EDITORIAL – A implosão do sistema educativo

logo editorialA propósito da situação que estamos a viver, tem sido muito citado o poema que Bertolt Brecht escreveu inspirado num outro de Vladimir Maiakovski e que começa «Primeiro levaram os negros/Mas não me importei com isso/Eu não era negro…» Quando as pensões de reforma foram reduzidas, lembramo-nos de ouvir dizer a trabalhadores no activo que a medida se compreendia, pois os seus descontos é que estavam a pagar as pensões. Hoje, atingidos por outras «medidas justificadas», se não estão desempregados, já foram atingidos pelas medidas de austeridade. 

Quando os profissionais do Ensino começaram a ser dispensados ou a ser sujeitos a decisões erráticas, como se tudo partisse de um computador enlouquecido, ouviram-se vozes aplaudindo medidas que atingiam uma classe profissional com o prestígio desgastado por uma desorganização social cujos efeitos iam desaguar nas salas de aula – disfunções familiares, divórcios, sobretudo, criando estirpes de crianças incapazes de aceitar qualquer espécie de  disciplina. Aforismos como «quem não sabe fazer nada, vai para o Ensino», espelhando uma ou outra situação de incompetência ou de falta de vocação, criavam uma reputação injusta para a generalidade dos professores. Havia consenso quanto à necessidade de reformar a estrutura do ensino.

Não sei se se lembram, antes de ser ministro da educação Nuno Crato era um professor respeitado mesmo por pessoas de esquerda. Em 2010, em entrevista à Ecclesia afirmou que “O Ministério da Educação deveria quase que ser implodido, devia desaparecer, devia-se criar uma coisa muito mais simples, que não tivesse a Educação como pertença mas tivesse a Educação como missão.” Pouco claro, mas bonito. Parecia coisa avançada – quase implodir o Ministério da Educação e da Ciência. Implodir, recordamos, significa o oposto de explodir, ou seja, é um fenómeno físico pelo qual um meio sólido ou um corpo oco, sujeito a uma pressão externa superior à sua resistência mecânica, é esmagado concentrando-se num volume reduzido.

O que aconteceu foi, como nos filmes cómicos em que cientistas trapalhões manipulam equipamentos sofisticados – tudo   correu mal. O que implodiu foi uma classe profissional e foi um sistema educativo que, com deficiências, ia funcionando. O Ministério da Educação e da Ciência, lá continua de pé. Estrutura pesada, burocrática, incapaz de responder à crescente destruição que vai criando. Talvez tenha de ser sujeito a uma explosão…

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