CONTOS & CRÓNICAS – “Capitão audaz (narrativa histórica)” – por Joaquim Palminha Silva

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            No ano de 1645 o terço velho de Évora, considerado um dos primeiros e mais sacrificados corpos militares da longa campanha da Restauração da independência nacional, foi reforçado por um terço de auxiliares, logo mobilizado em Outubro do citado ano, dado haver notícia de que o inimigo se aproximava da fronteira do Alentejo, e Lisboa não tinha capacidade para enviar rápido socorro.

            Depois de cinco anos de escaramuças desesperadas e mal definidas no terreno, o terço de tropas auxiliares, composto por 400 homens, partiu em reconhecimento a caminho de Estremoz e, depois, Elvas. Todavia, nenhum daqueles homens havia cheirado o chamusco da pólvora, nem vira a espada nua de um espanhol direita ao seu peito… Quem eram estes homens? – Artífices, quintaneiros, pequenos e médios proprietários, mercadores e filhos de modestos fidalgos eborenses, domesticados à presa pela disciplina e, igualitarismo na adversidade, todos esfolando a pele dos pés com a fricção do coiro das botas, naquela marcha a “mata-cavalos”. Soldadesca bisonha? – Sem dúvida. Mas queimariam o coração na defesa da independência do Reino!

            Nessa manhã de 29 de Outubro de 1645 comandava o terço de auxiliares o sargento-mor (1) João da Fonseca Barreto. Dizem os registos que este sargento-mor era homem muito considerado na cidade de Évora, mas não aludem a que tipo de consideração se tratava. Provavelmente era fórmula falaciosa, que se usava na época, para significar que o homem não era pé-descalço. Desde já se diga que ele não era resoluto, engenhoso, destro e acautelado chefe militar, como adiante se verá…

            Cerca de légua e meia de Estremoz, próximo dum lugar intitulado Alcaraviça (terreno com alguma arborização e, após um espaço aberto, ao lado da estrada pequeno outeiro e tapada com muro que de vedação em pedra), os quatrocentos eborenses, com o seu sargento-mor e demais oficiais, súbito, ouviram um tropel. Não lhes tinha ocorrido (pobres néscios!) que um piquete de cavalaria inimiga lhes pudesse espiar a marcha… Imagina-se a surpresa!

            Uma força espanhola de 600 cavalos, mandada pelo marquês de Molinguen explorar as estradas de Estremoz para Elvas e Vila Viçosa, perfilava-se no horizonte, desenhando uma carga que prenunciava implacável aniquilamento dos eborenses. Entretanto, o sargento-mor que estava bem longe do retrato da coragem, perdeu o sangue-frio, não conseguindo articular uma palavra de ordem para o combate. O terço de tropas auxiliares eborense, atordoado com a táctica de surpresa da cavalaria inimiga, desfez-se em pequenos grupos que correram espavoridos em todas as direcções, chocando uns contra os outros! A cavalaria inimiga não parou a admirar a formidável trapalhada da tropa portuguesa, pois depressa envolveu os eborenses acutilando-os com ferocidade.

Na verdade, os portugueses não haviam sabido retirar para a tapada, lançando âncora atrás da vedação de pedra, e aí defenderem-se com algumas hipóteses de sobrevivência, dado que o obstáculo das árvores e a barreira providencial do muro arruinariam a carga espanhola, dando alguma distância e domínio do terreno para o tiro defensivo. A idiotice pataqueira do sargento-mor foi paralisante. O terço de tropas auxiliares foi aniquilado (segundo as fontes espanholas, calcula-se em mais de 300 homens acutilados mortalmente!) sem dó nem piedade, enchendo-se Évora de viuvez e orfandade…

           A esse tempo, no meio da confusão geral, um garboso e determinado jovem capitão, Rui Mendes de Vasconcelos, que havia lobrigado a tapada e o muro, conseguiu levar consigo alguns soldados e, abrigado, desfechou meia dúzia de tiros sobre a cavalaria espanhola. O tiroteio chamou a atenção do inimigo e umas quantas dezenas de cavaleiros cercaram o pequeno grupo de resistentes. Pouco estreados na guerra, instantes depois os soldados eborenses jaziam por terra, acutilados até à morte. O capitão Rui Mendes de Vasconcelos, defendendo-se com destreza e fúria, viu-se por fim cercado de cavaleiros inimigos que lhe propunham a rendição: – «Passasse para a sujeição a el-rei Filipe IV, que ficaria à mesma capitão com jus a boas mercês e alto soldo»!

            Quando esta proposta foi feita, Rui Mendes de Vasconcelos, além do orgulho ferido, deve ter sentido flutuar-lhe no pensamento, por cima do arraial revolto, a bandeira de Portugal!

            De espada em punho, sempre cercado por vários cavaleiros espanhóis, o jovem oficial tinha estampada no rosto a decisão de quem está pronto a vender cara a vida: – E, assim, enjeitou a rendição!

O resultado desta resolução foi um ataque concentrado dos cavaleiros espanhóis. Rodopiando, tocando aqui e ali um cavaleiro, aparando os golpes que lhe queriam assestar, Rui Mendes de Vasconcelos, além de deixar atónitos e confundidos os inimigos, deu-lhes a entender que estes perdiam o seu rico tempo: – Só a morte o poderia imobilizar!

