“NA CATALUNHA APRENDI A DIFÍCIL ARTE DA TOLERÂNCIA” – EU SOU BOLAÑO – O ESCRITOR E O MITO – por Clara Castilho

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O livro Eu Sou Bolaño – o Escritor e o  Mito, de Celina Manzoni, editado pelo Clube do Autor, é assim por eles definido:  “Este livro demonstra que Roberto Bolaño realizou, em relativamente pouco tempo, um feito que muitos autores perseguiram: criar um público fiel à sua obra. A escrita de Bolaño é reveladora de uma estética nova, que supera modelos esgotados, tanto da denominada literatura realista como da fantástica. Nos seus livros está patente a incorporação do político em registos narrativos que recuperam tradições universais complexas e uma cultura da errância que inaugura cartografias culturais de espaços revisitados (sejam eles grandes ou pequenas cidades), de zonas de paisagens físicas e metafóricas que afectam os corpos e as palavras. “Eu Sou Bolaño” inclui contribuições de vários escritores e textos inéditos de Bolaño, como o discurso de aceitação do Prémio Rómulo Gallegos, proferido em Caracas, e uma breve reflexão do próprio sobre o romance premiado e a sua biografia. A ideia de reunir em livro um conjunto de textos disperso por jornais e revistas de vários países visa proporcionar aos leitores de Bolaño um material informativo importante sobre a sua vida e obra”.

 Da compiladora, Celina Manzoni, algumas palavras:

[…] O seu projecto literário, firmado na paixão pela narrativa, propõe uma poética na qual confluem, e se cruzam livremente, formas culturais tradicionalmente catalogadas e discriminadas pela sua condição de “cultas” ou de “populares”. Simultaneamente coloca questões que resolve com originalidade e audácia: de que forma a ficção pode narrar o político, como narrar o horror, como construir uma memória e uma escrita que transtornem as fronteiras o manifesto e o subjacente.

eu sou bolano

[… ] O projecto de reunir  num livro a crítica a Bolaño articula-se em torno da hipótese de a sua literatura ser reveladora de uma estética nova que supera modelos esgotados…”

Só mais um excerto, este de Ignacio Echevarría:

“À parte o seu talento como narrador, há pelo menos duas coisas que contribuem para explicar o facto de Roberto Bolaño se ter convertido, em poucos anos, num autor insigne da nova narrativa hispano-americana.

A primeira é a sua extraordinária extraterritorialidade. Pela obra de Bolaño transitam – errantes, fantasmáticos – os náufragos de um continente em que o exílio é a figura épica da desolação e da vastidão. Labirinto da identidade, a América Latina é, para Bolaño, uma metáfora do abismo, um território em fuga. […]

Tão longe da ênfase regionalista como da impostura cosmopolita, nada como a própria escrita de Bolaño consegue reflectir, também ao nível do idioma, esta extraterritorialidade que confirma a sua própria condição de escritor chileno e mexicano e espanhol, tudo junto e em simultâneo e nada exactamente.”

No livro, é apresentada uma comunicação do autor estudado, feita no Centro de Estudos Latino-Americanos Rómulo Gallegos, constituindo a primeira vez que aparece ao público. Nela diz o próprio Bolaño:

“Nasci em 1953, o ano em que morreram Estaline e Dylan Thomas…Nesta noite, porém, sonhei com Estaline e Dylon Thomas: estavam ambos num bar da Cidade do México, sentados a uma mesa redonda pequena, uma mesa talhada para o braço-de-ferro, só que o jogo não era este; competiam antes para ver qual dos dois aguentava mais bebida. O poeta galês bebia whisky e o ditador soviético, vodka. Todavia, à medida que o sonho decorria, o único que parecia cada vez mais mareado, cada vez mais à beira da náusea, era eu. …

Em Consejos de um Discípulo de Morrison a un Fanático de Joyce (1984, escrito em colaboração com Antoni García Porta), falo de violência. Em La Pista de Hielo (1993), falo da beleza que dura pouco e cujo final costuma ser desastroso. Em A Literatura Nazi nas Américas (1996), falo da miséria e da soberania da prática literária. Em Estrela Distante (1996), tento uma aproximação, muito modesta, ao mal absoluto. Em Detectives Selvagens (1998), falo da aventura que é sempre luto. Em Amuleto (1999), procuro oferecer ao leitor as palavras arrebatadas de uma uruguaia com vocação grega.  Omito o meu terceiro romance, Monsieur Pain, cujo argumento é indecifrável…. A minha vida foi passada em três países: Chile, México e Espanha. … na Catalunha, também, aprendi a difícil arte da tolerância. Sou muito mais feliz a ler do que a escrever”.

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