CONTOS & CRÓNICAS -“UM DIA DIFÍCIL PARA MAURÍCIO VILAR” – por João Machado

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Pois, meu amigo, após a noite complicada de anteontem para ontem, deixe-me contar-lhe o dia a seguir. Foi na realidade difícil. Levantei-me relativamente tarde, já passava das dez horas, e encontrei a Heloísa na sala, bastante preocupada. Nem tinha ligado a televisão, veja só o estado em que ela estava. Ralhou comigo:

– Levantaste-te tão tarde. Já te tinha ido chamar às nove e um quarto. Não me ouviste? Saio para ir à mercearia, deixo-te o pequeno almoço na mesa, e, quando volto, está tudo na mesma. Hoje não tens de ir à faculdade?

– Desculpa, mãe. Esta noite custou-me a adormecer. Sabes lá o que me aconteceu.

– Pois, já percebi que tiveste umas aventuras nocturnas. A Josefa já me contou qualquer coisa. Mas como te meteste nisto? Anda tomar o pequeno almoço. Tenho de aquecer tudo outras. O café, as torradas… Lindo serviço.

Fomos para a cozinha. Enquanto ela ligava a cafeteira e dava um calor às torradas, fui dando a minha versão dos acontecimentos.

– Ontem à noite, estavas a ver televisão, e não ouviste bater ao de leve na porta. – Não lhe disse que ela dormia em frente à televisão, porque tínhamos logo o caldo entornado. – Fui ver, e era a Maria Antónia. Disse-me que tinha recebido um telefonema da D. Generosa, a dizer que tinha lá na pensão um indivíduo que lhe parecia ser o irmão da D. Josefa, um que tem estado preso, e pediu que se fosse avisá-la. A Maria Antónia não queria deixar a D. Henriqueta sozinha, de modo que me pediu para ir lá. Não te quis interromper.

– Que disparate! E eu que não dei por nada. Mas não devias ter saído sem me avisares.

– Desculpa, mãe. Não te quis apoquentar.

– Não devias ter feito isso. Bem, a Josefa ficou-te muito agradecida. Está muito preocupada com a vinda do irmão. Acho que ele se chama Álvaro. Tem sido uma dor de cabeça para a família. A Josefa está apavorada. Diz que ele se mete na batota, e arranja desordens. Rouba o que pode, e chega a chantagear as pessoas. Parece que até já foi carteirista.

– E ele já veio ter com ela?

– Não. A Josefa diz que ele gosta de criar assim como suspense. Deixa-se ver e depois aparece quando lhe dá na real gana. Deve andar agora a visitar amigos e conhecidos.

– Que sarilho! Onde isto irá parar?

– Não sei. Mas hás de passar lá na mercearia, que a Josefa quer agradecer-te por ires ido lá levar o recado.

– Quer dizer que o tal Álvaro, ainda vou dar de caras com ele? E ele ainda me vem pedir satisfações…Brrr…

– Não te assustes. Não será caso para isso.

Está a ver, meu amigo. Por querer agradar à Maria Antónia e ser prestável à D. Josefa da mercearia, que me conhece de pequenino, arrisco-me a problemas com um bandido encartado. Mas há mais.

Saí e fui à mercearia. A D. Josefa ficou toda contente de me ver, e agradeceu-me muito. Respondi que tinha sido um prazer ser-lhe prestável, mas pedi que não contasse nada ao irmão sobre a minha intervenção no caso. Respondeu que eu podia estar descansado.

Almocei em casa com a minha mãe. À sobremesa comemos uma fatia do bolo da D. Belisária, que a minha mãe disse estar excelente. De tarde fui então à faculdade ter com a Maria da Luz, que ainda não tinha voltado a ver desde o dia do regresso da Covilhã. Têm sido tantas as complicações.

O nosso encontro foi muito efusivo. A Maria da Luz perguntou muito pela minha mãe. Estivemos na biblioteca a fazer uma série de consultas, e depois fomos tomar um café. Deixamo-nos estar ali sentados. Diz-me a Maria da Luz:

– Queres agora ir um bocadinho a minha casa?

– Hoje, desculpa, mas queria voltar cedo a casa. Sabes, este tempo fora foi tão agradável, mas queria compensar um bocado a minha mãe. Não te importas que fique para amanhã?

Ela ficou aborrecida. Fez uma careta um pouco enfadada. Respirou um pouco mais fundo, como a encher-se de coragem. E avançou:

– Não leves a mal, mas a tua mãe não é assim … digamos, um pouco chata?

Fiquei muito preocupado. Como já lhe contei na minha carta da Covilhã, vejo com muita dificuldade um relacionamento entre a Maria da Luz e a minha mãe. E senti-me muito atrapalhado para responder à minha colega e amiga, além de outras coisas que já sabe. Fui-lhe respondendo, procurando manter-me calmo:

– Ela é realmente um pouco difícil. Sabes, quando o meu pai morreu, ela ficou muito chocada e numa situação muito difícil, sem apoio de ninguém. Criou-me e agarrou-se muito a mim – A minha voz sai muito calma e triste. Eu até pensei que era outra pessoa a falar. Mas reparei que a Maria da Luz não parecia muito entusiasmada. Mudei um pouco o estilo. – Tenho tido bastantes dificuldades com ela, sabes. Gostava de alterar o meu estilo de vida, realmente. E sei que tenho de o fazer, em breve. Já estou a ficar um pouco velho.

Ri-me com um ar que procurei que parecesse resoluto. A Maria da Luz pareceu-me um pouco mais animada. Pouco depois, despedimo-nos, depois de combinarmos um encontro para amanhã, à mesma hora.

Vou ser muito franco consigo. Uma razão porque adiei a ida a casa da Maria da Luz foi a previsão do que veio a acontecer. E subia eu a rua de Santo Ambrósio, quem vem a sair da mercearia da D. Josefa?A Maria Antónia, que vem direita a mim, e diz-me, com um sorrisinho maroto:

– Esta noite temos festa. Cinco minutos depois das onze, não se esqueça.

Diga-me, o que hei de fazer com tanto sarilho?

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