Selecςão e traduςão de Júlio Marques Mota
Coabitação, um drama para a França
Jean-Luc Gréau – antigo conselheiro económico do MEDEF, Cohabitation, un drame pour la France
Causeur n° 17, Outubro de 2014
Parte I
Que as coisas sejam claras. Não se trata, do nosso ponto de vista, de rivalizar com a capacidade de elegância de escrita e de crítica dos redactores da revista Causeur. O tumulto diário que acompanha a nossa miserável vida pública sob o mandato presidencial de cinco anos de François Hollande excede a capacidade de análise instantânea deste vosso empregado. Mas três acontecimentos significativos tem-se sucedido desde meados de Agosto: primeiro, os apelos à dissolução da Assembleia, vindos das oposições de direita, multiplicam-se; em seguida, a capacidade do presidente e do seu Primeiro-ministro em manter a sua maioria deixa de estar assegurada ; por fim, e bem mais grave, embora mais discretos, os dirigentes de Berlim e de Washington expressam agora o despeito que eles alimentam sobre a França. Não houve, em toda a história da V ª República, um episódio mais desanimador para o nosso país do que o da suspensão do contrato de entrega à Rússia dos navios de classe Mistral[1]. A França está ser o ganso vítima dos maus demónios que, no passado, a levaram a submeter-se às potências estrangeiras. O poder de Angela Merkel e a tutela ideológica da administração Obama têm-se imposto à França como o poder dos Habsbourg à Espanha e a tutela do papa sob regência de Marie de Médicis. Nesta atmosfera deletéria, a população francesa é apanhada por uma forte vontade de uma mudança rápida, qualquer que seja a forma que esta assuma.
Ora, até agora, existem apenas duas hipóteses realistas: ou o poder se mantém, no meio do descrédito, ou o Presidente faz funcionar a válvula de segurança declarando a dissolução da Assembleia. Dissolução que significaria coabitação, com a chegada de uma maioria massiva de deputados UMP e de centristas. Seria o quarto episódio de atrelagem esquerda-direita sob a Vª República. Mas, se os Franceses estão agora já habituados, eles ignoram no entanto porquê e como é que a escolha foi feita, há trinta anos, devido à vontade dos actores políticos e não em conformidade como uma aplicação da Constituição. A coabitação não é somente uma calamidade para o espírito das instituições. Em 1986, em 1993 e em 1997, estas revelaram-se propícias às atitudes erradas contra a economia francesa. Pode-se temer ainda pior no caso de uma repetição que se imporia com a força da evidência. Os franceses não estão necessariamente conscientes, além disso, de que essa forma de governo implique uma grande unidade de pontos de vista entre Matignon, residência oficial do primeiro-ministro, e o Palácio do Eliseu, residência oficial do Presidente da República, quanto às grandes questões na política europeia e internacionais, o que assegurado quando o mundo está envolvido numa crise geopolítica sem precedentes desde a queda do muro de Berlim.
(CONTINUA)
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[1] « Assez d’hypocrisie, rompez le contrat », terá dito à França un parlamentar alemão em Estrasburgo..





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