SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – O DESASTRE ITALIANO , por PERRY ANDERSON

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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O Desastre Italiano

mapa itália

Perry Anderson, The Italian Disaster*,

London Review of Books, Volume 36, Nº 10, 22 de Maio de 2014

 Parte IV

(continuação) 

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Alguns meses mais tarde, a tempestade financeira vinda  de além-Atlântico atingiu a Europa, primeiro na Irlanda, em seguida, na Grécia. Na Itália, a segunda República tinha sido desde o início um insucesso económico, apesar dos primeiros e melhores  esforços de centro-esquerda nesse mesmo insucesso – (Giuliano Amato tinha cortado na despesa pública e privatizado, Romano Prodi ajudou o país a entrar para dentro da  camisa de forças que é o Pacto de Estabilidade). As taxas  de crescimento italiano afundaram-se  ao longo dos anos 1990. Depois de 2000, estagnou-se e ficou-se com um crescimento, em  média,  de 0,25 por cento do PIB ao ano. No espaço de  um ano após a  reeleição de Berlusconi, em 2008, começaram  a aumentar os spreads entre os títulos da dívida pública italiana e alemã . Em  2009 a recessão foi mais profunda do que em qualquer outro país da zona euro, com o PIB a cair  mais de cinco pontos percentuais. Para manter os mercados financeiros calmos, foram aplicados sucessivos pacotes de emergência  com  reduções nos défices orçamentais   mas com as taxas de juros a subirem e estamos a falar da terceira maior dívida pública do mundo, pelo que no final de 2010 o governo estava a chegar ao limite da sua capacidade económica.

Politicamente, tinha-se saído um pouco melhor. De Março a Outubro de 2009, as grandes notícias dos medias  foram dominadas por revelações sensacionais à volta das extravagâncias sexuais de Berlusconi, dando assim uma enorme vivacidade à  profética descrição da regra de  Giovanni Sartori– tomando de empréstimo  um termo de Weber – como um sultanate222.  Sempre  dado a gabar-se das suas proezas na cama, com arrogância agora  disposto   a desafiar também a sua  idade, deixou  de ter a  elementar prudência, misturando nas suas orgias   donzelas  e raparigas menores, a ponto de provocar uma ruptura pública com a  sua esposa, Veronica Lario. Logo a seguir passou a receber prostitutas na sua residência romana. Desapontada por  não conseguir uma licença de construção prometida  em Bari, uma delas relatou as  suas visitas.  Na sua  mansão palaciana em Arcore, fora de Milão, as orgias foram encenadas ao estilo agora actualizado das fantasias do século XVIII, com as mulheres vestidas como freiras – agora também como enfermeiras e como policias – a  cabriolarem   e a despirem-se para a posse colectiva. Quando uma das participantes, uma jovem marroquina, posteriormente foi presa  por roubo em Milão, Berlusconi interveio  para assegurar a sua libertação como sendo uma sobrinha de Mubarak. Uma vez que ela ainda não tinha  18 anos, seguiram-se   processos judiciais contra Berlusconi. Embora não tão prejudicial como o foi o desastre que a seguir apanhou Dominique Strauss-Kahn, Presidente do FMI e candidato favorito para  o cargo de  Presidente da República  francesa, Berlusconi foi claramente enfraquecido pela degradação da sua imagem. Mas, entretanto, politicamente  sobreviveu.

Uma ameaça mais séria à sua posição veio de uma outra direcção. Dado o seu excesso  de confiança, que surgiu na sequência do seu sucesso eleitoral,  Berlusconi perdeu o sentido dos seus limites políticos, humilhando  gratuitamente Fini, que anteriormente Berlusconi tinha ele-mesmo  pensado para ser o seu sucessor e que era agora porta-voz   no Parlamento. No Verão de 2010, percebendo que ele já não podia esperar ser o herdeiro natural do centro-direita e não resistindo à  bajulação de oposição que ele poderia até provar  ser o melhor líder de um responsável centro-esquerda, Fini tinha pois desertado da sua ligação a Berlusconi. Levando com ele suficientes  deputados e privando então o  governo de  estar  assente numa  maioria estável, por pouco não conseguiu derrubá-lo no Outono. Na primavera de 2011, os eleitores também foram abandonando o governo, Berlusconi perdeu  o controle até  numa  fortaleza sua como o era o caso de Milão.

Durante o Verão, como a crise da zona euro se intensificou, com a Grécia a aproximar-se da situação de incumprimento, aumentou a pressão feita pelos  mercados obrigacionistas  sobre a Itália. A Alemanha, ladeada pela  França e pelo  Banco Central Europeu, fez então pouco  segredo da sua determinação em querer  quebrar toda e qualquer resistência às medidas de austeridade draconianas e em  eliminar dirigentes  que hesitassem em as aplicar, em Atenas ou Roma. Em Agosto, Trichet e Draghi – presidente a sair, presidente a entrar, respectivamente, do BCE – enviaram  um virtual ultimato  a Berlusconi. Dois meses mais tarde, Papandreou foi forçado numa  cimeira da UE a aceitar mais cortes selvagens   nos gastos públicos e a prometer  desencadear um forte processo de privatizações. Entrando em pânico na maré da ira popular contra tudo isto  – o Presidente da Grécia foi conduzido de  carro aberto – em Salónica no Dia Nacional – este anunciou um referendo sobre as medidas  e foi imediatamente convocado para Cannes por Merkel e Sarkozy que lhe terão dito  para cancelar uma tal coisa.  Uma semana depois, ele  abandona o governo. No prazo de três dias, Berlusconi  seguiu o mesmo caminho.

A dinâmica da queda de Berlusconi, no entanto, não era a mesma. Na Grécia, Papandreou estava a presidir a um governo que às ordens de Berlim,  Paris e Frankfurt estava a conduzir o país para uma situação de empobrecimento generalizado e com isso  tinha gerado  um  enorme protesto social. Até a sua ideia súbita de um referendo, ele tinha sido um instrumento perfeitamente aceitável e cumpridor da vontade da União Europeia  – uma disposição que a velocidade com a qual se submeteu depois  a Merkel e Sarkozy ao retirar   a sua proposta prontamente confirma. Papandreu demitiu-se  porque a sua posição se  tornou  internamente insustentável. Na Itália,  não havia uma tal  mobilização popular nem um processo de pauperização em curso. A maioria de Berlusconi na Câmara estava agora no fio da navalha  e alguns dos seus deputados  temiam fortemente o disparar dos spreads entre a dívida pública italiana e a alemã.  Mas Berlusconi manteve o controle total do Senado e ainda tinha que ser  vencido nos  tribunais. A sua  posição interna era  substancialmente mais forte do que a de Papandreou. Na União Europeia em geral, no entanto, a hostilidade para com ele era muito maior, como um embaraço desde  longa data para a  classe política; e a determinação de Berlim e Frankfurt para se livrar dele, como um obstáculo para a purga necessária na ordem económica e social italiana, tornou-se cada vez mais implacável.

(continua)

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*Ver o original em:

http://www.lrb.co.uk/v36/n10/perry-anderson/the-italian-disaster

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