CONTOS & CRÓNICAS . “MAURÍCIO VILAR TEM UMA IDEIA E PEDE UM CONSELHO” – por João Machado

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Pois, meu caro, tenha mais uma vez paciência, pois vou pedir-lhe que perca mais algum tempo comigo. Pensará com certeza com os seus botões (julgo que esta expressão já não se usa, mas também nunca ouvi dizer “pensar com o meu zip” ou “pensar com o meu fecho éclair”) que eu sou um complicadinho, que nunca quero assumir nada, e que entretanto até me vou divertindo, mas acredite que não sou assim.Deve pensar também que, já perto dos cinquenta anos, dificilmente vou mudar.Dito isto, acredite que não quero, de modo nenhum, que pense mal de mim. Insisto que gosto muito da minha mãe e das pessoas com quem me dou. Incluindo a Maria Antónia.

O problema é assim: estou bastante ligado à Maria da Luz. Não que me sinta capaz de ir fazer uma vida com ela, assim de repente. Tenho tantos problemas! A minha mãe, a Maria Antónia, o curso que nunca mais consigo concluir, agora o receio de ter sarilhos com o irmão da D. Josefa, eu sei lá. Por outro lado, quero continuar a dar-me bem com ela, e cultivar a nossa relação. Não foi realmente muito favorecida quanto a dotes de beleza, mas é muito simpática. Pelo menos comigo. E ajuda-me tanto com o estudo! Pelo que já consegui observar, não é muito sociável, mas de facto damo-nos muito bem. Contudo, não tenho vontade nenhuma de a trazer cá a casa. É isto. A simples ideia de o fazer dá-me vertigens. Sei o que vai pensar ao ler o que acabo de escrever: ele não quer alterações na vidinha que tem, que até é fácil e agradável. Talvez tenha razão. Mas vou dizer-lhe o seguinte: acho que encontrei uma maneira de conciliar as coisas. É assim: vou tentar que, um dia destes, a minha mãe venha comigo para tomarmos um chá com a Maria da Luz.

Deixe-me dizer-lhe que, na verdade, também não sinto a Maria da Luz com muita vontade de vir cá a casa. Os pais dela, sobretudo a D. Belisária, manifestaram muita vontade de contactar com a minha mãe, mas não sinto o mesmo na Maria da Luz. Não julgue que estou a arranjar uma desculpa para não a convidar a vir a minha casa. Não consigo esquecer o ar que ela, o outro dia, tinha quando me perguntou se a minha mãe não seria um pouco chata. Procurei explicar-lhe resumidamente os problemas da Heloísa, mas ela não me pareceu muito convencida. Enfim… vou tentar combinar o chá a três. Tenho de pensar num sítio perto da faculdade.

Entretanto, aqui no bairro, tudo vai na mesma. O irmão da nossa merceeira, segundo consta, continua na pensão da D. Generosa. Sai de manhã, e entra à noite. Ainda não apareceu na rua de Santo Ambrósio, mas a D. Josefa diz, que quando ele aparecer, vai ser sem avisar. E que vai ser depois de se meter em alguma alhada, e precisar de quem o ajude. Ela acha que ele ficou na pensão por ser central e muito barata. E também deve estar a contar que, se lhe faltar o dinheiro, o deixem lá ficar sem pagar. O sr. Bráulio, o marido da Josefa, é que está muito irritado com o assunto. Cá no prédio, a vizinhança está na mesma. O outro dia, com a Maria Antónia, foi tudo muito bem. Só que a acho menos entusiasmada quando nos encontramos, nestes últimos dias. Será porque lhe disse que ando sem dinheiro?

A Heloísa é que me parece mais alegre. Depois de me ter ralhado por ter ido de noite avisar a D. Josefa do aparecimento do irmão, ficou agitada por uns dois dias, mas sem modificações sensíveis nos seus hábitos. E agora já voltou totalmente ao seu normal, e até parece que anda mais animada. Como sempre, vai de tarde ao café, à Esplendorosa, e discute pormenorizadamente os programas de televisão com as amigas, especialmente com a D. Henriqueta e a D. Gertrudes Acabadinho. As telenovelas, claro, são diariamente escalpelizadas. A conversa deve ter aumentado tanto de interesse, que anteontem imagine quem também foi ao café e participou na conversa. O sr. Horácio, o marido da D. Gertrudes, que nunca lá vai, por que as acha a todas umas grandes chatas. Esta opinião dele soube-a pelo Serafim, o empregado. Acredite que é uma fonte segura. Pois o Horácio, desta vez, até discutiu com a minha mãe o enredo de uma das telenovelas, uma que se chama A Noiva da Noite. Ou A Noiva da Madrugada. Uma Noiva qualquer, desculpe a minha má memória. A minha mãe veio para casa a falar muito alto, e muito risonha. Disse-me que explicou tudo ao vizinho, e que ele acabou a dar-lhe razão.

Amanhã vou falar-lhe no chá com a Maria da Luz. Desculpe, talvez seja melhor falar primeiro com a minha colega. Até já podia ter falado hoje. Mas percebe, estivemos muito bem. Estudámos umas duas horas, e depois fomos para casa dela. Foi muito agradável. Assim, não deu muito jeito falar no chá com a minha mãe.

Com qual delas acha que devo falar primeiro?

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