CONTOS & CRÓNICAS – “Uma Graça nunca vem só…” – por Joaquim Palminha Silva

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            Disse-me outro dia o Roberto que a encontrou na Rua da Rosa, em Lisboa… Cerca das sete horas da manhã, ia ela a entrar para uma “Leitaria”…

            Era a mesma bonita e encorpada rapariga, loira rara em terra de morenos e toscos! A que serviu cerca de uns dez anos em Évora, na casa do coronel D. mais coisa menos coisa, estava na mesma… Na mesma? Não! – Melhor! Segundo a opinião e o descaramento de quem a olha de alto a baixo! Vê-la, segundo se podia deduzir pelo Roberto, deveria ser uma higiénica alvorada naquela manhã de Julho, tal a voluptuosidade que espalhava.

            O Roberto disse-me que lhe disse: «Então vossemecê deixou a casa do coronel, deixou de trabalhar para a Senhora D.ª Hermínia, uma família tão boa… Para vir para Lisboa, para casar?»… Roberto era trouxa, e acreditava em tudo o que ouvia…

            Maria da Graça, toda chorosa, contou que entrara a servir naquela casa e aquela Senhora depois de terminada a guerra (1939-1945). Tinha vindo de uma aldeia dos arredores de Évora, pouco mais que uma criança, de olhinhos tapados. A Senhora ofereceu-lhe 5$00 (cinco escudos) por mês. Naquele tempo, não era mau para começar! Foi ficando… Ainda se lembrava do que a Senhora D. Hermínia lhe dissera: «Quando precisares de alguma coisa, quem ta compra sou eu. Nas lojas roubam-te. E de que precisas tu? Eu dou-te estas meias, dou-te esta saia, está usada, mas tu mesma a podes arranjar ao serão, não havendo mais nada que fazer. Fica como nova! As modistas são umas ladras.». Dava-lhe os sapatos gastos, o trapo inútil… Dizia-lhe: «O teu ordenado fica guardado para o dia em que casares! Quando saíres da minha casa tens um pé-de-meia!»…

            A patroa dava-lhe tudo, é verdade… Mas o coronel não lhe deu nada, tirou-lhe! Tirou-lhe o que nunca mais volta! Veio para a rua, com um lanho na cara, pois D. Hermínia atirou-lhe um sapato à figura… – A respeitável e bondosíssima Senhora! Apresentou-lhe as economias: «Toma lá o teu dinheiro, ingrata! Fui uma verdadeira mãe para ti, e é assim que tu mo agradeces!»…

            Maria da Graça chorou a contar isto ao meu amigo Roberto, que era um ingénuo… E ele para mim:- «Vê lá tu os ricos!»… E acrescentava-me, convencido: – «Vá lá a gente fazer queixa! Quem é que ia agora tomar a sério a denúncia de abusos e as lamúrias duma criada?»

            Disse-lhe: «Que quer você, o menino tem coração! Eu sou isto que vê…». Maria da Graça chorou o melhor que conseguiu, e Roberto acreditou. Também não era nenhuma mentira. – Em parte alguma é tão imponente o número das mulheres “enganadas”, enquanto jovens criadas, como em Lisboa, nem tão devastadora a percentagem das bonitas que contam a mesma história para justificarem a “vida fácil” que depois escolhem levar… Sucede, porém, que as histórias, embora repetidas, são reais, aconteceram de acordo com a imagem da “mulher fraca” e do homem, “perverso sedutor sem escrúpulos”… Mas Roberto não percebeu qual era a graça de Maria da Graça

            Passado algum tempo, depois desta narrativa de Roberto…

            O Sr. Alfredo, morador no bairro “bem” de Alvalade, envenenou a esposa com a cumplicidade da amante, que vivia no mesmo prédio, porta ao lado. Ainda tentaram, mas não conseguiram corromper, com o falso testemunho pago a preço d’oiro, uma bela e jovem vizinha, recém-chegada da Província… O Tribunal condenou os dois a prisão perpétua…

             A jovem vizinha loira, bela e luzidia como uma boneca de loiça, exibiu a sua inocência e bondade no Tribunal, enquanto verdadeira testemunha credível. Mostrou negligentemente um pouco da perna aos fotógrafos dos jornais, sorriu coquete… Acabou por casar com um advogado que tentou fazer dela uma “senhora de sociedade”. Isso custou uma fortuna e um divórcio estrondoso, arruinando o causídico… A jovem loira e bela, chamava-se Maria da Graça, havia “servido” em Évora… Eis, pois, a segunda graça da Maria da Graça

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