SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – O DESASTRE ITALIANO , por PERRY ANDERSON

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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O Desastre Italiano

mapa itália

Perry Anderson, The Italian Disaster*,

London Review of Books, Volume 36, Nº 10, 22 de Maio de 2014

 Parte V

(continuação)

No entanto, para a sua destituição,  foi necessário um mecanismo que ligasse  a  erosão da sua posição interna,  ainda não totalmente realizada,  com a aversão absoluta para com ele vinda do  exterior. Para seu azar, estava tudo  preparado e pronto para se  actuar contra ele. Menos notada  do que outras  mudanças forjadas  pela segunda República, tinha havido um aumento constante no papel da Presidência nos assuntos políticos da Itália. Sob o reinado da democracia cristã na primeira República, quando um  partido dominou sempre o poder  legislativo, este enorme e aparatoso cerimonial  raramente tinha sido muito importante. Mas uma coligação  política rival  lutou pelo poder na Segunda República, um novo espaço de manobra  se abriu pela  Presidência. Scalfaro – o incumbente do Quirinale de 1992 a 1999 – tinha sido o primeiro a fazer uso disto, recusando qualquer dissolução do Parlamento quando Berlusconi perdeu a  sua primeira maioria em 1994, em vez disso, facilitando uma coligação de centro-esquerda no poder, uma verdadeira manta de retalhos , para dar tempo a  que Berlusconi reunisse  as suas forças para uma vitória nas urnas sob Prodi no ano seguinte.

Agora o presidente era, como Scalfaro, um antigo ministro do Interior, Giorgio Napolitano. Berlusconi tinha apoiado a eleição de Napolitano para o cargo em 2006 e tinha razão para pensar que tinha feito uma escolha sensata em ajudar este veterano da classe política tradicional para o Quirinale.  Como Vicar of   Bray,  Napolitano ao longo da sua longa  carreira exibiu um princípio fixo, adesão a qualquer tendência política que lhe pareça ser a vencedora no momento.  A ideia de uma longa ordem vem-lhe deste longa data, desde os seus tempos de estudante, quando ele se juntou ao  Gruppo Universitario Fascista, na altura em que a  Itália foi enviando tropas  para se juntarem às forças Nazis para   atacar a  Russia.3 Uma vez o  fascismo caído, o jovem Napolitano optou por se ligar às forças do comunismo. Juntando-se ao PCI em 1945, subiu rapidamente através das  suas fileiras, atingindo o Comité Central em pouco mais de uma década. Quando os tanques e as tropas russas esmagaram a revolta húngara de 1956, aplaudiu esta situação.  “A intervenção soviética deu um contributo decisivo, não só para impedir a Hungria  de  cair no caos e na contra-revolução e defendendo  os interesses militares e estratégicos da URSS, mas para salvar a paz do mundo”  disse Napolitano no  Congresso do partido em Novembro. Saudando  a expulsão de Solzhenitsyn da Rússia em 1964, declarou: ‘Somente os comentadores facciosos e tolos podem evocar o espectro do estalinismo, passando por cima da maneira  como  Solzhenitsyn empurrou a questão  para um ponto de ruptura.” Por esta altura, ele era o braço direito de Giorgio Amendola, após a morte de Togliatti e este  último  foi, na verdade,  a figura mais importante  no PCI. Tal como o seu patrono, Amendola,  ele era um firme disciplinador das dissidências internas, votou sem hesitação para a erradicação do partido   do grupo Manifesto  por falar de modo discordante da tese oficial  contra a invasão da Checoslováquia.  Com as fendas existentes na unidade do secretariado e na direcção do Partido,   Amendola era largamente olhado  como o próximo secretário-geral do PCI.

