OBAMA VISTO DO INTERIOR FACE AOS GRANDES PREDADORES – uma montagem de JÚLIO MARQUES MOTA a partir de textos de GREG PALAST, THE GUARDIAN e de doversos sites da ARGENTINA

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Selecção, tradução e montagem de Júlio Marques Mota

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Obama visto do interior face aos grandes 

 Como é que Barack Obama poderia acabar com a crise da dívida da Argentina

 

Greg Palast, The Guardian e diversos sites na Argentina, How Barack Obama could end the Argentina debt crisis

gregpalast.com, 8 de Agosto de 2014

Paul Singer of Elliott AssociatesPaul Singer of Elliott Associates. Barack Obama já tinha capitulado face a Paul Singer numa  batalha em  2009, face à grave situação da  indústria. Obama cedeu, ganhou Singer. Photograph: Lucas Jackson / Reuters

O Presidente dos Estados Unidos precisaria apenas de informar um juiz federal que o fundo abutre do multimilionário Paul Singer está a interferir com a competência exclusiva do Presidente dos Estados Unidos pela condução da sua política externa. Não o fez. Mas porque não o fez?

 O financeiro ” abutre” que ameaça agora devorar a Argentina poderia ser completamente bloqueado por uma simples nota enviada por Barack Obama aos Tribunais. Mas o presidente, enquanto oficialmente apoia a Argentina, não fez, não escreveu esta simples nota que poderia salvar Buenos Aires da situação de incumprimento.

Obama poderia impedir que o hedge fund abutre do multimilionário Paul Singer recolhesse um simples cêntimo que fosse da Argentina, invocando a autoridade estabelecida desde há muito tempo e atribuída aos presidentes pela cláusula da “separação de poderes ” estabelecida na constituição dos E.U. Sob o princípio conhecido como a “comity”, Obama precisaria somente de informar o juiz federal Thomas Griesa dos E.U. que o processo instaurado por Singer interfere com a única autoridade, a do Presidente, para conduzir a política externa americana. Não o fez.

Certamente, o presidente George W Bush invocou este poder contra o mesmo hedge fund abutre que ameaça agora a Argentina. Bush bloqueou a confiscação por Paul Singer dos bens do Congo-Brazzaville nos E.U., apesar do facto de que o chefe do fundo de cobertura abutre ser um do maiores, e dos mais influentes, contribuintes para os candidatos republicanos.

Especificamente, um tribunal de recurso avisou este mesmo juiz há já 30 anos de que devia ter em atenção a decisão de um Presidente invocar as suas prerrogativas em matéria de política externa. No caso de Singer, o Departamento de Estado dos Estados Unidos com efeito informou o Juiz Griesa de que o governo de Obama estava de acordo com os argumentos jurídicos apresentados pela Argentina; mas o Presidente nunca invocou a cláusula mágica que colocava um travão aos abutres.

A devastadora indecisão de Obama não é nenhuma surpresa. Repete a capitulação do Presidente em face a Singer em que estiveram frente-a-frente. Foi em 2009. Singer, através de uma brilhante e complexa manobra financeira assumiu o controlo de Delphi Automotive, o único fornecedor da maior parte dos peças de que precisam General Motors e Chrysler. Ambos os gigantes produtores de veículos motorizados encontravam-se já na situação de falência.[1]

Singer e outros “investidores” exigiram então do Tesouro dos Estados Unidos que lhes pagassem milhares de milhões, incluindo US$ 350 milhões em cash imediatamente ou – como ameaçou o consórcio dirigido por Singer, “nós obrigá-los-emos a fechar”. Cortariam o fluxo de peças de substituições para a GM. Literalmente assim.

GM e Chrysler (que dispunham apenas do equivalente a um par de dias em peças sobresselentes ), teriam devido fechar as suas portas de modo permanente, e serem obrigados à uma liquidação.

 O negociador de Obama, o sub-secretário do Tesouro, Steven Rattner, chamou à exigência do fundo abutre uma ` “extorsão” – uma caracterização de Singer que a presidente da Argentina, Cristina Fernandez de Kirchner repetiu na semana passada.

Mas enquanto Cristina Fernández de Kirchner. declarou “não posso, como presidente, apresentar ao país uma tal extorsão”, Obama cedeu numa questão de dias. Em última instância, o Tesouro dos Estados Unidos pagou discretamente ao consórcio Singer a “pequena” quantia de US$ 12.900 milhões em cash e subsídios do fundo de resgate do sector dos veículos motorizados do Tesouro dos Estados Unidos.

