DIA DE LISBOA – O JARDIM DA GULBENKIAN EM LISBOA – por Luís Rocha

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Durante mais de 20 anos tive o privilégio de trabalhar junto do Jardim da Gulbenkian. Da janela do escritório via as árvores do jardim e, pela manhã, sentia o cheiro da sua frescura. No período de almoço eu e os amigos que trabalhavam comigo atravessávamos o parque a caminho do restaurante. Na ida o ambiente estimulava o apetite e na vinda transmitia tranquilidade de espirito. O bulício da cidade era e é substituído, como que por magia, pelos sons da natureza envolvente.

Sempre que o visito sinto uma libertação de espírito que me transmite paz e o sentimento de que tudo o que vejo faz parte de mim mesmo. Há sempre um novo motivo que, de forma instintiva, me leva ao registo fotográfico do visual do momento e isso deve-se, sem dúvida, ao dinamismo criativo e cativante dos responsáveis daquele espaço, que o tornam sempre “NOVO”.

A esse espírito se deve o “Centro Interpretativo da Fundação Gulbenkian” da autoria do Arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles (final de 2013). Trata-se de um espaço acolhedor e soalheiro inserido no jardim, com uma esplanada entre as árvores onde, para além de se desfrutar o ambiente, se podem visualizar em formato digital “ Os 10 mandamentos, onde o arquiteto escreve os princípios a que deve obedecer a criação de um jardim, que apelam à ideia de movimento e nos impelem a explorar cada um dos temas”

Segue foto por mim registada de um dos mandamentos:

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 Os anos vão passando e continuo a sentir a magia do jardim que visito regularmente e que considero um dos ex-libris da cidade.

Apresento em seguida uma transcrição resumida da HISTÓRIA DO JARDIM, retirada do “site” da Fundação Calouste Gulbenkian. As fotos intercaladas são de minha autoria.

 

História do jardim

O lugar onde hoje se localiza a Fundação Calouste Gulbenkian, no centro da cidade de Lisboa, foi, no séc. XVIII, uma das portas da cidade. Denominada Quinta do Provedor dos Armazéns era uma quinta de recreio, como muitas que então caracterizavam os arrabaldes das principais cidades portuguesas, com edifício, jardim, pomar, horta, vinhas e campos de cereal.

Em 1861 palácio e quinta são adquiridos por José Maria Eugénio de Almeida, par do reino e conselheiro de Estado. A quinta de recreio, com o seu palácio setecentista, vai dar lugar a um enorme parque de carácter paisagista onde é construído um outro palácio de linguagem neoclássica.

José Maria Eugénio convida Cinatti, arquiteto cenógrafo, para construir as cocheiras do seu palácio, e, o Parque de Santa Gertrudes, como então será batizado em homenagem a sua mãe, é mandado construir a Jacob Weiss, jardineiro Suíço formado na escola francesa do desenho de jardins. A obra inicia-se em 1866 e termina em 1870.

Em 1883, a viúva de José Eugénio de Almeida, D. Maria das dores Pinto, cede o Parque de Santa Gertrudes para a instalação do Jardim Zoológico e de Aclimatação de Lisboa, que aqui permanecerá durante dez anos.

Em 1917 o Plano de Melhoramentos de Lisboa e respectivo Plano de Urbanização implicaram trocas de terreno com a Câmara Municipal de Lisboa para ajuste da propriedade com o novo desenho das avenidas de Berna e António Augusto de Aguiar.

Em 1943 instala-se no Parque de Santa Gertrudes a Feira Popular de Lisboa, durante catorze anos. Naquele espaço reunia-se a diversão, a gastronomia, o artesanato, a vida política, o teatro, a música, a dança, o comércio e a indústria. 

Em 1957 o Parque de Santa Gertrudes é adquirido pela Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1958, os arquitetos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e Manuel de Azevedo Coutinho são chamados para elaborarem, respectivamente, o Projeto do Jardim das Instalações Provisórias, e um estudo de manutenção e conservação do Parque de Palhavã.

A obra iniciou-se em 1963 e ficou concluída em 1969, projeto dos arquitetos paisagistas António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles. O Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian é um dos jardins mais emblemáticos do movimento moderno em Portugal e uma referência para a arquitetura paisagista portuguesa. 

Ao longo de 50 anos, o jardim foi mudando a fisionomia, mas não o seu carácter. Resistiu à morte da floresta de ulmeiros (pela grafiose), e à amputação do seu principal eixo visual para implantação do edifício do “Centro de Arte Moderna”. A vegetação evoluiu para uma densa e heterogénea floresta, interrompida por pequenas clareiras e encerrando no seu interior o lago que consubstancia um arquétipo de paraíso.

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O Jardim que hoje encontramos, frondoso, envolvente e cheio de recantos surpreendentes, é o resultado de um diálogo muito forte entre homem e Natureza.

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