DOS COMPROMISSOS DA ESQUERDA DE ONTEM AOS FALHANÇOS TRÁGICOS DA ESQUERDA DE HOJE: QUESTÕES À VOLTA DE UMA SÉRIE DE CAPITULAÇÕES. – A ESQUERDA FRANCESA ACREDITA NOS MILAGRES À ITALIANA – por PASCAL BORIES

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Pascal Bories, LA GAUCHE FRANÇAISE CROIT AUX MIRACLES À L’ITALIENNE

Causeur nº 17, Outubro de 2014

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O nível de popularidade de Matteo Renzi faz sonhar Hollande e Valls. Mas estes irão por mau caminho se seguirem a experiência italiana. Renzi apoia-se sobre o povo mas é para desmantelar as instituições. Ora, estas são hoje a última muralha da esquerda.

“Os Italianos são como os franceses mas de bom humor”, dizia Jean Cocteau. Muito exactamente, sobretudo neste momento. Enquanto que, em França, a impopularidade inédita do presidente da República faz pairar a ameaça de uma verdadeira crise de regime, o chefe do executivo italiano, Matteo Renzi, goza de uma excepcional quota de confiança, com nada menos de 64% de opiniões favoráveis. E isto, apesar de uma situação económica ainda mais frágil do que a nossa – recessão desde Julho, baixa dos preços em Agosto – e de um endividamento crítico.

Não é surpreendente que, nestas condições, os nossos líderes sejam estrábicos sobre o vibrante presidente do Conselho, cujo país acaba agora de assumir a presidência da União europeia. A 30 de agosto, François Hollande apresentava-se com ele para fazerem frente comum contra a austeridade reclamada por Bruxelas. Uma semana atrasado, Manuel Valls ia a Bolonha para a festa anual do Partido democrata (PD), de onde saiu Matteo Renzi, e fazia-se fotografar ao seu lado, em Jean e camisa branca, tal como ele.

Há alguns anos apenas, a França interessava-se pela Itália apenas para se distanciar ou para se indignar das loucuras do que inacreditável Silvio Berlusconi, de que não se compreende que ainda e sempre seja reeleito. A esquerda francesa diabolizava-o com deleite para melhor o poder comparar a Sarkozy, enquanto que os dois homens não tinham objectivamente nada em comum. Hoje, em contrapartida, é efectivamente uma espécie de Sarkozy local que tomou os comandos do poder em Itália, e os dirigentes socialistas franceses vem comer à sua mão. O que a imprensa transalpina apelida de “o Rottamatore” (“démolidor”) teem com efeito efectuado uma carreira fulgurante, comparável à do mais jovem presidente da câmara municipal de Neuilly tornado presidente em 2007. Do seu feudo de Florença, no qual se tornou presidente da câmara municipal com 34 anos, Matteo Renzi não terá demorado muito tempo a chegar ao Palazzo Chigi, morada oficial do Primeiro ministro italiano em Roma, saltando mesmo por cima das eleições. Para o efeito, assumiu directamente a direcção do seu partido e decidiu fazer cair o governo em exercício, para se sentar no lugar do seu camarada Enrico Letta.

Até agora, trata-se da sua única concessão à política polítiqueira “à antiga” que aliás ele despreza absolutamente. Porque em todos os domínios e sobre todos as frentes, a começar pelas suas relações com o seu próprio campo, Renzi tem um objectivo: escavacar tudo. E rapidamente. O seu inimigo, é a paciência. Em Fevereiro último, para obter a confiança do Parlamento, ele terá mesmo forçado o vicio até a vir fazer um discurso no Senado no qual ele próprio anunciava a sua quase supressão muito em breve. E a pílula passou!

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Onde, na França, as elites se enfiam cada vez mais num entre-si totalmente desligado das aspirações populares, Matteo Renzi zanga-se com os poderosos e obtém uma adesão massiva na “ base”. No dia 6 de Setembro, entrevistado por Anne Sinclair em Europa 1, explicava esta “renzimania” pelo facto de que há já mais de “vinte anos que os Italianos esperavam por uma mudança radical que ainda anão tinha chegado”.

