CONTOS & CRÓNICAS – “A vida é um filme?” – por Joaquim Palminha Silva

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O uso dos diálogos de alguns filmes, significavam para si a única autoridade cultural e social capaz de lhe dar um significado para a vida, com base na mesma ideia insistia em só reter na memória as recordações e cenas actuais da sua própria existência, desde que se assemelhassem ao que ia vendo desbobinar-se no ecrã… Porém, se tal não acontecida, imediatamente alcunhava tudo em seu redor de estrondosa parvoiçada, e ignorava a realidade (passada e presente), mesmo que tal lhe fosse sentimental e profissionalmente prejudicial.

   Enfim, tudo isso a tornava, às vezes, impertinente no tráfego sentimental, comercial e social. Todavia, estoicamente, ela entendia que era esse o único sentido exemplar, romântico até, capaz de a reconciliar com a sua apagada vida de empregada de balcão, numa «loja de roupas de quarto, fatos de homem e senhora», na Rua da Prata.

   «Não quero dissipar a minha vida em bagatelas, como o mundo cuida. A vida tem alternativas no cinema, e aí as perdas andam pelos ganhos. Não desfalco o meu dia-a-dia nem a possibilidade de vir a amar, se porventura uma e outra não me parecem ajustadas ao ecrã. A vida tem imensas probabilidades de se desforrar no cinema. Se eu hoje deixasse de subtrair o quotidiano à realidade, de forma a introduzi-lo nas imagens de filmes que vou recordando, a materialidade fria e cega dos anos seria um suplício tremendo, cruel e inútil.». Eis aqui parte do pensamento de Adelaide…

Agora direi ao leitor como veio ao mundo esta dilatada conversação com o quotidiano e esta rumorejante forma de vida.

Do filme «O Triunfo de Miguel Strogoff», com Curd Jugens e Capucine, retirou ela as frases, segundo as respectivas legendas em português: «Inteligente, até à insolência; corajoso, até à loucura; altivo, até à revolta; ambicioso, até ao delírio». Tal como tantas outras de insólito servilismo para com a “sétima arte”. No dia em que passou no grande ecrã este filme (anos 50 do século XX), a Rua da Prata transformou-se aos seus olhos numa artéria lisboeta mesquinha, ridícula, longe da aventura das estepes e ela, Adelaide, segundo se pensava, uma Tatiana abandonada, alguém que sabia que «O passado não Perdoa» (de John Huston) e, por isso, qualquer filme, mesmo de recordação mutilada pelo esquecimento, era sempre melhor do que escorregar na calçada do vazio, mergulhada nas alegrias e tristezas de todas as outras pessoas… com cotão nas algibeiras.

Eis uma pequena história dentro desta história…

Houve um dia, em 12 de Fevereiro de 1958 que um dos filmes vistos no cinema «São Luís» a tocou profundamente, de tal forma que guardou o bilhete e lhe marcou a data no reverso… A película intitulava-se «Meias de Seda» (“Silk Stockings”), com a Cyd Charisse a desempenhar o papel da supostamente austera comissária soviética, “Ninotchka” e o Fred Astaire, como sempre, a protagonizar um personagem entre o tolo dançarino de brincar, “cheio de corda”, e o simpático cavalheiro de camisa e gravata, que ri por tudo e por nada!

A certa altura do filme, completamente atraída pelo Ocidente, seduzida pela América, inebriada por Paris, a comissária “Ninotchka”, além de estar apaixonada por um americano (“Steve”), entra no seu quarto de hotel vestida como uma “princesa” da moda e da sociedade de consumo, após noite de esfusiante alegria e fresco champanhe… E, dirigindo-se ao americano Steve, fazendo referência ao fato que vestia, às meias, às ligas de seda, aos sapatos de tacão alto e à roupa interior, diz ao companheiro de boémia: – «Nada disto foi feito para mim… Se chegam a encontrar todas estas coisas na minha mala quando regressar à Rússia, quererão tirar-mas e eu terei muita pena…».

Adelaide recordava melhor que qualquer outro, o filme «Meias de Seda», já pela semelhança com a sua profissão (vendedora numa loja de roupa na Rua da Prata), já pela impressão desditosa com que se apresentava a vida feminina nos países da «cortina de ferro» … A sua indignação por regimes políticos ditos “comunistas” (e a sua primária, definitiva educação política) ficou para sempre encaixilhada na memória através das meias de seda… Se vendia meias de seda, encontrava uma malha nas suas meias de seda ou apreciava meias de seda nas montras das várias lojas da Baixa, logo lhe vinha à cabeça o ”regime comunista” e as suas maneiras desagradáveis, a sua grosseria para com o delicado espírito feminino…

A vida de Adelaide tinha sido sempre um “filme”, retirado pedaço a pedaço dos filmes que ia vendo, e representado sem ninguém se aperceber… Foi na «Condessa Descalça», de J. L. Mankiewicz, que aprendeu as maneiras de “Maria Vargas” (Ava Gardner), assim como a entusiasmar-se, a ganhar outro encantamento pelos homens duros como “Harry Dawes” (Humphrey Bogart). Todavia, os “homens duros” portugueses tinham mau-hálito e uma grosseria de carroceiros!

Por toda esta forma fantasiada de viver, Adelaide só poderia ter boas predisposições deitada naquela cama do hospital de oncologia, em companhia de mil filmes e milhares de intérpretes, moendo inumeráveis histórias de memória, até chegar o seu tempo terminal, segundo o senso comum, ou a sua hora de se recomendar a Deus.

Tinha de lembrar com insistência, por conseguinte, que poderia sempre construir «Uma ponte para o Sol» (filme de Etienne Perier) … E, assim, experiente arranjadeira de cenas de ficção, aguentar-se à entrada dos umbrais da eternidade e reproduzir o breve diálogo de Gwen Terasaki (Carrol Baker), a personagem feminina casada com o diplomata japonês portador de doença mortal, antes de supostamente o deixar por breve tempo e partir para a América: «-Dei-te uma vida má, não é verdade, Gwen-san?», perguntava-lhe o marido, enquanto a abraçava. Respondeu a isto a americana de «Uma ponte para o Sol»: «-Nunca mais digas isso! Se a pudesse viver outra vez, não quereria outra, nem com outra pessoa!».

Recordando… Recordando «A Minha Gueixa» de Jack Cardiff, com Yves Montand e Shirley McLaine, «O Capitão Sem Medo» de Pierre Gaspard-Huit, com Jean Marais e Anna-Maria Ferrero e, entre tantos e tantos outros filmes, «O Monte dos Vendavais» de Willian Wyler, com Hugh Williams, Merle Oberon e Laurence Olivier, a funesta atmosfera que a envolvia era dissipada a seu belo prazer…

 

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Viveu a vida como um filme, escolhendo as cenas que lhe apeteciam e agora, apesar da desdita de ir morrer ainda jovem (35 anos!), poderia dizer encerrando os olhos ao que a rodeava na enfermaria, para recordar a cena de «Uma ponte para o sol»: «Se a pudesse viver outra vez, não quereria outra…». Adelaide viveu como nos filmes, recusando a realidade… Viveu em cinema, sempre… E morreu como quem se filma a si mesmo, representado outra vida…

The End

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