SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – FIM DE SÉRIE – NOTA DE JÚLIO MARQUES MOTA

Parte II

(continuação)

6. Resta-nos falar agora de Marinho Pinto e do que sobre isso António Costa nunca falou. Está, ainda aqui o “Beppe Grillo” português, Marinho Pinto, a milhas de distância do “clown” italiano. E Marinho Pinto  continua a disparar. Propõe-se para as legislativas, propõe-se eventualmente para o cargo de Presidente da República. Abandona o Parlamento Europeu e com uma argumentação  que imediatamente lhe dará votos: contra as mordomias com que se vive no Parlamento Europeu. Um discurso mesmo a calhar, e mais uma vez o modelo europeu passa incólume, mais uma vez Bruxelas, Berlim e Frankfurt passam ao lado das balas disparadas por  este  cavaleiro solitário da justiça em Portugal.

No penúltimo Expresso escreveu Marinho Pinto:

“Há cerca de três semanas anunciei que, em 2015, iria pedir ao eleitorado que substituísse o meu mandato de deputado ao Parlamento Europeu pelo de deputado à Assembleia da República, pois iria candidatar-me ao cargo de primeiro-ministro. E revelei as razões por que o fazia.

Imediatamente, os alabardeiros do sistema político, que vão de uma direita burlesca a uma extrema-esquerda apatetada e a outra de sacristia, reagiram com a finalidade de desviar as atenções do que é importante.

Na verdade, como um coro bem afinado, eles acusaram-me de tudo e mais alguma coisa mas nem uma palavra sobre os motivos da minha intenção de sair do PE.

Para eles é irrelevante que os deputados recebam mais de 18 mil euros mensais para representarem um país cujo salário mínimo é inferior a 500 euros;

que só paguem impostos sobre um terço dessa remuneração e a uma taxa de 20%, enquanto as pessoas que os elegeram, vivem esmagadas com impostos que lhes podem confiscar mais de 50% dos rendimentos do trabalho;

que um simples mandato de cinco anos possa dar direito a uma pensão vitalícia de cerca de 1300 euros mensais quando os portugueses precisam de trabalhar várias décadas para obter uma pensão que nem sequer os sustenta na velhice.

Para eles é insignificante que um eurodeputado disponha de mais de 21 mil euros mensais para contratar quem queira sem ter de justificar essas contratações, tenha todas as viagens suportadas pelo PE e disponha de Mercedes topo de gama e motorista para todas as deslocações (mesmo pessoais) que faça em Bruxelas ou em Estrasburgo.

Nada disso os perturba.

O que os incomoda — e muito — é o facto de um deputado recém-eleito se ter recusado a saborear em silêncio essas mordomias, as ter denunciado como inadmissíveis perante a pobreza do povo que representa e se preparar para regressar ao combate político em Portugal.

Acusam-no de falta de coerência pois, para eles, quem não concorda com esses privilégios deveria demitir-se.”

Nada disto é mentira. Mas é aqui que a distância entre Marinho Pinto  e Beppe Grillo é enorme. Marinho Pinto reduz o seu discurso moral a uma redução noção de justiça, as mordomias mas que entretanto as vai recebendo. Estas existem e devem ser denunciadas, é certo, mas o mundo político não se pode reduzir a isto. E isto é  pouco, muito pouco. Mesmo ao nível da justiça, poderia denunciá-las hoje e sempre enquanto existissem e tornar o dinheiro que não quer bem mais útil, distribuindo-o  por organismos de apoio social, como fazem os homens do Movimento 5 estrelas. Mas para mim o grave é que o mundo político não se pode nem deve nunca reduzir a isto. E, de novo, uma maior diferença ainda com o “palhaço italiano”  a desfavor de Marinho Pinto, o justiceiro solitário.

Olhemos para o programa do Movimento 5 Estrelas e para a parte de Estado e Cidadania e depois para a parte da Economia :

  1. Parte de Estado e Cidadania pag 2 de 15

A organização actual do Estado é burocrática, sobredimensionada, dispendiosa, ineficiente

. O Parlamento já não representa os cidadãos que não podem escolher  os seus  candidatos, mas apenas o símbolo de partido. A Constituição não é aplicada. Os partidos substituem-se à vontade popular e subtraem-se ao seu controlo e julgamento.

  • Abolição das províncias

  • Abolição dos reembolsos eleitorais

  • Junção de Comunas com menos de 5.000 habitantes

  • Abolição do Lodo Alfano

  • Ensino da Constituição e o exame obrigatório para cada funcionário publico

  • Redução a dois mandatos para os deputados e para qualquer outro cargo público

  • Eliminação de qualquer privilégio particular para os deputados, entre estes o direito à pensão, após dois anos e meio.

  • Proibição para os deputados de exercerem  outra profissão durante o mandato

  • As remunerações dos parlamentar es devem estar alinhados pela média das remunerações nacionais

  • Proibição de acumular cargos para os deputados (exempio: Presidente de uma Câmara e Deputado))

  • Não elegibilidade para os cargos públicos a cidadãos que tenham sido condenados

  • Participação directa em cada encontro publico por parte dos cidadãos via  web,    como já se faz para a Câmara e Senado

  • Abolição da Authority e simultânea introdução de um verdadeira  acção colectiva (class action)

  • Referendo ou referendos revogatórios sobre leis aprovadas sem quórum

  • Obrigação da discussão parlamentar e de votação nominal para as leis de iniciativa popular

  1. Parte de ECONOMIA pagina 2 di 15

  • Introdução da acção colectiva [1]

  • Proibição das caixas chinesas na Bolsa[2]

  • Proibição de remunerações múltiplas por parte de conselheiros de administração nos conselhos de sociedades cotadas.

