Saiu esta semana a edição portuguesa de O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty. Não nos vamos debruçar agora sobre o livro, cujas qualidades e defeitos já foram intensamente analisados, inclusive aqui em A Viagem dos Argonautas. Mas vale apenas referir que a sua saída deu um forte contributo para a retoma do debate sobre a desigualdade, que a chamada crise financeira fez com que fosse remetido para segundo plano, com a entrada em vigor das políticas ditas de austeridade.
A desigualdade é o grande problema da humanidade. Tem muitas facetas, e as críticas não podem limitar-se a lamentos ou considerações sobre injustiças. O estudo detalhado da génese da desigualdade, nas suas várias incidências, poderá permitir desenvolver e aperfeiçoar a ideia de que são possíveis as alternativas às situações que actualmente se vivem por esse mundo. Por exemplo, que a estagnação na política, que tanto se lamenta, mas é tida por muitas pessoas, senão pela sua quase totalidade, como inevitável, leva fatalmente ao agravamento das desigualdades. A uniformização das abordagens aos problemas, que nos últimos anos tem dominado a cena, e de que uma das expressões mais famosas é a sigla TINA (There Is No Alternative), lançada pelos arautos do neoliberalismo, tem imposto em diferentes regiões do globo os mesmos remédios: o corte nas despesas públicas e nos salários e pensões, a destruição do estado social, a concentração da riqueza. Essa uniformização, ou é imposta por ditaduras assumidas, ou por partidos de diferentes quadrantes que, num clima de aparente apaziguamento ideológico, embora formalmente se alternem no poder, põem em prática as mesmas políticas. Fazer ver que muitos pretextos utilizados visam na realidade outros fins, como a salvaguarda de um sistema financeiro predador e de uma estrutura social caduca, como a portuguesa, que ainda hoje vive em moldes do século XIX, é um passo indispensável para aquilo que poderíamos chamar verdadeiramente de progresso.