Singer respondeu à generosidade de Obama encerrando rapidamente 25 das 29 fábricas de peças sobresselentes de Delphi nos Estados Unidos e transferiu 25.000 postos de trabalho para a Ásia. A empresa Elliott Management de Singer embolsou US$ 1.290 milhões, dos quais Singer ficou pessoalmente com a maior parte.

No caso da Argentina, Obama sem dúvida tem motivos para agir. O Departamento de Estado dos EUA avisou o juiz que a adopção das teses jurídicas de Singer poria em perigo os acordos de resgate soberanos por toda a parte no mundo. De facto, informou-se que em 2012 Singer se juntou ao seu amigo e investidor abutre, o multimilionário Kenneth Dart, para exigirem ao governo grego um enorme pagamento durante a crise do EURO ameaçando criar uma situação de incumprimento maciço dos bancos em toda a Europa, caso a sua exigência não fosse satisfeita.

A imprensa financeira virou-se contra Singer. Os comentadores do Wall Street Journal e do FT ficaram enfurecidos face à quixotesca reinterpretação que fez o financeiro quanto aos termos dos empréstimos soberanos, isto é, que esta é feita no mesmo sentido com que os talibans interpretam um acordo de paz. Não há da paz, logo não há acordo.

Singer, sem dúvida ganhou bem e com mérito as suas plumas de abutre. Com o seu ataque sobre a dívida do Congo-Brazzaville arrancou a ajuda que a este país foi concedida para reduzir a dívida e que foi paga pelos contribuintes americanos e britânicos. De acordo  com Oxfam, esta situação minou a capacidade deste país para combater contra uma epidemia de cólera, com que depois este país se debateu. (O porta-voz de Singer respondeu que foi a corrupção do governo de Congo-Brazzaville, e não as suas exigências financeiras que empobreceu esta nação.)

Como para colocar ainda a brilharem mais as suas credenciais de ser um homem duro, Singer desencadeou ataques legais sobre JP Morgan Chase, Citibank, BNY Melon e UBS, exigindo-lhes que lhe pagassem o dinheiro que a Argentina lhes tinha pago durante a última década. Além disso, os advogados de Singer convenceram o juiz para impedir que o banco BNY Melon, agente financeiro da Argentina em questões de dívida pública, efectuasse um pagamento de US$ 500 milhões aos detentores de títulos de dívida pública sobre a Argentina.

Certamente o presidente poderia intervir. Não o fez. Não o fez. Porquê?

Não sou psicológo. Mas isto, com efeito, sabemo-lo: desde que começou a atacar a Argentina, Singer abriu a sua conta bancária milionária em dólares, transformando-se o principal doador para as causas republicanas de Nova Iorque. É um dos fundadores de Restore Our Future, um clube de multimilionários, e movimenta  os fundos de Bill Koch e de outros rapazes republicanos muito ricos que são canalizados para um terrível tesouro de guerra consagrado ao pagamento de anúncios de ataques políticos violentos.

E Singer recentemente deu US $ 1 milhão de dólares para a organização Crossroads de Karl Rove, uma outra máquina de ataques políticos.

Por outras palavras, paga-se um preço elevado se alguém contraria Paul Singer. E. ao contrário da Presidente da Argentina, Obama não parece disposto a pagar por isso, [ ou seja, não parece disposto a contrariá-lo.]

 Texto disponível em: http://www.gregpalast.com/argentine-president-cites-and-posts-palast-report-on-the-vulture/

ou em :

http://www.mecon.gov.ar/DESENDEUDAR/es/opinion070814-2.htm

  • Greg Palast es autor de Vultures’ Picnic ‘y produjo una serie de informes de investigación sobre los fondos buitre para The Guardian, The Nation y Newsnight, de la la BBC.

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[1] Nota de tradução. O processo de falência de Delphi é um perfeito escândalo. Para termos uma ideia, havia mais venda de títulos da Delphi à venda que títulos emitidos por esta empresa. Simplesmente dez vezes mais. E viva a especulação. Um assunto que merecia um artigo. Talvez um dia o façamos, porque o processo de avaliação posterior dos títulos é uma obra de arte da engenharia financeira para salvar os abutres, claro, e é semelhante ao que se faz com os CDS quanto o valor dos títulos no mercado se torna irrisório. Sublinhe-se ainda que o que aconteceu à Delphi, deste ponto de vista, aconteceu aos gigantes da indústria automóvel. Fácil é então de presumir quem também por estas águas sujas dos mercados financeiros andava. Como anda agora pela PT, em Portugal.

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Ver também:

http://www.theguardian.com/business/economics-blog/2014/aug/07/argentina-debt-crisis-barack-obama-paul-singer-vulture-funds

 

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