Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Desemprego: Valls, o excesso de protecção no desemprego
Grégoire Biseau et Lilian Alemagna, Chômage : Valls, l’excès d’assurance
Liberátion, 9 de Outubro de 2014
Resumo
Reposicionando a posição do primeiro-ministro sobre a indemnização a pagar aos desempregados, o Presidente François Hollande mostra que não tem nem a mesma agenda nem os mesmos objectivos que o seu primeiro-ministro.
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Entre dois dirigentes, a fortiori políticos, as pequenas fricções podem esconder verdadeiras confrontações. Exemplo disso, é o reenquadramento de Manuel Valls feito por François Hollande sobre a reforma do sistema de subsídio de desemprego, “um debate” considerado “legítimo” pelo Primeiro-ministro. Mas não o é para o chefe do Estado, dado que, “no estado actual das coisas, não há aqui nenhuma discussão”, respondeu ele na quarta-feira, em Milão. Tanto menos quanto somente em 2016 é que os parceiros sociais deverão renegociar a convenção Unédic. Então porque é que ele falou nisto várias vezes nestes últimos quinze dias? Dissensões no par, Presidente aa República-Primeiro-ministro, que assegura a direcção do executivo governamental? “Uma brincadeira”, respondeu Valls, quinta-feira. Este assunto diz-nos no entanto muito sobre as correntes contrárias que atravessam o par Valls-Hollande.
BRUXELAS CONTRA PARIS
Em Berlim, por volta de meados de Setembro, vários jornalistas questionaram o Primeiro-ministro sobre as reformas do mercado do trabalho realizadas nos anos 2000 pelo chanceler Gerhard Schröder. “A França tem uma preferência pelo desemprego de massa bem subsidiado”, afirmou então Valls. Em Londres, muda a língua do país em que está mas não o seu conteúdo: “, Em França, optámos por ter um desemprego muito importante e muito bem subsidiado.” Acrescenta ainda: a questão do subsídio do desemprego “deve ser voltar a ser levantada”. “Não se pode já apresentar um diagnóstico clínico? irritam-se à volta disto as pessoas que o rodeiam. Em Berlim e Londres, o Primeiro‑ministro descreveu dois modelos. Recordou o que já foi feito em matéria de reforma do mercado do trabalho. ” Mas, nesta simples constatação, Valls faz uma relação – contestada – entre “ desemprego de massa” e “ elevado nível de indemnização”. Para agradar à Bruxelas? “Moscovici regressou na semana passada de Bruxelas convencido que a Comissão poderia retocar o orçamento francês e que seria necessário fazer novas economias, por conseguinte cortar em Unédic, conta um secretário de Estado. Era necessário enviar sinais. ” E a Comissão frequentemente entende melhor a França a partir de Londres ou de Berlim. Uma versão contestada quer por Matignon quer pelo Eliseu. “Isso não tem sentido, assegura um conselheiro do Presidente. Se a França tiver amanhã um problema de orçamento no que diz respeito a Bruxelas, não são as reformas estruturais, cujos resultados precisarão de tempo, que os vão resolver.
” SOCIAL-LIBERAL CONTRA SOCIAL-DEMOCRATA
“Manuel Valls está na sua lógica. Diz o que pensa, está na sua maneira de ser, está na sua natureza. Não faz cálculos. ” Eis pois como um dos seus fiéis explica as suas posições repetidas sobre a reforma do subsídio de desemprego. Não é necessário estar sempre a procurar um sentido escondido nas palavras de Valls. Ele tem um duplo mérito, o de uma constância ideológica e de uma apetência pela transgressão. O Primeiro-ministro gosta de agitar, apressar, de argumentar de forma convincente. Deste ponto de vista, é a antítese de um François Hollande que, na própria estrutura das suas frases, tenta dizer todo e o seu contrário. Quando Valls declara “que há uma preferência francesa pelo desemprego altamente subsidiado , retoma a fórmula – que se tornou um grande clássico da segunda esquerda – de Denis Olivennes (hoje patrão de Lagardère Active) dita em 1994 na revista Le Débat. Sobre o fundo, Hollande partilha deste diagnóstico. Mas, ao contrário de Valls, o chefe do Estado fixou-se como linha de condução respeitar escrupulosamente as prerrogativas das organizações sindicais. Ora, a questão do subsídio de desemprego é um assunto que tem a ver exclusivamente com os parceiros sociais. Valls sabe-o efectivamente, di-lo, deixa planar a ambiguidade. O debate está instalado e para ele, isto é o essencial.
FRACTURA CONTRA UNIDADE
Ousar abordar a questão do subsídio do desemprego – mesmo em privado – num momento em que a esquerda está ao rubro , é também o sinal da vontade de Valls de abanar o seu campo. “Ele cuida da sua imagem de reformador contrariado”, observa um tenor do PS. François Hollande sabe que vai ter necessidade de reunir todo o seu campo antes de 2017, Valls procura pelo contrário criar aí uma divisão. Para o muito pequeno círculo dos apologistas da causa de Valls , “Manuel” não faz mais nada do que cuidar do seu calendário. “Não chegou ainda o tempo do mercado político, diz-nos um seu amigo. Isso virá mais tarde. ” Provavelmente não em 2017. “Hoje, não se vê como Manuel poderia ganhar uma primária à esquerda”, prossegue a mesma fonte. A sua aposta, apostar sobre uma cisão do PS, à maneira do que se passou na Itália e na Alemanha, com de um lado um ramo reformador (do qual seria o potencial líder) e do outro, uma esquerda mais radical. Um dos seus próximos profetiza: “A questão não é saber se o PS irá explodir, mas sim quando é que vai explodir?”
Grégoire Biseau et Lilian Alemagna, Chômage : Valls, l’excès d’assurance , Liberátion, 9 de Outubro de 2014.
Texto disponível em :
http://www.liberation.fr/politiques/2014/10/09/chomage-valls-l-exces-d-assurance_1118498


