CARTA DE LISBOA – O Reino Unido da Grã-Ibéria – por Pedro Godinho

lisboa

 

 

Imaginemos que os conjurados não tinham sido bem-sucedidos em 1640.

Ou que, depois daquela revolta, Portugal não aguentava os 28 anos de tentativas de invasão espanhola e tinha saído derrotado das Guerras de Restauração.

E que o domínio espanhol dos Filipes de Habsburgo, instalado em 1580, tinha continuado, com a corte e o poder em Madrid.

E que, na sua senda centralista, Castela tinha criado o RUGI – Reino Unido da Grã-Ibéria.

Todas as decisões importantes, e mesmo muitas menores, sobre a nossa vida seriam tomadas pelo centro imperial.

E Portugal seria apenas mais uma sua província ou região.

Como aconteceu com outros, provavelmente, a língua portuguesa teria sido proibida e obrigar-nos-iam a ser castelhano-falantes.

E a nossa história, e cultura, deixariam de sê-lo, e tornar-se-iam a de outros.

Nos dias de hoje, para dar uma imagem mais aberta e moderna do Reino, dar-nos-iam alguma autonomia, limitada, e, de quando em vez, fariam semblante de nos ouvir e de se preocupar.

Mas, ai de nós se quiséssemos poder decidir do nosso governo, do nosso presente e futuro.

Aí, atirar-nos-iam com a unidade e indivisibilidade do Reino e, para o defender, com a força bruta de todas as suas armas: livres só se súbditos.

Quais de nós não quereriam, então, reganhar o direito, soberano, de poder decidir sobre como ser governado e por quem ser governado, sobre a sua independência.

Talvez se pensarmos que podíamos, hoje, sem o querer, estar submetidos a um mando herdado e não escolhido sejamos capazes de compreender como é inaceitável que Estados haja que não reconheçam a povos e nações sob o seu domínio o direito à palavra e à decisão.

Talvez assim percebamos como é importante para milhões de escoceses e catalães, desde logo, mas também para bascos e galegos entre outros, o direito a fazerem-se ouvir e decidir, livre e democraticamente, sobre o seu futuro.

O colonialismo não é uma questão de cor.

A primeira exigência da democracia é o direito a decidir sobre a autodeterminação.

Ser livre é poder escolher.

Sim.

4 Comments

  1. Quem até hoje pode dizer que foi bom ter saido vitorioso em 1640 foram só as classes dirigentes; os cidadãos comuns têm sido sempre prejudicados em relação aos espanhois comuns, sejam bascos catalães ou galegos.

  2. Três vivas ao Pedro. A Escócia como qualquer outra Nação tem o direito de ser um Estado e se a circunstância despropositada apontada por “cristof9” tiver a infelicidade de prosseguir, jamais pode ser um obstáculo minimamente ponderável face ao caminho para a Independência Nacional e, sobretudo, para a mobilidade evolutiva da História.CLV

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