BREVE HISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA (excertos) – 1 – por José Pedro Machado

Este trabalho de José Pedro Machado, um dos menos conhecidos da sua vasta bibliografia e do qual transcrevemos alguns excertos, foi publicado num pequeno caderno em 2003, tendo sido escrito para o volume de actualização da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Pela sua extensão, será publicado hoje, mas dividido em quatro posts.

As zonas mais resistentes à romanização da Hispânia correspondem aproximadamente às que, passados séculos, constituíram os focos da Reconquista quando aImagem1 invasão muçulmana veio abrir novo capítulo na história da Península. Aqui, uma das mais importantes consequências da presença de Roma consistiu na aceitação do seu idioma, o latim, com o progressivo desaparecimento dos falares locais, para mais tarde dar lugar às línguas desenvolvidas da dos novos dominadores, integradas na România: as românticas ou neolatinas. Mas, se compararmos as áreas do Império e as desses idiomas, verificamos a existência de territórios que foram romanos e depois românicos, de outros outrora romanos mas que não se tornaram românicos e, finalmente, de outros onde os Romanos não chegaram mas o destino quis que se tornassem românicos. […)Hoje, mais de vinte séculos passados, o latim vulgar trazido pelas legiões vindas de Itália mantêm-se vivo em largar áreas e a servir de veículo de diversos quadros da civilização. A Hispânia, como já se sugeriu, conta-se entre as regiões que foram romanas e hoje figuram entre as românicas, pois os idiomas nela falados são latinos, já que o basco tem presença limitada. Entre elas encontra-se o português, por sinal, assinale-se já, o mais conservador em relação ao latim, sobretudo em alguns aspectos fonéticos, particularmente no vocalismo, utilizando o do latim do século III.

Aquela semelhança não passou despercebida à erudição quinhentista: João de Barros reproduz no Diálogo em Louvor da Nossa Linguagem versos «portugueses que os entende o Português e tão latinos que os não estranhará quem souber a língua latina». Por intermédio do «filho» reconhece-se que tal texto se apresenta com «linguagem um pouco retorcida», mas o «pai» argumenta-lhe que isso acontece «por guardar a cantidade das sílabas e a ordem dos pés» e ainda «que a hua maneira falam os poetas e doutra os oradores» (PP. 218 e 219 da Compilação de Várias Obras, ed. De 1785). Mais claro é o conceito expresso n’Os Lusíadas quando Camões atribui a «simpatia» de Vénus pelos navegadores portugueses à língua, «na qual quando imagina / com pouca corrupção crê que é latina» (I, 33). Mas em ambos esses casos tinha-se em vista o latim tal como se estudava e utilizava no século XVI, ao passo que o trazido e aqui difundido por soldados e colonos constituía o modernamente chamado latim vulgar. Deles muitos eram oriundos de muitas populações submetidas e mais ou menos romanizadas. Alguns até se encarregaram de enriquecer o vocabulário desse latim com atribuições das suas línguas maternas. O facto é que esse latim foi difundido pelas áreas dominadas pelos conquistadores vindos da Península Itálica, o recebido pelos «bárbaros» submetidos à águia romana. É nele que entroncam os já referidos idiomas neolatinos ou românicos, um dos quais é o português.

Pouco sabemos dos idiomas que o latim vulgar veio encontrar na Hispânia, incluindo os das zonas onde, passados séculos, viria a utilizar-se a nossa linguagem. Genericamente podemos admitir que havia quem falasse celta e ibero, mas sabemos, já o disse, que de falares indígenas o latim importou elementos lexicais, não sendo possível determinar as datas nem os locais desse enriquecimento.

Em trabalho que faz parte do apêndice da 2.ª edição das Origens do Português, verifiquei que desses elementos 34% respeitam à mineração, 26% à natureza e 24% a utensílios. Se conseguíssemos averiguar onde e quando foram obtidos, talvez ficassem esclarecidas mais algumas dúvidas sobre as actividades desenvolvidas pelos conquistadores e pelos submetidos na faixa ocidental da Península Hispânica. Aí se situavam localidades importantes cujas denominações chegaram ao nosso conhecimento: Aramaia, Caetobriga, Ebora, Equabona, Olisipo, Scallabis, Colipo, Conimbriga, Aeminium, Veseo, Bracara, etc.

Nos campos como nas cidades o latim vulgar impôs-se, mas não rapidamente, pois em 74 d.C. Vespasiano (9-79) assinou o edicto que concedeu a cidadania a burgos da Hispânia e autorizou o uso das línguaslocais em relações privadas.

O latim, portanto, difundia-se pelo Império e essa resolução não abria excepções para a Hispânia, onde também se verificava grande interesse pelas letras, pelo estudo da eloquência, arte indispensável no exercício de algumas altas funções, como a magistratura. Esta tornara-se o opussacramentissimum, segundoo hispânico Quintiliano (30? – 100?), que firmemente acreditava na utilidade superior da palavra, na sua importância decisiva em tribunais, conselhos de Estada, assembleias do povo e Senado. De resto, os méritos do latim culto de autores hispânicos já merecera louvores a Cícero (Pro Archia, 26).

Mas essa linguagem culta não teria conseguido apagar a entoação herdada de povos anteriores, como parece, célticos. Seria estranha a ouvidos latinos; daí ter provocado hilaridade no Senado romano o discurso do futuro imperador Adriano (entre 117 e 138), então aqui questor (Espartiano, Hadrianus, cap. III). Nascido na Bética, de mãe gaditana, a sua acção benemérita pela terra natal mereceu-lhe o cognome de RestitutorHispaniae. Uma das causas daquela estranheza seria a tal entoação, caracterizada pelo alargamento das vogais tónicas quando em palavras a salientar no discurso, particularidade que parece já ter existido no antigo português, documentável sobretudo em exemplos de duplicidade não etimológica de o e e, como em boosco e ceeo. Uma possível particularidade do latim vulgar da Hispânia com reflexos no português, que ainda hoje se mantém na expressividade de alguns oradores. E esse eventual fundamento céltico na Hispânia liga-se a outros casos que podem explicar o aparecimento do galego, do asturiano, do leonês (cujo antigo prestígio tanto influenciou alguns idiomas peninsulares) e do português, este de posterior importância como idioma literário na poesia lírica medieval e como veículo da civilização europeia. Com o fim da Segunda Guerra Púnica, em 202 a. C., começou a romanização desta Península em grande parte graças à já assinalada presença do latim vulgar, cuja fragmentação já se verificava no fim do século VI. Para isso talvez de algum modo também tenha contribuído a agitação social provocada pela chegada, nos primeiros anos do século V, de Alanos, Vândalos e Suevos.

 (Continua)

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