Por esta altura já o chefe do Governo cessante procurava fugir ao destino que lhe estava a ser reservado.
Logo que regressou à sua residência na Rua de João Crisóstomo, pôde aperceber-se que lhe estava a ser montado um cerco.
Perto da sua residência, com comunicação através de quintais nas traseiras, mora o engenheiro Cunha Leal, adversário político de António Granjo, que este sabe ter boas relações com os principais dirigentes da Junta Revolucionária, chegando mesmo a ser convidado para a chefiar.
Granjo não tem muito por onde escolher. O cerco montado à volta da sua casa vai subindo de tom. Os revolucionários mostram-se aos grupos. São civis, marinheiros, soldados da Guarda que, em clara atitude intimidatória, se passeiam de espingarda ao ombro.
Cunha Leal encontrava-se em casa àquela hora. Era dia de anos da sua esposa. Vários amigos estão presentes no segundo andar da Avenida de Miguel Bombarda que faz traseiras com a casa de António Granjo. De súbito batem à porta. Cunha Leal vai pessoalmente ver quem é. Ao abri-la depara com António Granjo. Acompanha-o um vizinho, em cuja casa sua mulher se refugiara já. Escapara-se de casa saltando pelos quintais das traseiras.
Estava a começar a Noite Sangrenta.
*
Em Lisboa vivia-se a euforia da vitória de um movimento que não fizera uma única vítima. O facto estava consumado e as forças da revolta preparavam-se para recolher aos respetivos quartéis. A vida continuaria no dia seguinte, se, entretanto, a noite que ia cair sobre a cidade não estivesse destinada a encobrir o horror que já estava a pulsar no cerco à casa de António Granjo.
É com uma tranquilidade completa em todos os pontos de Lisboa que a luz do Sol se despede do dia 19 de outubro de 1921. Realmente, não se ouvia mais do que o trote de cavalos, o passo de algumas patrulhas, e a cidade, iluminada pelos holofotes dos navios de guerra estacionados no Tejo, preparava-se para mais um sono sossegado, assente no convencimento de que tudo correra no melhor dos mundos possíveis. De resto, Lisboa habituara-se já às revoluções. Desde o 5 de Outubro de 1910, e em especial depois do sidonismo, em 1918, raro era o momento em que não estava na forja uma qualquer conspiração destinada a pôr Lisboa em sobressalto.
Umas mais violentas, outras mais moderadas, as revoluções durante a I República serviram quase sempre para corroer e acelerar a destruição do regime fundado em 1910. Quer fossem de iniciativa restauracionista por parte dos monárquicos, quer se afirmassem de defesa do regime por parte dos republicanos, não restam dúvidas que todo este ambiente em que viveu a República portuguesa acabou por confirmar o destino sebástico de uma Nação que existe há vários séculos, como que a procurar a existência.
19 de outubro de 1921 não seria mais do que um dia com alguma história para contar se não viesse a noite que ficara para sempre a arrepiar quem dela se recorda.
É isso que sucede com Raul Brandão, quando em dezembro de 1928 lembra o que então aconteceu:
«Um grito abala neste momento em que revejo as Memórias a indiferença geral, sacudindo até à dor os nervos dos que esperam os acontecimentos prestes a desabar.
É o grito duma viúva que viu arrancarem-lhe dos braços o marido, para o fuzilarem, e que brada:
– Assassinos!
A atmosfera era de terror. Na véspera, António Granjo, tipo hercúleo, com uma face taurina, misto de bonomia e de vulgaridade, dissera a Junqueiro (ia não sei para onde, de smoking, sorridente):
– Para os senhores, o futuro, para nós (a política), o presente! – Estava em casa do Presidente da República.
«Insisti com ele», contou-me António José, «para que tivesse cuidado com os acontecimentos que me pareciam sérios. Estava de cama, doente, e ele, com aquelas grandes mãos de cavador, aconchegou-me a roupa, com ternura, dizendo:
– Durma descansado. Eu sei tudo. Isto não vai passar duma bagarre nas ruas, verá! E foi para a morte.»
Às primeiras horas da noite, do dia seguinte, era levado para o Arsenal da Marinha, de onde já não sairá com vida.
O que se passara, até vir a «noite infame», aparece narrado em vários testemunhos, todos eles, sem exceção alguma, marcados pelas proporções do tremendo horror que abalou Portugal nesta noite sangrenta de 1921.
Terá sido provavelmente a ocorrência subversiva verificada em Portugal que maior repulsa encontrou.
De facto, ninguém, nem uma só pessoa, ou qualquer organização, apareceu alguma vez a assumir e a reivindicar aquilo que aconteceu nessa noite em Lisboa.
Pelo contrário, foram muitos, ou melhor, todos, sem uma única alteração à regra, os que, das mais diversas formas e com as mais diferentes intenções, se apressaram a condenar o horror que caiu sobre a cidade, capital do País.
Quando, ao princípio da noite, a camioneta que estava às ordens do tenente Mergulhão sai do Terreiro do Paço, já todos sabem o que vai fazer.
TROPAS DA MARINHA NO TERREIRO DO PAÇO NO DIA 19
O oficial ordenara ao soldado 154 da Companhia de Trens da GNR que se apresentasse com a camioneta ao guarda-marinha Benjamim Pereira, depois de o capitão Sousa Guerra ter conferenciado com o major Almeida Arez e ambos terem decidido satisfazer os pedidos que «um homem gordo, muito embriagado» não se cansava de fazer.
O segundo-sargento marinheiro Manuel José Carlos, à testa de uma turba a ferver de ódios, pedia licença para matar António Granjo.
– Pois matem lá o bicho – acabou por responder o capitão da GNR, utilizando uma expressão condizente com o estado de alguns dos mais obstinados na autorização.
O guarda-marinha Benjamim Pereira acede em comandar o grupo de marinheiros e soldados que parte em direção à casa de Cunha Leal, onde sabem estar refugiado António Granjo.
Na camioneta seguem, além de Benjamim Pereira e do motorista da GNR, Rogério Augusto da Silva, o segundo-sargento José Carlos, pertencente à guarnição da fragata D. Fernando, o cabo artilheiro 2470 do cruzador Adamastor, Abel Olímpio, conhecido por O Dente de Ouro, e mais uma estranha mistura de voluntários – que vai de corneteiros, ao guarda da Penitenciária, Acácio Ferreira, que não quer perder a oportunidade de participar no festim de sangue que já se adivinha à saída da camioneta do Terreiro do Paço.
A vida de António Granjo começava a entrar em contagem decrescente. Ia ser o primeiro a ter a Camioneta Fantasma à porta de casa.
Aquilo que foram as últimas horas da vida do homem a quem, pela segunda vez num espaço de poucos meses, tinha sido confiada a missão de governar Portugal, teve o testemunho abalizado de Cunha Leal, em cuja residência Granjo procurara proteção.
Nas suas Memórias, redigidas em 1953, mas só vindas a público em 1966, Cunha Leal apresenta o que se passou: «Que horror de noite! Nunca, nos sucessivos aniversários da hecatombe, onde quer que nos encontrássemos, deixámos de recordar, telegráfica ou telefonicamente, a tragédia vivida em 1921.»
Propositadamente – e como diz Cunha Leal – «para não dar azo a que, maldosamente, se suponha que pretendo enfeitar-me com penas de pavão», o autor de As Minhas Memórias acha preferível deixar a outrem a narração do que aconteceu nessa data fatídica.


