O EURO ESTÁ MORTO. DE PÉ, FRANÇA! – DUPONT-AIGNAN REBAPTIZA O SEU PARTIDO. PARA IR MAIS LONGE? – por DAOUD BOUGHEZALA

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 Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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«O euro está morto. De pé, França!»

Dupont-Aignan rebaptiza o seu partido . Para ir mais longe?

 

Daoud Boughezala,  «L’euro est mort. Debout la France!» Dupont-Aignan rebaptise son parti. Pour ratisser plus large?

Revista Causeur , 13 de Outubro de 2014

debout la france

Ontem à tarde, Nicolas Dupont-Aignan reunia as suas tropas em Paris por ocasião do congresso de Debout La République, perdão, Debout la France, de acordo com o novo nome do partido, aprovado por 87% dos sufrágios. A sala Olympe de Gouges estava cheia, completamente cheia, com bem mais de um milhar de espectadores que arvoravam bandeiras azul-branco-vermelho, sweat-shirt com as cores do partido enquanto um militante de cabelos escurecidos se distinguia pelo seu t-shirt ornamentado com a cruz da Lorena “de Gaulle-Dupont Aignan/1945-2015. Derrubemos os colaboracionistas!”

Depois de um certo zizaguear pelas ruas do XI bairro, descubro um grupo de novos membros sentados juntos junto à tribuna. Tomando a palavra,  um após outro , cada um deles explica as razões da sua adesão à DLF. Philippe, militante da Picardia descreve a desindustrialização que estrangula as terras do interior da sua região e conteve uma lágrima sobre o destino “dos desempregados vítimas das políticas de direita e de esquerda que têm vindo a ser aplicadas desde há trinta anos”. Sobre esta antiga terra chevenementista nas mãos do antigo ministro Georges Sarre durante treze anos (1995-2008), a referência “ao reagrupar dos republicanos das duas margens” faz lembrar os grandes discursos da campanha presidencial “de Che” em 2002.

Ironia da História, há doze anos, opondo uma recusa categórica aos apelos de Chevènement, o jovem deputado do grupo diverso-direita Dupont-Aignan não tinha ousado atravessar o Rubicão, o mesmo se tendo passado com Pasqua e Séguin. Depois, o espaço político dos soberanistas de direita e de esquerda reduziu-se dolorosamente muito mas mesmo assim a aliança continua sempre a ser muito difícil, como o mostrou o malogro da tentativa de lista comum Chevènement-Dupont-Aignan nas últimas eleições europeias, uma iniciativa torpedeada pelos lugares tenentes destas duas personalidades de ideias afinal tão próximas. E, depois, é necessário contar com a emergência de um novo actor antieuropeu que vai de vento em popa: a Frente nacional.

O jovem da região de Auvergne que acaba de pegar no micro, tinha-se, de resto, deixado levar nas redes de Marine Le Pen, ao ponto de se tornar director de campanha de uma candidata FN nas últimas municipais, com apenas 20 anos! O jovem homem diz ter “ sido apanhado pelo que se chama voto útil”, antes de tomar consciência do seu erro: “O FN, é o sistema e mais os extremos!” “Uma PME familiar” reproduzida à escala local, onde o comportamento de clã, o racismo e a especulação reinam como verdadeiros mestres. Tudo ao contrário do que se passa com Debout la France – por último realizei-me! – que aposta sobre a meritocracia, a competência e a rejeição da xenofobia. Sob fortes aplausos, o frentista arrependido declara: “Marine Le Pen nunca poderá reunir uma maioria de Franceses. A longo prazo, a União somos é nós!” Um terceiro jovem de nome Samuel apresenta-se então como um quadro empresarial  “a trabalhar numa muito grande empresa europeia” vivendo entre Paris e Berlim. Entrado na casa dos quarenta, surpreende o seu mundo ao confessar que não necessariamente irá aderir às opções económicas defendidas por Dupont-Aignan mas suscita um enorme clamor na sala quando exalta “uma necessidade de exemplaridade” e “de valores que fazem o orgulho de ser Francês”. “Gosta-se do nosso país”, a fortiori diz ele quando se vê um jovem ucraniano gravemente doente conseguir tratar-se gratuitamente à Paris. Entre estas linhas, adivinha-se Samuel talvez antes liberal, propenso a vociferar contra os défices públicos mas “a grandeza da França” vale bem o preço de um repatriamento sanitário!

