Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para contar e não sei como hei-de fazer. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor. O que é o amor? Perguntar-me-ão… O amor é o “estado de espírito” que nos torna dependentes de alguém, qualquer coisa como a inutilidade de viver, se longe da pessoa de quem se depende e, por isso, se sofre ausentando-a de nós.
Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível, uma vaidade dolorosa todos os dias, uma angústia a conta-gotas, uma insatisfação física e espiritual dia sim, dia não… Já ninguém aceita amar sem razão. Hoje, as pessoas de ambos os sexos aproximam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato. Por causa da casa: – “Cama, mesa e roupa lavada”!
Hoje em dia, as pessoas fazem contratos pré-nupciais, onde discutem tudo de antemão. Fazem planos e, à mínima contrariedade, entram logo em “ruptura”, tratam logo dos “papéis” para o divórcio…
Nos dias que correm, os pares que se juntam misturam tudo, a comida e a dormida, a filharada por encomenda-postal (o animal doméstico, a casa comprada a prestações, o automóvel e as férias todos os anos no mesmo mês e no mesmo sítio) e as zangas familiares. Se porventura tocam na questão do amor, pestanejam um pouco e passam a outros assuntos corriqueiros: – Só os parvos, os efectivamente honestos e sem habilidade para vencerem na vida, parecem albergar o amor!
Dito assim, o amor pode assemelhar-se a um sentimento efectivamente anti-social e delituoso… A prisão deve esperá-lo e os seus praticantes devem ser perseguidos pelas autoridades. O amor é desestabilizador, capaz de todos os crimes contra a opinião pública, o senso prático, a lógica aristotélica e a lógica hegeliana!
Digo assim: – O amor é subversivo e tem perfil terrorista! O amor é fundamentalista! O amor aterroriza o bem-estar, trata mal a moral comum e é capaz de dar pontapés no matrimónio contratual!
Os fingidos de amor negociam-no, contratam-no, enclausurado em artigos e parágrafos, tal qual os decretos-lei no “Diário da República”. Os amantes “faz-de-conta” vão ao notário, constituem uma “S.A.R.L.”, tornam-se associados e investem um capital de sentimentos que, na maioria dos casos, se transforma em aluguer dos sentidos, a que depois aplicam uma variante técnica de um “taxímetro”.
Estes “amantes” plastificados reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões, têm “ordem de trabalhos”, como as assembleias gerais! O amor desta gente transforma-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica da camaradagem, às vezes, e na melhor das hipóteses, parece um acampamento de escuteiros! A paixão, que devia ser desmedida, travestiu-se “na medida do possível”. O “amor” destes consumidores tem prazo de validade e pode ser devolvido, segundo a lei. Disto tudo resulta que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam apenas aproximadas, conhecidas por tantos minutos ao dia, tantos dias ao mês, tantos anos por vida, empacotadas numa família.
Eu gostava de ser capaz de fazer o elogio do amor, do amor cego de antigamente, quando havia teatro romântico, romances sentimentais (Anna Karenina, 1876-1877) e filmes do género «Doutor Jívago», do amor tradicional, do amor doente, do “amor desmancha-prazeres”, do único amor verdadeiro que há: – Do amor disfuncional, desequilibrado, mal-empregado, intolerável, desavergonhado, pouco ou nada recomendável; do amor odiado pelos regimes políticos e pela moral comum, do amor incapaz de se fazer respeitar, do amor desatinado, do amor que é o “grande desgoverno daquela casa”, do amor físico misturado com práticas espirituais e corporais nada familiares aos casais “bem-comportados”!
Estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de “conveniências de serviço”. Estou farto de ver o amor emprateleirado como produto de super-mercado, com promoções e época de saldos! Nunca vi namorados e amantes tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de gestos largos, de correrem riscos, de um rasgo de ousadia: – São uma “raça” de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de cafés, alcançadores de compromissos de notário, borra-botas, pessoas que tiraram a “carta de condução” de vida na escola do “parece bem/parece mal”, geração de analfabetos sentimentais e papa-açordas. Já ninguém se apaixona, tem febre e dores de estomago por causa disso.
Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, a saudade todo o tempo, que é como um animal roedor a comer-nos o coração, a devorar em nós a doce melodia da ternura?
O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma “ajudinha”. O amor não é a “segurança social” dos sentidos e do sexo… Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, as “pancadinha nas costas”, a pausa que refresca, o “pronto-socorro” da solidão, e na tortuosa estrada da vida, a nossa ambulância, a nossa esmola! Ou uma “emergência sentimental” enviada por Deus à última hora!… Algo no género de “O Céu deu um jeitinho…”!
Odeio esta mania contemporânea do amor ter de dar… para “sopas e descanso”! Ah!, os novos “casalinhos” que se apressam a viver juntos, como se fossem uma promoção de mobilas, uma proposta de compra de apartamento a preços competitivos! Para onde quer que se olhe já não se vê romance, gritaria, maluquice, ciúmes, abraços, flores, guitarras a gemer, xailes traçados e cheiro a suor, amor pisado, bacalhau com batatas e fado! O amor fechou a loja?! A “loja” foi trespassada ao pessoal da pantufa, da televisão e da serenidade a prestações?!
Amor é essa beleza de andar de braço dado com a loucura, pelas avenidas e pelos jardins! É esse perigo doentio de se sentir bem… enquanto nos sentimos mal! O amor não existe para nos compreender, para nos ajudar, não é para nos fazer felizes: – Tanto pode como não pode!… Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos fazer coitadinhos, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de nuvem aberta no além! O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor é uma dádiva de Deus ou do acaso, como quiserem! Tem tanto a ver com a vida de cada um como uma borboleta colorida do Amazonas.
O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente magoado e apetecido por dentro e por fora. O amor é a nossa alma a derreter-se num “banho-maria” de beijos com espinhos de dúvidas a todo o comprimento dos dias… O amor é desatar a correr atrás do que não se sabe, não se apanha, não se conhece, não se compreende e não se pode perder, … na medida em que se vai perdendo!
O amor é uma verdade solitária: – É por isso que a ilusão é necessária! A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que se quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar. O amor é mais bonito que a vida. A vida que se dane! Num momento, num olhar, o coração apanha a música para sempre. Ama-se alguém porque não se pode deixar de amar esse alguém!