Na nomeação, o cargo  foi para Enrico Berlinguer, uma figura com mais apoios e menos geradora de divisões.  Mas Napolitano permaneceu um ornamento do Partido  enquanto que este se deslocava  para o eurocomunismo. Na década de 1970, Napolitano foi escolhido como primeiro representante do PCI para tranquilizar os Estados Unidos quanto à confiança  nas suas posições atlantistas, e, nesta altura, tornava-se   “ o comunista favorito de Kissinger “, nas palavras de satisfação do New York Times. Na década de 1980, a transferência de total fidelidade para um novo  suserano  estava completamente alcançada.

Com o  Terceiro Reich de  má memória, com  a União Soviética em declínio, os EUA era agora o novo poder a  cultivar. Responsável pelas  relações internacionais do  PCI, Napolitano tomaria o cuidado de olear as  relações com Washington, mesmo muito tempo depois de o Partido ter desaparecido.  Uma vez Presidente, ele foi ao encontro de Bush e Obama igualmente a afirmar a sua disposição em apoiar a política americana.

Internamente, o fracasso da oferta do PCI para se alcançar um “compromisso histórico” com a Democracia cristã que lhes  teria dado entrada no governo e, em vez disso,  a ascensão  – no  meio de uma  corrupção cada vez mais evidente – do Partido Socialista de Craxi como o parceiro-chave da DC,  levou a que Berlinguer  tenha feito uma viragem à esquerda . Denunciando a degeneração do sistema político italiano criada pela corrupção , ele lançou um apelo  para que a vida pública em Itália se tornasse bem mais limpa.  Napolitano respondeu com raiva, atacando-o pelo seu  isolacionismo sectário e “pelo vazio do seu ataque ‘.  As relações entre os dois homens foram sempre frias. Mas o que estava em jogo era bem mais que a rivalidade pessoal entre estes dois homens. Napolitano chefiou a corrente mais à direita no PCI daquela altura, miglioristi que tinha uma certa afinidade com  Craxi e não queria assumir  hostilidades para com este.  A sua  base principal foi Milão, onde a máquina de Craxi dominava a cidade. Por meados  da década de 1980, eles publicaram um jornal,  IL  Moderno, não somente subsidiado por Berlusconi, mas em que saudavam a sua  conquista revolucionária na modernização dos meios de comunicação e na televisão fazendo de Milão a capital televisiva da Itália. Isto foi em 1986, quando Craxi era  primeiro-ministro. Um tribunal mais tarde viria acusar a sociedade holding de Berlusconi, a Fininvest, de responsável pelo financiamento  ilegal dos  miglioristi.  Em Fevereiro, no período que antecedeu  um referendo anti-nuclear em Itália, o jornal do PCI recusou um artigo pro-nuclear escrito por Giovanni Battista Zorzoli, um dos fieis seguidores de Napolitano. Furioso, Napolitano exigiu a cabeça do editor. Por volta de  1993,  Zorzoli foi algemado, condenado a quatro anos anos e meio de prisão por corrupção quando ele era um alto-executivo da empresa estatal de energia da Itália

Pouco tempo depois, Napolitano tornou-se  ministro do Interior no governo de centro-esquerda, em  1996.  Foi a primeira vez que alguém da esquerda se tinha tornado o responsável por este ministério.  O envolvimento da polícia italiana e o aparato dos serviços secretos  na chamada estratégia da  tensão – uma série de atentados à bomba desde o massacre de Piazza Fontana em Milão em 1969 até à  estação de comboios de Bolonha, em 1980 – tinha sido certificada mas  nunca investigada. Qualquer que tenha sido o nervosismo que a primeira vez que um  comunista tenha ocupado este ministério possa ter  causado, este possível nervosismo desde logo  se dissipou. Napolitano assegurou aos seus subordinados que não estava “à procura de  esqueletos no armário”. Nem as revelações a despropósito perturbaram o seu ministério.  Foi nomeado  senador vitalício em 2005. Tornou-se   presidente da República um ano mais tarde, e nessa função  lamentou  publicamente que Craxi – que morreu no exílio na Tunísia, depois de ter sido condenado à revelia a 27 anos de prisão por uma monumental corrupção – tenha  sido tratado de modo muito  injusto,  ao mesmo tempo que elogiava o seu papel construtivo como um homem de Estado.