Depois destas declarações, o historiador Eric Anceau, especialista em Napoléon III na cidade, responsável do projecto no seio de DLF, anuncia a vinda de uma série “de peritos” próximas das ideias de NDA. A antiga professora  Claire Mazeron, hoje inspectora de academia, trabalha “na França periférica tão bem descrita por Christophe Guilluy”. Mazeron declara permanecer “intrinsecamente de esquerda” mas não deixa de apoiar explicitamente Dupont-Aignan contra a falência da escola que é gerada a partir da “ visão neoliberal da Europa de Bruxelas”. Pensa-se mesmo estar a ouvir Michéa  a ler em voz alta o seu pequeno ensaio sobre o ensino da ignorância (Climas, 2006) ao ver assim fustigada “a escola da adaptabilidade ao serviço das empresas” e “o mercado da educação”.

Menos político, o economista Jacques Sapir apresenta um pequeno quadro sobre o estado (desastroso) da zona euro. “O euro morreu! ”, anuncia Sapir como uma Pitia  que lê o futuro na inércia do Banco central europeu. Haveria efectivamente um grande plano de investimentos a lançar em todo o continente sob a égide do BCE mas a Alemanha, a Áustria e a Finlândia dizem NÃO … Em consequência deste NÃO a França é condenada a juntar-se à Grécia, a Portugal, à Espanha e à Itália no pelotão dos Estados europeus em crise. A menos que tomemos o caminho da Grécia, que perdeu 30% do seu PIB nestes últimos anos e se encaminha para novas eleições gerais, das quais Syriza deverá sair vencedor. Em Paris como em Atenas, Sapir deseja um ajuntamento dos euros-realistas de todos os quadrantes para gerir a inevitável saída do euro. Um UMPS virtuoso fortemente apoiado por DLF, o mesmo dizer que já se conheceram sonhos mais insensatos…

Exactamente antes do grande discurso, avança “um homem cuja vida está ameaçada”. Hervé Falciani, os cabelos com laca e penteados para trás, de aspecto jeans e gravata típica de um golden boy da região de Nice, resume sucintamente o seu percurso. Outrora empregado de um banco suíço pouco interessado em olhar para a probidade dos seus clientes, foi detido pela Interpol e depois revelou as práticas duvidosas do Partido popular espanhol, cujo tesoureiro foi colocado para lá das grades, sob ferrolhos! Ameaçado de morte pelos agentes pagos dos mercados financeiros, Falciani explica que é devido somente à sua própria presença que se pode explicar o nervosismo que presenciou nos agentes de segurança à entrada. Como seria de esperar, conclui a sua intervenção por um elogio a Nicolas Dupont-Aignan, chegado cedo aos camarotes.

Que importa a embalagem, os militantes apresentam-se com a embriaguez das grandes declamações. Colocando-se imediatamente sob a tutela do General, Dupont-Aignan soma as homenagens aos Séguin, Chevènement, Pasqua, Villiers contra “as falsas fatalidades da História”. “O euro está morto! De pé a França! ”, repete à maneira de uma referência fundamental. Em direcção aos cépticos, confirma a sua “adesão visceral aos valores da República”, e afirma que se orgulha de ser “o sexto partido da França”… UMP, PS, FN: fala de cada um deles, a começar pelo partido frentista, , “o anti-sistema système que se tem tornado um aliado do sistema” pela sua propensão a manchar tudo aquilo em que toca – defesa da soberania, patriotismo social, etc. Aos eleitores liberais do UMP tentados por um voto alternativo, garante que “os erros dirigistas de 1981, mesmo revisitados pela FN” não darão em nada. Equilibrista, o presidente de Debout la France fala à sua a esquerda sobre do acesso social à propriedade, não sem estar a criticar duramente “Emmanuel Macron do banco Rothschild, que acusa os desempregados de estarem desempregados.” Tudo isto ao mesmo tempo que vai apostando sobre a reforma de todos os sistemas especiais de pensões . Em suma, uma vez regressando ao poder, o homem do 18 de Junho realizava assim a proeza de conciliar diariamente os favores do liberal Jacques Rueff,  com os dos gaulistas, da esquerda a Louis Joxe… Exortando os seus partidários à unidade, NDA recita uma frase premonitória do seu pequeno Séguin ilustrado: “Levantai-vos, é de pé que se escreve a História!” Com ou sem Dupont-Aignan?

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*Photo : WITT/SIPA. 00695266_000023.

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Ver o original em:

http://www.causeur.fr/euro-est-mort-debout-la-france-29704.html#post-comments

 

 

 

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