
III
A noite da primeira alvorece, se permitido me é exprimir-me assim. O teatro enche-se. O autor espreita pelos olhais do palco e não vê senão caras que se lhe afiguram hostis. É dos seus amigos que ele desconfia mais. Sobe e desce trinta vezes as escadas, nervoso e em ânsias por saber se chegou a cabeleira do galã, se se emendou o vestido da galoa, se o pai nobre tem o espadim e se as botas do cínico são da época.
Faltam sempre coisas e o pobre autor está a dois passos da crise nervosa ou da epilepsia, até que o pano vai para cima.
Logo na primeira cena há um risinho discreto na plateia. A seguir uma gargalhada em cheio. O autor começa a persuadir-se que tem talento, que os actores afinal não são tão maus como ele dizia e que o contra-regra é um tipo bem intencionado. O acto continua a agradar, a plateia está quentíssima, o final é uma ovação. O autor, chamado à cena, dá a mão a quem pouco antes desejaria dar uma facada e acha inteligente e simpática aquela sala que, quando ele a espreitava com o pano em baixo, lhe parecia constituída por gente da pior espécie e bandidos sem coração.
O segundo acto acentua o sucesso. O terceiro é um triunfo. No fim todos se abraçam. O autor beija as mulheres e acha-as encantadoras, abraça os homens e julga-os talentosos, felicita todos a granel, estima-os como se fossem pessoas da sua família e vai finalmente radiante para casa esperar os jornais da manhã seguinte.
Como os jornais quase todos dizem bem – se dizem mal é porque o crítico é um cavalheiro embirrento e desprezível – e como a peça vai cento e cinquenta vezes, o autor, que está absolutamente na espinha, poderia começar a engordar e a gozar tranquilamente o seu quinhão de louros e de sorte.
Mas isso sim! Passados não são três dias já está agarrado ao papel almaço a escrever Os diabetes do tabelião, farsa em três actos que lhe pediram para o teatro do lado…
Como há de engordar um autor dramático?

