
III
Com efeito, segundo as últimas estatísticas, demonstra-se que em trezentos e cinquenta mil homens apenas quatro e meio conseguem casar ou ligar-se com a mulher que em verdade lhes pertence. O resto anda de gorra, legítima ou ilegitimamente, com a metade dos outros. Uma mulher que nos agrada parece-nos sempre a nossa, aquela para a qual nascemos e veio ao mundo por nossa causa a fim de fazer a nossa felicidade. Afinal, ao cabo de três semanas ou de sessenta anos, reconhecemos que foi engano. Não era bem aquela. Era muito parecida, com efeito; mas faltava-lhe qualquer coisa ou sobejavam-lhe várias. Destas confusões, destes equívocos, é que são feitas as complicações sentimentais da existência e para as remediar é que se inventaram as portas sobre a escada, se instituíram as leis do divórcio e se encontra à venda nos Grandes Armazéns do Bom Senso um cebo especial para se dar nas botas na devida altura.
Muitos de nós, tendo verificado que se enganaram, encolhem os ombros e resignam-se ou por preguiça moral ou por motivos de vária ordem, entre os quais, algumas vezes, avulta o respeito pelos próprios queixos. Contentam-se com o que lhes apareceu e se lhes afigurou ao princípio estar ao jeito do pé, quando afinal ou aperta de forma bárbara no artelho ou está terrivelmente largo na biqueira, se permitidas me são estas imagens sapateirais.
Outros, porém, não se conformam e procuram incessantemente. Aquele homem era desses.

