A NOSSA RÁDIO – CELEBRANDO CARLOS PAREDES – 1 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

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Para ouvir as músicas e as canções, há que aceder à página

 http://nossaradio.blogspot.com/2014/07/celebrando-carlos-paredes.html 

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

A menos que se lhe aceitem os arranjos mais ou menos livres, a guitarra portuguesa é um intérprete muito pouco fiel de toda a música que não tenha saído das suasImagem2 cordas, de preferência pelas mãos do próprio executante. A razão está em que, para revelar convenientemente as qualidades que a distinguem dos outros instrumentos congéneres, é necessário empregar uma técnica híbrida da mão direita, um misto de plectrum e primitiva dedilhação do alaúde.
E a verdade é que, até hoje, apesar de várias e persistentes experiências, não foi possível substituí-la por outra mais racional. António da Silva Leite, compositor radicado na cidade do Porto, publicou, nos fins do século XVIII, um método e seis sonatas para guitarra portuguesa, com acompanhamento, ad libitum, de um violino e duas trompas.
O termo ad libitum refere-se, aqui, a uma elástica liberdade de interpretação das partes escritas para os instrumentos acompanhadores, em função, evidentemente, da execução, de certo modo irregular, imposta ao solista pelas particularidades da sua técnica. No entanto, pode deduzir-se que António da Silva Leite, ele próprio notável executante de guitarra portuguesa, se soube servir, pela primeira vez, de toda uma expressividade muito especial para mascarar aquelas insuficiências. E se, como era de esperar, não logrou conquistar para a música erudita um novo instrumento, os seus processos fizeram escola e deixaram atrás de si uma tradição de expressivos guitarristas, com o ouvido bem afeito aos rudimentos da harmonia clássica, e um certo bom gosto que sobreviveu até à primeira metade do nosso século.
Meu avô, Gonçalo Paredes, é, pode dizer-se, um representante dessa tradição. A segunda parte da sua valsa, incluída neste disco, foi-lhe acrescentada por meu pai, Artur Paredes, o original renovador da chamada guitarra de Coimbra.
São, aliás, influências de ambos, de mistura com uma propensão pessoal para o virtuosismo e o melodismo de sugestão violinística, que marcam as minhas mais antigas realizações: Movimento Perpétuo, Variações em Mi menor, Variações em Ré menor e Danças Portuguesas, da face inicial do disco.

CARLOS PAREDES (in contracapa do LP “Movimento Perpétuo”, Columbia/VC, 1971)

VERDES ANOS

Era um tempo dividido:

manhãs de cinza, tardes de euforia.

Era um tempo de litígio:

noites clandestinas, sinais de asfixia.

Como esquecer-te guitarra de verdes

ramos rompendo a monotonia,

dor do passado, saudade do futuro,

ferida aberta em som tão puro.

 

Verdes anos que a música prometia:

como ave antiga, o canto nos trazia.

MANUEL SIMÕES (in “Micromundos”, Edições Colibri, Lisboa, 2005)

Quando a ouço, estremeço todo por dentro. Atenção: sou um cristal. Posso quebrar. Esta guitarra está cheia de mistério: é uma laranja azul a crescer-me dentro do peito. E se existem deuses, eles andam, loucos, à solta pelas suas cordas de sol, de mar e de memória. Esta guitarra toca, vibra, no mais antigo de mim. E no mais futuro. De mim? De nós. Dos que nascemos aqui — à beira água, à beira mágoa, à beira sonho — há oitocentos anos. E temos um coração de povo, aflito, batendo descompassadamente sobre o lado esquerdo. Esta guitarra chamada Paredes. Esta guitarra chamada Portugal.

JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS (“Paredes é nome de guitarra”, in jornal “Se7e” n.º 59, 25-Jul-1979, p. 10)

Carlos Paredes liberta da guitarra uma música carregada de significados, uma música na qual, como artista atento à realidade que o cerca, tenta reflectir todo um complexo conjunto de emoções e sentimentos. Não uma arte neutra, obedecendo cegamente a formalismos vazios de uma estética do inútil qualquer. Uma arte fortemente enraizada na realidade.
Nas suas mãos, a guitarra portuguesa é o «canto» da terra revolvida dentro de cada um de nós, a «voz» que nunca se calou das nossas origens — é então que, acima de Carlos Paredes, se ergue toda uma sinfonia de vivências e de experiências adquiridas, toda uma reflexão em torno de nós próprios. E, assumindo a dimensão dos criadores do humano, Carlos Paredes, humilde transmissor de todas essas emoções e sentimentos, deixa que a guitarra se desprenda das suas mãos e parta, com todos nós, à procura de nós próprios.

MÁRIO CORREIA (“Carlos Paredes: uma guitarra com voz em movimento perpétuo”, in revista “Mundo da Canção, n.º 67, 30-Jun-1985, p. 11)

Na efeméride dos dez anos da morte de Carlos Paredes [>> biografia e discografia] damos nota positiva à TSF pela transmissão de uma reportagem feita por João Torgal, em Coimbra, na escola de música da Associação Fado ao Centro, seguida de uma das mais belas peças do genial guitarrista, “Dança dos Montanheses”.
A nota negativa – muito negativa – vai para a rádio que tinha a obrigação de fazer mais e nada fez para lembrar Carlos Paredes: a Antena 1. E se o alheamento da estação de serviço público face a uma figura tão importante da música portuguesa (e mundial – não será exagero afirmá-lo) é assaz reprovável na presente efeméride, não o é menos o silenciamento de todos os dias na lista de difusão musical, vulgo ‘playlist’.
Não sendo muito extenso, o repertório de Carlos Paredes está repleto de pérolas, das mais brilhantes e fascinantes que até hoje se criaram em Portugal. Aqui se apresenta, para a devida apreciação pública, um bom lote delas, algumas das quais emparceiradas com canções (ou poemas cantados, se se preferir) sobre a mesma melodia.

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