Conhece-se a canção que acompanha sempre, em França também, o regresso da esquerda aos negócios: “Mudar de vida ”, “a mudança é agora”… Matteo Renzi, como exactamente assim, afirma que vai alterar tudo: a Itália, a esquerda, as instituições. A ouvi-lo sobre Europa 1, considera-se que a sua bagagem doutrinal e retórica não é nada mais consistentes do que a de François Hollande – a menos que não pronuncie as palavras mágicas que os seus admiradores franceses gostam de ouvir: “A esquerda que não muda, a essa não se chama esquerda, chama-se direita ”, responde a Anne Sinclair. E a direita, é mal, não?

Renzi, como Valls, passa por ser mais popular à direita que no seu próprio campo. Eles partilham a mesma admiração por Tony Blair. Para lá mesmo do seu look de gente elegante, Le Monde tem alguma razão em qualificar o Italiano “de gémeo da esquerda europeia” do Francês. Salvo que há uma muito grande diferença entre os dois países: a mudança, Holanda sonha com ela, mas Renzi fá-la. Qualquer correspondente em Roma é obrigado a bem constatar que ele realizou em seis meses mais reformas que Hollande em dois anos e meio. Além do mais, contrariamente a um Manuel Valls que deve incessantemente provar que pertence sempre ao campo do Bem, Renzi parece estar-se nas tintas, como quando se terão molhado as suas primeiras calças de ganga de ser ou não ser “de esquerda”. E pode proclamar o seu blairismo, tido deste lado dos Alpes por uma doença vergonhosa. Em suma, enquanto os socialistas franceses se andam a desfazer uns contra os outros pelo glorioso título “de esquerda” sem conseguirem fazer aprovar a mínima reforma digna desse nome, o demolidor age.

Se o “renzismo” não fosse só um fantasma para os nossos dirigentes socialistas, eles entenderiam talvez como eles é que eles representam ou incarnam o sentido oposto. Matteo Renzi, é um anti-sistema à frente do sistema. Um novo chefe ambicioso e bem cheio de ideias, mostrando-se com uma feroz vontade de torcer o pescoço ao establishement em m funções desde há décadas. A impressionante vitória do seu partido no Parlamento Europeu tem marginalizado a oposição populista do Dieudonne local, Beppe Grillo e o seu Movimento 5 Estrelas. Enquanto na França o PS levou uma martelada inversamente proporcional ao sucesso histórico da Frente Nacional.

Deve aqui ser dito que se o espectro político está em fase de avançada decomposição, lá, na Itália, este está em recomposição depois de anos de cãos. Renzi evoca “a paixão dos italianos pela dignidade da política italiana”, que teria ganho agora a prioridade sobre a sua precedente curiosidade doentia pelas escutas telefónicas e as revelações picantes da época de Berlusconi. Hollande jura que “permanecerá no seu posto” enquanto uma ex-concubina publica os detalhes menos brilhantes da sua privacidade para todos os franceses. E que Sarkozy já não pode ligar a ninguém sem estar seguro de não estar a ser gravado. Os desenvolvimentos recentes nos nossos dois países não podem ser mais diametralmente opostos

É também o caso no que diz respeito à nossa relação com as instituições. Nós deveríamos frisar a “crise de regime”, para que nós percebamos como é que o presidencialismo da V ª República pode ser desastroso, quando o presidente sofre de um défice de legitimidade. Em tempos normais – ou seja de não-coabitação – o Presidente tem todo o caampo de acção que deseje, e ninguém o pode impedir que ele se comporte como ele bem o entender. Mesmo quando ninguém o quer.

Em comparação, o que constitui o principal defeito do sistema político italiano revela-se, pois, ser o seu melhor trunfo. O parlamentarismo fragiliza o executivo e obriga os partidos a alianças antinaturais, que às vezes paralisam o país e o executivo. Mas evita que um presidente do Conselho se mantenha no poder se não tem atrás de si uma verdadeira maioria e um certo consentimento popular. Por outras palavras, o que hoje é a força de Matteo Renzi levaria à queda do François Hollande. E a esquerda francesa não tem nenhum interesse em mexer nas instituições, o último baluarte que lhe permite manter o poder. Realizar o seu fantasma, provocaria a sua queda.

© Mistrulli Luigi/Sipa

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