«Deus nos livre de quem mal nos quer e bem nos fala»
«Bem que se faz por temor, não tem duração nem valor»
– Tradicionais ditados populares.
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A boa educação é muito útil… A boa educação faz-nos parecer como queríamos ser, procurando fazer crer àqueles que estão próximos (o que por vezes é conseguido) que somos por dentro, no nosso íntimo, como parecemos ser por fora. Esta encenação teatral é muito útil, pois produz uma mímica da decência moral que evita agressividades…
Se nos comporta-se-mos livremente, conforme o instinto, reduziríamos a sociedade a uma luta incessante, algo semelhante entre o “homem das cavernas” e um grupo de babuínos em plena selva. Daqui se deduz que a boa edução não é mais do que o cosmético que encobre as nossas verdadeiras inclinações naturais: – Uma máscara de veludo cor-de-rosa sobre o focinho de um porco ou sobre o focinho de um tigre!
A boa educação é um dos vários compartimentos da dissimulação social, que tem por objectivo tornar menos repugnante e mais pacífica a convivência entre as bestas humanas, entretanto desunhadas por fora…
De facto, a boa educação, a gentileza que se pratica entre nós, mesmo quando é um tanto forçada, parece-se muito com a simpatia, embora não o seja. Poupar aos outros a visão da nossa “maneira de ser” tal e qual ela é, “nua e crua”, o que é sempre bastante desagradável, não é genuína gentileza nem respeito para com o próximo, mas os seus efeitos, à vista desarmada, assemelham-se bastante à gentileza e ao respeito. Em vez de causar humilhação ou dor ao próximo, esforçamo-nos por fingir que o aceitamos tal qual ele é, com maneiras afáveis: – «Cheiras mal, és uma besta, mas falo-te como se fosses uma criatura civilizada; aborreces-me com as tuas conversas. Em suma, finjo não ver o que és verdadeiramente, e dou-te assim a ilusão da minha simpatia por ti».
À força de representar o papel de obsequioso, torno-me mais aceitável pelos outros. À força de actuar como se fosse 100% civilizado, controlo em parte a minha barbárie e, assim, posso apanhar os outros desprevenidos, sujeitos portanto às armadilhas que lhes estender para minha exclusiva conveniência. À força de me mostrar afável, abafo o meu ódio e a minha soberba. Enfim, é bastante útil a boa educação!
As verdadeiras razões do êxito da boa educação não têm as suas raízes na natural simpatia humana. O seu sucesso é de outra origem.
Somos simpáticos por costume, somos corteses por hábito mecânico ou por necessidade de dispor a nosso favor este ou aquele. Somos educados por inércia, por interesse ou por orgulho e egoísmo: – Não estamos para nos chatear com isto e aquilo!
Na verdade, a familiaridade supostamente cordial estabelece uma igualdade nem sempre grata àquele que se sente ou imagina superior. O cumprimento escrupuloso do “código” das maneiras floreadas, da boa educação, assinala e protege o regime das hierarquias. A boa educação, as boas maneiras, podem simular o amor ao próximo, mas o amor ao próximo não é a correcção cerimoniosa. Vejamos…
Um cavalheiro será gelidamente cortês com o grosseirão do taxista desconhecido; e o homem de engenho, mais do que é seu costume, será cortês com o impertinente imbecil que tem à sua frente. Nesta ordem de ideias, a confidência entre desiguais rebaixa o mais acima na hierarquia; a cortesia do que está mais acima na escala socio-profissional para com o que lhe é inferior na mesma escala, mantém em respeito a diferença e salvaguarda a posição do que está em cima.
Entre o ser tosco e grosseiro e o galante cavalheiro (isto é, o que foi aplainado pela boa educação de exteriores), a relativa perfeição, se assim posso dizer, está na simpatia interior, na redenção da nossa natureza ferina, na polidez da alma!
A única boa educação digna e preciosa é a que nasce, espontânea, da gentileza da alma não forçada, não interesseira, mas simples e pura, bela como a graça que costuma acompanhar o verdadeiro amor. Por isso, a boa educação nada ter a ver com o grau de ensino frequentado, com a classe social, com o sexo. Todavia, para a obter é preciso, primeiro, ter cumprido a imensa tarefa da nossa reforma interior, tornar gentil o nosso próprio coração. Enfim, caminharmo-nos, se somos crentes, pelos Evangelhos; se somos não crentes, pela via do respeito pela dignidade humana, praticando desinteressadamente a solidariedade para com o próximo.


