CARTA DE HENRIQUE NETO AO JORNAL DE LEIRIA SOBRE AS PRIMÁRIAS NO PARTIDO SOCIALISTA

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Esta carta foi transcrita do Jornal de Leiria, sendo publicada com expressa autorização do autor

Sem Surpresas, a Continuidade

Como era previsível, a vitória de António Costa nas eleições primárias do PS representa a continuidade do poder partidário que conduziu Portugal para a bancarrota e os portugueses para o empobrecimento. Mas não só, é também a continuidade do saque dos recursos nacionais e do aviltamento do interesse nacional às mãos de grupos económicos e da promiscuidade entre a política e os negócios.  Ou seja, vamos continuar diariamente a saber pelos jornais como é que altos dirigentes políticos aumentam os seus rendimentos, sem ética e sem pudor. Não faltarão, por isso, nos próximos anos, os escândalos necessários  para continuar a entreter os portugueses, nomeadamente agora que estão a chegar os fundos comunitários.

Como democrata sempre respeitei a vontade popular, mas neste caso lamento-a, porque a escolha de António Costa para futuro primeiro ministro é errada e os próximos anos vão demonstrar isso mesmo. Considero que depois da escolha de primeiros ministros como Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates e Passos Coelho, os portugueses teriam aprendido alguma coisa e não se deixariam enganar na personalidade de quem escolheriam para governar Portugal. Infelizmente, mais uma vez, bastou uma campanha mediática cara e um novo vendedor de ilusões para enganar uns largos milhares de portugueses, que, aparentemente, nem sequer se preocupam com quem pagou a campanha.

Claro que António José Seguro teve alguma culpa neste desfecho. Falei com ele  e escrevi-lhe mais do que uma vez durante os últimos três anos a insistir para que seImagem1 distanciasse do poder socrático, cujo objectivo era voltar ao poder, político e principalmente económico, porque se não o fizesse seria  destruído por ele. Infelizmente, António José Seguro preferiu tentar a chamada  unidade do partido e esqueceu-se de que não pode haver unidade com os coveiros da democracia portuguesa, cujo objectivo passa pela defesa dos interesses estabelecidos, os quais também servem para pagar as campanhas eleitorais.

Entretanto, do ponto de vista da previsibilidade política, os próximos tempos vão ser interessantes de estudar, através dos comportamentos da próxima equipa dirigente do Partido Socialista e, previsivelmente, do próximo Governo. Recordando a responsabilidade assumida neste desfecho por socialistas ilustres como Mário Soares ou Jorge Sampaio e, por outro lado, qual o papel destinado ao próprio António José Seguro: assumir-se dignamente como oposição interna na defesa do seu projecto de renovação do partido e de decência na vida política portuguesa, ou aceitar o cargo com que as lideranças socialistas habitualmente compram as oposições internas? Esta é agora a questão.

Dentro de um ano vamos ter eleições legislativas, supondo que a corrupção de que falam os jornais continua impune como é previsível e, assim sendo, não se realizará a profecia de Mário Soares de eleições antecipadas. Depois, teremos uma coligação de António Costa com o PSD e porventura com o CDS, com ou sem Rui Rio. Para trás, no domínio da anestesia nacional, ficarão as juras de fidelidade à esquerda feitas por António Costa durante a recente campanha e a terra continuará a girar, sendo que Portugal ficará apenas um pouco mais pobre e alguns mais terão acesso à riqueza. Neste contexto, as surpresas são pouco prováveis.

29-09-2014

Henrique Neto

 

 

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