CONTOS & CRÓNICAS – “Uma história inverosímil “- por Manuela Degerine

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I

Miguel

 

A bicicleta tinha um pneu furado. Embora eu trouxesse lixa, cola, remendos e conhecesse a teoria, na prática a corrente, os travões, as mudanças, enfim, parecia-me que, caso desmontasse a roda, jamais voltaria a pedalar. Dali à cidade distavam apenas sete quilómetros, porém à beira da estrada e a empurrar a bicla… Parecer-me-iam compridos.

Um carro parou.

– Quer ajuda?

Um homem à volta dos quarenta anos. Expliquei as dúvidas quanto à minha capacidade para montar a roda. Ele riu-se.

– Traz aí o quê? E a bomba?

Propôs levar-me até à povoação, onde alguém emprestaria uma e, num instante, ficou a roda solta, estripada, arrumada na carrinha.

– É de Tomar?

– Não vivo cá. E o senhor?

– Sou daqui mas nasci em Angola…

Narrou-me a história da sua vida. O pai nascido na colónia e casado por procuração com uma rapariga de Tomar; onde a família se refugiou após a independência. Miguel estudou gestão agrária numa universidade do nordeste, isto é, gastou dinheiro em livros, propinas, viagens, pensão, refeições, conseguiu boas notas, obteve um diploma, todavia nunca encontrou emprego; o curso não correspondia às necessidades das empresas e, quando tal se tornou evidente, a família já não dispunha de meios para pagar segunda licenciatura. Por outro lado, ele conhecera uma rapariga na universidade, mais desejava casar do que correr atrás de formações e meios para as financiar; nasceu uma menina. O que restava aos pais dele e um empréstimo bancário permitiram a abertura de um café, mercearia e restaurante na casa que possuíam à entrada de Tomar. A mãe cozinhava, ele servia ou atendia. Tiveram de imediato muitos fregueses e, nos fins de semana, com a sala cheia, clientes à espera, acrescentavam mesas no pátio. Miguel trabalhava dezassete horas por dia mas era a assobiar que, à uma hora da manhã, lavava o chão do restaurante.

Ouviu de súbito dizer que iam construir um supermercado. Vários clientes auguraram:

– Está com sorte… As pessoas vêm às compras e aproveitam para almoçar aqui.

Decorrida uma dezena de anos, há um centro comercial a curtos metros da sua loja, mas Miguel passa dias sem ver entrar um cliente. Define o negócio com quatro palavras:

– Inventividade máxima, lucro mínimo.

A mulher começou a acusá-lo de não ter ambições, voltou para Aveiro, levou a filha e pediu o divórcio. Miguel paga agora uma pensão e, se quer ver a adolescente, cumpre deslocar-se; é para onde vai hoje. A miúda também critica o pai, que considera um falhado; quer impor a lógica do “se gostas de mim, compra” com a qual ele não concorda – e para a qual não tem recursos.

Naquela manhã Miguel inquiriu, logo à entrada da aldeia, quem tinha bicicleta, foi bater a duas portas, pediu a bomba, um alguidar com água e, num quarto de movimento, sem se sujar, como se fosse fácil, remendou a borracha, instalou o pneu na bicicleta… E despedimo-nos.

(Continua)

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