UM ROSTO, DE NUNO JÚDICE – tradução italiana de SIMONETTA MASIN

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UM ROSTO, DE NUNO JÚDICE

 

 

Apenas

uma coisa inteiramente transparente:

o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte

nos teus olhos, que pude ver ainda

através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas

da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas

num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,

tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo

se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,

cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, fotografias

cuja cor desaparece, substituindo os corpos

por manchas vagas como aparições; e sinto, eu

próprio, que uma parte da minha vida se apaga

com esses restos.

 

In Poesia Reunida

 

 

 

Un Volto

 

 

Appena

una cosa interamente trasparente:

il cielo, e sotto di esso una linea oscura dell’orizzonte

sui tuoi occhi, che potevo vedere ancora

attraverso le palpebre semichiuse, ciglia inumidite

dalla gelata del mattino, una nebbia di parole mormorate

in un silenzio di esitazioni. Da quanto tempo,

tutto questo? Apro l’armadio dove il tempo antico

si riempie di muffa e funghi; pulisco le carte,

lettere che forse non mai letto fino alla fine, fotografie

il cui colore scompare, sostituendo i corpi

con macchie vaghe come apparizioni; e sento, me

stesso, che una parte della mia vita si spegne

con quei resti.

 

 

trad. Ita. de Simonetta Masin

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