            Os espanhóis perceberam a mensagem, e alcançaram dar-lhe cutilada que o despegou da luta, deitando-o por terra. Depois levaram o jovem capitão para Espanha e internaram-no numa cidadela. Aí lhe trataram das feridas com humanidade, porém, como não deixava de ser prisioneiro de guerra, além de jovem dotado de uma soberba insofrida, uma vez recuperado o vigor foi lançado no cárcere. No entanto este cárcere revelou-se imaginosa ratoeira (2) do inimigo.

            Rui Mendes de Vasconcelos foi lançado no cárcere na companhia de outro capitão português, feito prisioneiro em Olivença. Este último, natural de Portalegre, era oficial conhecido no Exército pela sua corpulência e força hercúlea, a par de espírito de constante insubordinação, carácter rude e trato violento. Uma vez tudo pesado, não se atina por que razões, pois, lhe puseram a alcunha do Canastreiro. O jovem deve ter pressentido o ardil dos espanhóis, dado que3 desde logo se manteve reservado, evitando qualquer escorregadia confiança com o brutamontes: – «Que trazia aquele homem na cabeça?», deveria interrogar-se Rui Mendes de Vasconcelos.

            O Canastreiro sentiu-se escarnecido, humilhado com o silêncio do jovem oficial. Amestrado pelos espanhóis, iniciou então a tortura pelos insultos canalhas e, para ganhar tempo, dia após dia mais atrevido, começou a ameaçar de agressão física o jovem capitão. O “veneno”, aplicado assim, paulatinamente, no quadrado isolado do cárcere, foi produzindo o seu efeito no ânimo de Rui Mendes de Vasconcelos, cuja rebeldia, mais do que justificada, lhe ensopava a alma.

           Um dia estalou a violência física! Travou-se então naquele cárcere um tremendo combate corpo a corpo. A que os guardas espanhóis do presídio, está bem de ver, fizeram vista grossa… Em linguagem figurada, desbobinou-se uma versão actualizada do combate entre David e Golias:- A força nervosa e agilidade raciocinadora do jovem Rui Mendes de Vasconcelos, contra a força bruta e o peso atlético do troglodita Canastreiro!

            Naturalmente, o Canastreiro parecia ter vencido a luta, ao imobilizar o jovem capitão, fazendo-o morder o pó do chão. Porém, uma mão solta de Rui Mendes de Vasconcelos, debaixo do corpanzil do gigante, tacteou até encontrar (escondido há quanto tempo?) um objecto metálico perfurante (sovela?) que, num gesto rápido e com quantas forças ainda possuía, espetou na garganta do Canastreiro! Este soltou urro de fera e largou o adversário. Com o sangue a jorrar em golfadas ainda tentou retirar o ferro, mas as forças faltaram-lhe e sucumbiu…

            Os espanhóis viram a sua «ratoeira» descoberta e destruída. Afinal de contas, o Canastreiro não passava de grande saco roto!- Não lhes entregara ele o Forte de Santo António sem ter esgotado todos os recursos defensivos?!

            Este Rui Mendes de Vasconcelos deu que cismar ao governador espanhol da cidadela. Então não tinha ele todas as valentias e virtudes de um autêntico Galaaz?! Segundo o oficial espanhol, que não tinha interesse algum em enaltecer as qualidades do inimigo, o jovem era uma flor altiva, talvez insensata, mas permanecia imune às mal-aventuras e baixezas da guerra e da má sorte, apegado a um idealismo patriótico digno de respeito!

            O governador da cidadela, tanto o estimou e homenageou que, completamente rendido às qualidades e inteligência do jovem oficial português, lhe deu autorização para voltar a Évora sozinho, de forma a negociar a sua troca com algum oficial espanhol, de patente igual, entretanto detido na cidade. Deu a sua palavra de honra Rui Mendes de Vasconcelos de que, se tal objectivo não conseguisse alcançar, voltaria a terras de Espanha e à prisão. Feitas as despedidas, partiu o capitão português para a sua cidade. Dias depois era feita a troca sem dificuldades de maior.

            Que buscava o espírito inquieto do jovem e audacioso capitão no meio desta guerra? – Só isto: batalhar até ao fim das suas forças em defesa da independência da Pátria, e ficar de pé firme na terra da verdade e da honra, até se lhe varrer a luz dos olhos!

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(1) – Este posto correspondia ao de oficial menor de Infantaria, mestre-de-campo que não precisava de grandes conhecimentos militares, porque a sua acção quase se resumia a arrastar com o seu exemplo os soldados ao combate.

(2) – Desde que as sociedades inventaram um sistema de contra-espionagem de guerra, também inventou um esquema chamado de «ratoeira». Isto é, quando se queria retirar uma confissão a um prisioneiro sem ele o suspeitar, ou quando se pretendia amansar alguém conhecido pelo seu aprumo e temerário arrojo, colocava-se no cárcere da vítima um “companheiro” com a secreta missão de conseguir uma confidência. Eis ao que se chamava «ratoeira». Em síntese, espécie de emboscada dentro da “própria” casa.

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