Napolitano  não teve a mesma consideração para com Berlusconi, vendo-o com uma benigna condescendência– e também alguma justiça – como não sendo de modo nenhum  um verdadeiro político, no sentido do que tinham sido as principais figuras da primeira República. Os dois homens de qualquer forma não poderiam ter estado  em mais clara oposição  em termos de  estilo, uma vez que o decoro cerimonioso do Napolitano era um contraste estudado relativamente ao comportamento e ar afectado de Berlusconi. Mas eles partilharam um fundo comum no conjunto das simpatias e das ligações criadas à volta de  Craxi em Milão, e um interesse comum em estabilizar o que cada um via  como sendo os ganhos potenciais da Segunda República: um sistema político bipolar ao longo de linhas anglo-saxónicas,  confinado entre um  centro-direita e um  centro-esquerda, limpo de hostilidade para com o mercado e para com o seu guardião transatlântico. Pelas  suas próprias razões,  cada um deles também   temia a persistência dos seus adversários  em desenterrarem  acusações contra o líder mais popular do país, e o ressentimento das minorias irresponsáveis em insistirem nelas.

Para Berlusconi estas eram, claro, ameaças existenciais. Para Napolitano eram simplesmente acusações divisionistas, tal como o tinha sido o moralismo do Berlinguer, que com a sua insatisfação fazia  balançar   o barco do consenso moderado que o país exigia. Napolitano estava mais que disposto a ajudar Berlusconi a  proteger-se  de tais problemas, assinando em lei e sem hesitação o Lodo Alfano de 2008 garantindo  a imunidade a Berlusconi como primeiro-ministro e a ele próprio como Presidente ; e quando isto foi considerado  inconstitucional, ratificou-se  com  igual rapidez a lei  substituta aprovada em  2010, legitimo impedimento a permitir aos ministros  evitarem  julgamentos, invocando  as obrigações  prementes como ministros servidores da Res pública  e que foi considerada,  por sua vez,  inconstitucional em 2011. Napolitano foi publicamente criticado pela sua inconveniente aprovação da primeira por Ciampi, seu antecessor na Presidência e  não tinha nenhum obrigação de andar ao sabor das ondas, antes pelo contrário, como se mostra com os  resultado jurídicos sobre cada uma das suas  aprovações. As acções do Napolitano, no entanto, estavam de acordo com as  expectativas de Berlusconi  relativamente ao  modus vivendi entre eles, na base do qual este o tinha apoiado para ser  Presidente. Uma expressão ainda mais pronunciada  desse  entendimento deu-se  quando a  deserção de  Fini privou o  governo de Berlusconi de uma maioria na Câmara, e a oposição apresentou um voto de censura  com os votos na mão para derrubar o governo. Em 2008, Prodi tinha estado  numa situação semelhante depois de  Berlusconi ter  comprado votos suficientes no Senado para o derrubar, um episódio relativamente ao  qual está actualmente indiciado   de ter pago a  um senador € 3 milhões para virar de casaca, um suborno  que o destinatário já  confessou. Então,  Napolitano perdeu pouco tempo – menos de uma quinzena – para utilizar a sua  prerrogativa presidencial para dissolver o Parlamento e exigir  novas eleições, o que foi  uma avalanche para  Berlusconi. Agora, no entanto, Napolitano persuadiu Fini a manter-se  por mais de um mês, até que fosse  aprovada uma lei orçamental, permitindo que Berlusconi ganhasse  tempo para comprar o punhado de deputados necessário para restaurar a sua maioria.

(continua)

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*Ver o original em:

http://www.lrb.co.uk/v36/n10/perry-anderson/the-italian-disaster

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