2014: ANO EUROPEU DO CÉREBRO E DAS DOENÇAS MENTAIS – QUESTÕES QUE A SAÚDE MENTAL INFANTIL COLOCA por clara castilho

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Decorre o Ano Europeu do Cérebro e das Doenças Mentais escolhido pelo Parlamento Europeu, considerando que se trata de um problema que poderá ter causas e tentativas de intervenção comuns a alguns países da Europa. Continuamos a reflectir sobre o assunto.

Segundo a Direção-Geral da Saúde, “Entre os 5 e os 14 anos, o maior peso da doença na qualidade de vida deve-se às perturbações mentais e comportamentais (22%), especialmente por depressão e ansiedade”.

A partir dos 15 anos e até aos 19, o peso das perturbações mentais e comportamentais mantém-se em primeiro lugar, tendo até um ligeiro aumento percentual.

Ben Zank 2

Foto de Bem Zank

 Saber como se deve intervir nestas idades é uma questão não consensual. É comum pensar-se que a infância e a adolescência são os períodos mais felizes na vida da maioria das pessoas. Logo, falar de perturbações será “psiquiatrizar”. Mas acontece que pelo menos 15% delas têm patologia psiquiátrica a necessitar de algum tipo de ajuda, fruto de circunstâncias individuais ou mais frequentemente do contexto em que crescem e vivem.

 É preciso não esquecer que os problemas de saúde mental infantil são transversais a toda a sociedade, e os de ansiedade ou depressão são até bastante comuns em adolescentes de famílias diferenciadas com níveis de exigência e responsabilidade acima da média. Muitas das intervenções em consulta de Pedopsiquiatria não implicam a toma de medicação. Ir ao psicólogo também não é sinónimo de ser louco, são respostas e ajudas em situações pontuais de crise, que ocorrem ao longo do desenvolvimento.

Por exemplo, segundo a Sociedade Americana de Psiquiatria a forte irritabilidade das crianças é considerada uma verdadeira doença. A nova classificação reúne todas as variantes do autismo numa única categoria, chamada «distúrbios do espectro autista», e exclui a Síndrome de Asperger, que afecta crianças muito inteligentes, mas com grandes dificuldades de interacção social e que até agora era diagnosticada separadamente do autismo.

A dislexia desaparece do manual, enquanto foram criadas novas categorias como a irritabilidade frequente e forte nas crianças, agora considerada uma doença mental. O «stress pós-traumático» também foi incluído num novo capítulo sobre traumas e distúrbios ligados ao stress. O distúrbio que consiste em comer compulsivamente agora também é reconhecido como uma patologia mental.

Por outro lado, a própria Organização Mundial da Saúde (OMS),  a maior agência das Nações Unidas e tem como missão central combater doenças e promover melhores condições de saúde para todos os povos da terra é questionada em determinados assuntos. É o exemplo da  People’s Health Movement, uma rede de organizações não governamentais dedicadas à política de saúde de mais de 70 países. Critica a crescente influência da indústria farmacêutica sobre a Organização Mundial de saúde e a crescente dependência desta frente a doadores privados. Se, inicialmente a OMS, a partir de 1948, era inteiramente financiada pelas contribuições anuais de seus países membros ( hoje 194), agora quase 30% do seu orçamento são provenientes de doadores particulares ou de subvenções governamentais voluntárias – sobretudo dos países onde ficam as maiores empresas farmacêuticas do mundo.

Esta organização questiona, por exemplo, o facto de a Fundação Bill & Melinda Gates  ser subsidiada, entre outros por de empresas conhecidas na indústria química, farmacêutica e alimentícia, cujas actividades práticas muitas vezes vão contra os esforços pela melhoria da saúde global.

Para dar resposta a este tipo de problemas, há necessidade de convencer os poderes públicos de que os serviços primários são a primeira porta de intervenção e replanificar os sistemas de saúde. Há necessidade de traduzir os resultados das investigações em aplicações práticas, de formar técnicos de uma outra forma, quando já se provou que algumas não são eficazes. Há que reconhecer que as maiores mudanças não têm vindo da classe médica e que as mudanças devem ser sobretudo nas atitudes. Há que convencer os decisores políticos do que a investigação já comprovou: para intervir nas perturbações mentais há necessidade de intervir antes, com programas que abranjam toda a população. Há que agir sobre os determinantes sociais para evitar as perturbações mentais.

  

 

 

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