A paciência vive no mundo social onde predomina o respeito da autoridade, seja ela o que for, a ordem das coisas consumadas e estratificadas, as maneiras convencionais, o papel do requerimento e o do deferimento das Secretarias e Repartições. A paciência vive à custa dos regulamentos, passeia-se com as rotinas e, venerável, útil e humanitária como uma corporação de bombeiros, de tudo e de todos se ocupa com amarga prontidão… ao serviço dos poderosos, dos autoritários, dos prepotentes, dos neo-pagãos endinheirados. Normalmente, estes últimos aconselham a paciência aos outros. Para eles não serve, que têm pressa. De facto, a paciência só serve aos resignados, que são quem tem mais “vagar”, pois vivem sem reclamar, murchando dia a dia. Exceptuando os que são “obrigados” à resignação, que são a esmagadora maioria, quem é que tem vagar, não me dizem?!
Às vezes, a população ferida pelas arestas aguçadas da vida, aguenta-se de tal forma que parece impregnada de paciência. Às vezes, o trabalhador, estabelecido no solo maninho da injustiça social e do desconforto de inumeráveis carências, parece conformado a subsistir numa atmosfera de martírio, disposto a esperar pacientemente por melhores dias, esquecendo a luta de classes!
A paciência foi um arquétipo temático que os poderosos, autoritários, déspotas & associados transformaram em prática societária, para pedirem, digo, exigirem ao povo do trabalho, tréguas sociais no seio de mil injustiças, de forma a dispor a seu minoritário favor, e sem contestação, da maior parte dos recursos naturais, bem como do produto do trabalho.
Na sua origem, a paciência não habitava um território definido no consciente colectivo, mas a sua utilização continuada tornou-se num monótono estado de espírito, assente em terrenos que possibilitam, a diversos níveis, a hipotética “suspensão” da História.
A paciência, uma vez manipulada politica e socialmente acabou por entregar todos e cada um ao lento apodrecimento da vontade e, praticando-se assim a difusão do espaço do conformismo, criou-se finalmente uma atmosfera de submissão esclavagista, um retorno aos séculos das desumanidades e das impunidades.
A ideia de que existe uma paciência social, pronta a utilizar pela política (quando ela é, na sua essência, apenas produto de aprendizagem individual), ganhou uma tal força no decurso do tempo que o próprio adagiário popular, de forma nítida e clara, reflecte esta experiência da submissão, sob a capa de paciência: «A paciência abranda a dor»; «A paciência é amarga mas o seu fruto é doce»; «A paciência é boa para a vista»; «Paciência e cebo de grilo, é bom para aquilo»; «A paciência é unguento para todas as chagas»; «Paciência excede sapiência».
Seguindo a tese do historiador francês F. Braudel, a visão dos “grandes” acontecimentos históricos faz-nos esquecer a longa duração e, na torrente das mentalidades dos povos, aquilo que fica em suspenso (os seus sussurros, os seus ais), a que apressadamente chamamos de paciência colectiva, quando na verdade o que se recorta no horizonte é um gritante conformismo, a par do subdesenvolvimento cultural e da ignorância cívica.
Mas, diga-se, também, que a maior parte das pessoas é paciente, em virtude da lei do menor esforço… – É sempre menos trabalhoso esperar que aconteça. Mesmo quando se está a ver que nada de bom vai acontecer!
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Na imagem: Zé Povinho e a mulher, Maria Paciência, segundo Rafael Bordalo Pinheiro.
