SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – 24. RENZI – O POPULISMO TECNOCRÁTICO DO GRANDE REFORMADOR – MAIS PRECÁRIOS, MENOS PRODUTIVOS. ASSIM RENZI AFUNDARÁ O PAÍS – por PAOLO PINI.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

mapa itália

Mais precários, menos produtivos. Assim Renzi afundará o País

Renzi - V

Paolo Pini, temi repubblica.it/micromega

Più precari, meno produttivi. Così Renzi affonderà il Paese, 31 de Março de 2014

Parte II

(conclusão)

De facto, como explicado no nosso trabalho, Lavoro, contrattazione, Europa (Ediesse, 2013), o que aconteceu desde a década de 1990, a partir da lei Treu ““iniziazione alle liberalizzazioni” de 1997 para passar à Lei Biaggi do “supermercado de congratos” de 2003 para acabar na contraditória Lei Fornero sobre a boa e a má flexibilidade de mercado” de 2012, tem sido feita uma progressiva desregulamentação para promover a flexibilidade no mercado de trabalho, que tinha o objetivo de criar com intervenções marginais sucessivas o mercado de trabalho dual, mercado precário, e apoiar tudo isto na ideia de que as garantias dos trabalhadores seriam reduzidas nos períodos seguintes, como de facto ocorreu (por exemplo, veja-se a introdução do artigo 8 da lei 148/8, 2011 e a quase eliminação do artigo 18. º do estatuto dos trabalhadores em 2012) [1].

Renzi - X

Indice di protezione all’impiego, 1990-2012 (Oecd Statistics)

Esta “deriva” levou ainda mais empresas a assentarem a sua actividade no trabalho precário, mal remunerado e pouco produtivo, substituindo o emprego estável, em vez de fazer inovação nos locais de trabalho, de investir recursos em investigação, em educação, em capital humano, e a política seguida tem sido apoiada por um Estado que por um lado desregulamentava o trabalho e, por outro lado, evitava tomar qualquer responsabilidade na  política industrial para poder mudar o nosso aparelho produtivo para sectores com maior conteúdo tecnológico e de maior sustentabilidade económica e ambiental. Não apenas isso, mas contribuiu mesmo para desorganizar as empresas que teriam podido ou teriam querido mover-se sobre um caminho inovador, em virtude da concorrência que lhes foi movida na base de baixas taxas de salário e de más condições de trabalho praticadas por aquelas empresas que graças à flexibilidade do trabalho podiam assim estar a sobreviver no mercado.

A “deriva da flexibilização e da moderação salarial” conduziu pois à ” armadilha da produtividade zero” onde nos encontramos agora, nos anos do Euro.

Crescimento da produtividade do trabalho por hora de trabalho realizado, 2000-2012 (Oecd Statistics)

Renzi - XI

Infelizmente, parece que quem nos governa não aprendeu nada. Mudamos de maiorias, mudamos de primeiros-ministros, mudamos de Ministros do Trabalho, mas a única receita em que todos eles eles foram ou são capazes de poder pensar é a “cobiçada” flexibilidade do trabalho. Agora, é a vez do duo Renzi-Poletti, que fulminados na estrada sobre Damasco, nos contam a fábula “da precariedade expansiva”, e nos querem vender a sua prescrição para nos fazer crer que com um pouco mais de flexibilidade e de simplificação das normas, de desregulação,  as empresas conseguirão recomeçar a desenvolverem-se e reconquistarão a competitividade e farão talvez crescer a produtividade porque os trabalhadores terão agora mais certezas de estarem estabilizados. E foi esta história que nos contou o ministro Giuliano Poletti [2].

O risco é que, após o declínio, estes senhores nos conduzam directamente para o abismo. Estamos no limiar da década zero do crescimento da produtividade, outro passo dado e passaremos a inaugurar a fase “renzi-polettiana ” de crescimento “abaixo de zero” da produtividade. A fase da idade dos glaciares, é assim que a devemos chamar.

Post scriptum: O Governador do Banco da Itália, Ignazio Visco, na conferência de ontem em Bari, sobre “Il capitale sociale: la forza del paese” expressou-se assim: “melhorar a competitividade das empresas passa e de maneira importante pela valorização e pelo desenvolvimento do capital humano de que se disponha, mesmo em colaboração com o sistema de ensino e de investigação.

A este respeito, os estudos do Banco da Itália mostram como as relações de trabalho mais estáveis podem estimular a acumulação do capital humano, incentivando os trabalhadores a adquirir competências específicas para a atividade da empresa. Reforçar-se-iam a intensidade da actividade inovadora e, em última instância, a dinâmica da produtividade.” (itálico nosso)

Têe-lo-ão ouvido na sala muito numerosos presentes, ou será que o vento da flexibilidade do trabalho levou as suas palavras antes mesmo de poderem chegar aos ouvidos dos interessados?

NOTAS:

[1] A Itália é para a OCDE, o país que se tornou mais flexível no mercado de trabalho entre os países industrializados, reduzindo os mecanismos de protecção dos trabalhadores sem que com isso tenha conseguido atingir um qualquer aumento da produtividade, e assim acompanhando a redução das protecções no trabalho a dinâmica da produtividade sempre pior (http://keynesblog.com/2013/03/20/produttivita-e-regimi-di-protezione-del-lavoro/).

[2]. É claro que, se num período de 36 meses houver 6 pessoas que sucessivamente ocupam o mesmo posto de trabalho, ( seis meses cada), creio que é bem melhor que seja possível sobre estes 36 meses haver a possibilidade de prorrogar o contrato de trabalho à mesma pessoa. No final dos 36 meses é mais razoável imaginar que seja assumida como contratada a tempo indeterminada uma pessoa que esteve a trabalhar na empresa 36 meses, em vez de uma que, por acaso, seja uma daquelas seis que alternativamenmte poderiam lá ter estado a trabalhar. Sustentar que isto aumenta a precariedade é, na minha opinião estar em oposição à realidade dos números. “

Deixamos aqui o texto original em italiano:

 È chiaro che, se un periodo di 36 mesi ci sono 6 persone che si danno il cambio, credo sia meglio avere la possibilità che su quei 36 mesi ci sia la proroga del contratto alla stessa persona. Alla fine dei 36 mesi è più ragionevole immaginare che venga assunta una persona che è stata lì 36 mesi, piuttosto che una, a sorte, su quelle sei che ci sono state prima. Come si possa sostenere che questo aumenta la precarietà, secondo me è in contrasto coi numeri (Giuliano Poletti, Rainews, 27 marzo 2014).

Nota de tradução:

Texto disponível em: http://www.grr.rai.it/dl/grr/notizie/ContentItem-7c607cc1-ac38-4635-9eae-478eed90b6e9.html

________

Ver o original em:

http://temi.repubblica.it/micromega-online/piu-precari-meno-produttivi-cosi-renzi-affondera-il-paese/

________

Para ler a parte I deste texto de Paolo Pini, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

https://aviagemdosargonautas.net/2014/09/05/sobre-os-leopardos-que-querem-bem-servir-bruxelas-da-italia-falemos-entao-de-um-bom-exemplar-24-renzi-o-populismo-tecnocratico-do-grande-reformador-mais-prec/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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