  • Introdução de estruturas de verdadeira representação dos pequenos accionistas nas sociedades cotadas

  • Abolição das leis Baggi

  • Impedir o desmantelamento das indústrias alimentares e transformadoras com um mercado predominante interno

  • Vetar os cruzamentos de acções entre o sistema bancário e o sistema industrial

  • Introduzir a responsabilidade dos organismos financeiros sobre os produtos propostos com uma comparticipação nas  eventuais perdas

  • Impedir os conselheiros de administração que obtenham uma outra qualquer função na mesma sociedade se esta se tornar responsável de graves delitos

  • Impedir a compra através de um predominante endividamento de uma sociedade (é. Telecom Italia)

  • Introdução de um tecto para as despesas de gestão das empresas cotadas em Bolsa e das empresas com participação considerável ou maioritário do Estado

  • Abolição das stock-options

  • Abolição das situações de monopólio de facto, em particular Telecom Italia, Autostrade, ENI, ENEL, Mediaset, Ferrovie dello Stato

  • Alinhamento das tarifas de energia, conectividade, telefones, electricidade, transportes com as dos outros países europeus

  • Redução da dívida pública com fortes intervenções sobre os custos do Estado com o corte dos desperdícios e com a introdução de novas tecnologias para permitir ao cidadão o acesso às informações e aos serviços sem necessidade de intermediários.

Nada deste discurso, nada desta denuncia sistemática  se encontra no solitário Marinho Pinto, no “ justiceiro” Marinho Pinto mas de novo António Costa num dos últimos Expresso também volta a não questionar seriamente Marinho Pinto, que poderá pela tecla escolhida aumentar consideravelmente a sua de votação nos círculos por  onde concorrer. Lembram-se do PRD? Fez os seus estragos pontuais, para desaparecer e deixar tudo na mesma. Importava ao nível do PS que essa discussão se fizesse, que fosse pública, e não que imputasse a um secretário-geral os votos que Marinho Pinto recolheu. Mas essa discussão foi evitada com a tensão criada por António Costa  no PS.

A  esquerda pode morrer, dizem-nos os homens ao serviço do actual modelo europeu a partir de Paris e portanto nada haverá a esperar da actual classe política em França, pelo menos dos partidos pertencentes ao arco do poder.  Nada haverá a esperar em Itália pelos partidos equivalentes que claramente aprisionaram, a Democracia. E em Portugal?   Pelo correr da carruagem creio que estamos ao mesmo plano e não  é com a pratica imposta por António Costa que disto nos desviaremos enquanto país.

Face ao descalabro do que se passa em França  dizem-nos actualmente na revista Causeur  desta semana  :

“ Então sejamos totalmente  claros: se eu amanhã pensar que uma aliança táctica com os  partidos de direita (um bilhete Juppé-Bayrou, mas igualmente uma inflexão Bleu-Marine)  pode fazer avançar a causa dos que sofrem realmente, vítimas dos emagrecimentos  das grandes empresas, da política de deflação sistemática  ou dos pretextos demagógico-pedagógicos que teorizam o sucesso de todos a fim de realizarem o seu próprio sucesso , pois bem, eu  alinharei  e sem pestanejar . Porque qualquer aliança com o PS tornou-se impossível (e desde há vários anos, desde a era Jospin com efeito), e que persistir a querer-se “de esquerda” com os fantoches sangrentos que nos governam em nome da esquerda   é uma tarefa  ilusória: a Direita é  hoje— porque uns estão em crise e porque os  outros têm fome de poder — um veículo mais cómodo das ambições realmente revolucionárias.”

(continua)

________

[1] As acções colectivas permitem que inúmeras acções individuais sejam substituídas por uma única. As acções colectivas também trazem economias do ponto de vista  financeiro, uma vez que os custos do processo e das custas dos tribunais podem ser repartidos por todo  o  grupo.

[2] Segundo Wikipédia:

La scatola cinese vera e propria è la società controllata, al cui interno vengono annidate le altre società controllate a loro volta da quest’ultima. Il termine finanziario deriva dalla locuzione scatole cinesi, con la quale si indica una collezione di scatole di grandezza crescente, che possono essere inserite l’una nell’altra in sequenza. Un altro esempio pratico può essere quello rappresentato dalle matrioske.

Meccanismo e funzionamento[modifica | modifica sorgente]

Exquisite-kfind.png             Per approfondire, vedi Leva azionaria.

Per spiegarne il funzionamento, questo viene semplificato portando l’esempio delle tre società A, B e C, ipoteticamente controllate da un soggetto generico che, in principio, possiede esclusivamente una quota di maggioranza, ad esempio il 52%, della società A.

Il soggetto generico, pur non possedendo la totalità della azioni di A (il 100%), ha il potere decisionale in seno alla società A per ordinare a quest’ultima di acquistare un esemplificativo 51% della società B.

A questo punto, il 52% della A è di proprietà esclusiva del soggetto generico, ma non il 51% di B, che bensì è di proprietà esclusiva dell’intera società A. Ma il soggetto generico, con la quota di maggioranza in A, può reputarsi proprietario di B.

La società A (manovrata dal soggetto generico) può quindi ordinare a B di acquistare una quota di maggioranza di un’altra ipotetica società C per riuscire a controllare anche quest’ultima. Con questo sistema, il soggetto generico può quindi arrivare a controllare un numero teoricamente infinito di società, grazie alle quali può assicurarsi un forte potere economico, e la capacità potenziale di influenzare enormemente l’ambito finanziario di uno o più Stati.

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