Neste domingo, 12 de outubro, festejou-se o Dia da Criança. Na verdade, é uma festa do comércio, que aproveita para vender mais brinquedos e roupas infantis do que durante o resto do ano. E talvez pouquíssimas pessoas se lembrem que há milhões de crianças com fome no mundo, que milhares trabalham desde os cinco ou seis anos, e que milhões de crianças são destruídas pelo crack, pelo abuso sexual ou pela prostituição infantil. Há 120.000 meninas exploradas sexualmente, por ano, no Brasil. A televisão mostrou há alguns dias, meninas e meninos oferecendo seus corpos ainda incompletos numa praia de Fortaleza, no Ceará, por acaso, ou não, na frente de uma delegacia de polícia.
O sentimento é de perplexidade e profunda tristeza. Afinal, vivemos num mundo em que a própria Igreja Católica levou décadas para deixar de acobertar seus pedófilos e se decidir a puni-los e afastá-los das crianças que, por hipótese, deveriam proteger e guiar espiritualmente: os filhos de seus fiéis.
Para a maioria das crianças, o mundo é cruel e injusto. Podemos imaginar o horror que é ser uma criança na Faixa de Gaza, hoje? Ou no Iraque? Ou na Turquia, ou na Ucrânia? Podemos imaginar o que é ser uma criança curda, cujos pais estão lutando até a morte com os jihadistas? Ou simplesmente ser uma criança filha de refugiados africanos, que se arriscam e arriscam toda a família a morrer, no mar, antes de chegar à costa italiana? Ou ser criança nas periferias conturbadas de nossas grandes cidades, onde há tiroteios entre policiais e traficantes todos os dias e as escolas precisam ser fechadas às pressas várias vezes por semana?
Mas não é só nas regiões de conflitos que as crianças sofrem. Muitas sofrem por falta de carinho, de atenção, ou dos cuidados que lhes são devidos. Infelizmente, há pais e mães tão ocupados em seus trabalhos que não têm tempo para dedicar aos filhos; há centenas de mães sozinhas, que precisam deixar os filhos com vizinhas ou parentes; e também há, é claro, pais e mães imaturos, pouco generosos ou incapazes de amá-los e respeitá-los. E, horror dos horrores, existem pais estupradores e mães covardes que não os denunciam.
Tampouco podemos esquecer a negligência dos nossos governos com a Educação e com a proteção à infância e à adolescência. Para um número imenso de crianças, a infância está mais próxima dos pesadelos do que dos sonhos e fantasias que poderiam povoar seu mundo e alimentar suas esperanças.
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Nem tudo são tristezas. No mesmo domingo, dia 12, tivemos uma demonstração de maturidade política que muito nos enriqueceu. Marina Silva, a candidata à Presidência da República, derrotada no primeiro turno, sem pressa e sem qualquer fisiologismo, declarou seu apoio a Aécio Neves. Isso só ocorreu após longos diálogos e negociações com membros do partido de seu adversário, e após receber deste uma carta-compromisso em que ele promete respeitar e defender pontos do programa da ex-senadora e ex-ministra do Meio-Ambiente. Quatro desses pontos se referem à retomada da Reforma Agrária, à demarcação das terras indígenas, à sustentabilidade e ao respeito das conquistas no campo da inclusão social.
Essa foi a lição de Marina Silva: quando a luta é por um programa e não pelo poder, ganha o país inteiro.