nulas.. Um dos seus assessores (Robert DeNiro) contacta um produtor de Hollywood (Dustin Hoffman) para que este crie uma situação face ao qual o escândalo sexual perca a importância. Inventam uma guerra na Albânia e a iminência de um ataque albanês feito com uma bomba nuclear grosseira, que, vinda do Canadá, poderá causar uma catástrofe de grandes dimensões…

Será que seria bem aceite uma ficção portuguesa que, narrando a juventude de um presidente, o pusesse como informador da polícia política do regime ditatorial  e que, já investido na mais elevada magistratura,entre outras aventuras, especulasse com acções, num negócio em que o País perdeu verbas astronómicas? Será ue tal liberdade ficcional seria pacificamente aceite? Mas, pergunta.se, será que esta liberdade de abordar temas delicados é uma vantagem para o sistema democrático?

Acho que não – tem pelo contrário um efeito perverso: Quando as coisas acontecem fora dos ecrãs ou das páginas dos romances de aeroporto, em Guantánamo, no Iraque, no Paquistão, ou no Afeganistão, a maioria dos cidadãos norte-americanos acha normal. Em suma, tudo o que de negativo existe na sociedade norte-americana pode ser denunciado e criticado – do racismo à tortura. As maiores atrocidades e as mais sinistras conspirações são antecipadas.

O efeito é perverso. Uma espécie de vacina contra os sentimentos humanos.

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