A PROPÓSITO DA ATRIBUIÇÃO DO PRÉMIO NOBEL DE ECONOMIA A JEAN TIROLE – ATTAC

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Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

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A propósito dos prémios Nobel –uma curta nota

Não é nossa intenção instalar um processo de intenções à Academia Real das  Ciências da Suécia   sobre a atribuição dos prémios Nobel. Quem seria eu para o poder fazer e, assim sendo,  muito menos interesse haveria  em expor aqui uma leitura sobre a história dos prémios Nobel em economia . Mas não posso deixar de expressar o meu espanto pela atribuição do prémio de Economia ao longo do tempo. É de resto sintomático o que ouvi em Lisboa a esse respeito  da  boca de um dos laureados com o Nobel de Economia, Paul Samuelson. Já em tempos bem longínquos assisti na Universidade Nova de Lisboa a uma conferência  proferida por  Paul Samuelson  onde este se referiu ao tema dizendo que se alguém merecia o prémio Nobel não seria ele mas sim Piero Sraffa. Esta foi a sua afirmação. Natural que tenha sido assim, uma vez que a Ocidente Paul  Samuelson era um homem facilmente colocável  politicamente como estado  entre o centro direita e o centro esquerda, embora nos USA era por vezes apelidado de comunista. Eram os tempos da Ku Klux Klan (dita  também  KKK). Em contrapartida, Piero Sraffa era apelidado de comunista e se o não era directamente era, pelo menos, um compagnon de route dos comunistas, amigo pessoal de Gramschi. Portanto  não o poderia receber, nunca mesmo.

João Cravinho num notável prefácio ao livro de Schiller apontava o dedo à Academia Sueca pela sua responsabilidade moral na crise desencadeada, uma vez que a Academia tinha atribuído o Nobel à maioria dos grandes teóricos do neoliberalismo e por via caucionava cientificamente as políticas por estes preconizadas.

Em 2008 e para os muito distraídos a Academia parecia mudar de rumo com a atribuição do Nobel a Paul Krugman. Como nesse tempo Paul Krugan não era politicamente nem carne nem peixe, dizia-se até que este era um Nobel de transição, enquanto a Academia não descortinava economistas “à esquerda”  mas não muito críticos a  quem o atribuísse. Se há dúvidas do que afirmo relembro  aqui a sua posição a defender as Sweatshops,  à falta de melhor ,  para os Bangladesh e outros, relembro aqui o que a sua conferência  em Portugal, na Gulbenkian. Relembro ainda aqui a sua intervenção em Portugal  a defender a redução salarial como  medida de saída para a crise, relembro aqui a coragem,  melhor dizendo,  a lata, para almoçar com Passos Coelho. Mas com a sua posição de defesa das políticas deflacionistas  justificava o almoço com Passos Coelho e este saia  caucionado por  um Nobel. Nâo   há almoços grátis é o que se diz nos mercados financeiros.

Mas em 2008, tratava-se de um prémio Nobel atribuído a  um cinzento.   Mas 2008 passou, o New York Times convidou-o, possivelmente pago a peso de ouro, para assumir um blog no jornal.  Um blog notável, acrescente-se, um blog em que ele quase que atingia a estatura cientifica  de Martin Wolf, o campeão do liberalismo que se tornou no mais emblemático keynesiano dos tempos de hoje. E a Academia Sueca com isso  aprendeu e passou de novo a  atribuir o  Nobel  de forma quase que predominante   aos defensores do neoliberalismo. Exactamente como antes. É assim sem margem para dúvidas com Fama (2013) com Thomas Sargent ( 2011)  e agora com Jean Tirole (2014) .

 Tudo isto a confirmar neste campo as críticas  que Sartre dirigiu a Academia e para o campo das letras.

Sobre este tema dizem-nos em Alternatives Économiques:

 “Mais recentemente, há cada vez mais  vozes a levantarem-se para reclamar o fim desta comédia, em especial nos meios associados às instituições do prémio  Nobel. A atribuição frequente do prémio do  Banco Central da Suécia  a  economistas activamente empenhados  numa cruzada contra o Estado-Providência ou em contribuições destinadas a aperfeiçoar os instrumentos financeiros utilizados para a especulação, tem incomodado muita gente. Alguns consideram que, por um perverso retorno  das coisas, o prémio do Banco central da Suécia acaba por estar a desvalorizar os verdadeiros prémios Nobel.”

Pois bem, aqui apresentamos um comunicado da Attac sobre a atribuição do prémio Nobel de Economia  de 2014.

Coimbra, 21 de Outubro de 2014.

Júlio Marques Mota

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Depressa, para o governo de Manuel Valls!

A propósito da atribuição do prémio Nobel de economia a Jean Tirole

ATTAC – FRANÇA,  « Prix nobel » d’économie : des cocoricos déplacés

 Comunicado de 13 de Outubro de 2014

 Jean Tirole - Nobel da Economia

“O prémio do Banco da Suécia em ciências económicas em honra de Alfred Nobel”, impropriamente chamado prémio Nobel da economia, acaba de ser atribuído ao francês Jean Tirole. Enquanto que um dilúvio de comentários elogiosos sob a forma de “cocorocós” se propaga nos meios de comunicação social, Attac lamenta esta escolha que se inscreve na linhagem dos prémios atribuídos a Hayek, Friedman e outros economistas neoliberais, em grande parte responsáveis pela crise actual.

 

Apresentado como “um dos economistas mais influentes da nossa época” pelo Banco da Suécia, Jean Tirole é recompensado pela “sua análise da força dos mercados” e pelas suas recomendações a favor de uma desregulamentação nos domínios da indústria, da finança e do trabalho.

É assim que Jean Tirole, sobre o qual se pode pensar que o novo ministro da economia Emmanuel Macron é um admirador fervente, propõe uma reforma do mercado do trabalho, sendo que uma das suas medidas deveria ser a de aligeirar o código do trabalho e, em especial, de suprimir os contratos de  duração indeterminados (CDI).

Isto não é tudo: Jean Tirole é desde há muito tempo um fervoroso defensor de um mercado mundial das licenças de emissão de gás de efeito de estufa. O preço e a concorrência seriam assim os principais instrumentos mobilizados para limitar as emissões. No entanto o mercado europeu do carbono é um falhanço retumbante ao mesmo tempo que um novo teatro de especulação!

No domínio da finança, Tirole ilustrou-se por uma abordagem – fundada sobre a teoria dos jogos e da informação – segundo a qual a estabilidade dos mercados pode ser obtida pela transparência da informação e pela concorrência sobre os mercados. Ignorando o carácter fundamentalmente instável dos mercados, Jean Tirole deu assim o seu aval às políticas de desregulação financeira e incentivou as autoridades de regulação a negligenciarem a necessidade de uma regulação global da finança.

O carácter global e sistémico  da crise mostrou que se tratou então de um erro trágico… demonstra por isto o carácter inadaptado e perigoso das análises de Jean Tirole e da corrente de pensamento que representa: um neoliberalismo dogmático através do qual a função económica essencial do Estado é a de estender a lógica dos mercados ao conjunto dos domínios da vida social.

ATTAC
Communiqué 13 octobre 2014.

 

Ver em:

https://france.attac.org/actus-et-medias/salle-de-presse/article/prix-nobel-d-economie-des?pk_campaign=Infolettre-143&pk_kwd=prix-nobel-d-economie-des

 

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