Passa hoje a data do centenário do nascimento de José Pedro Machado, um grande filólogo que as pessoas conhecem sobretudo pelos seus dicionários – além do monumental «Grande Dicionário da Língua Portuguesa», o “Onomástico” e o “Etimológico”. Bem como uma extensa lista de obras sobre linguística. Uma vida dedicada ao trabalho, ao estudo e à divulgação do saber. Porque sobre a vida pessoal de José Pedro Machado (1914-2005) não haverá acontecimentos muito espectaculares a referir. Pessoa tranquila, cordial, não terá vivido muitas aventuras dignas de menção, nem se lhe conhecem episódios heróicos ou de grande relevância. No seu período de maior actividade profissional, o ensino ocupava-lhe grande parte do dia. Foi um bom estudante, obtendo sempre elevadas notas, e um excelente professor que marcou positivamente a vida de muitos dos seus alunos, quer na Universidade, quer nas escolas do Ensino Secundário onde exerceu docência. Fugindo sempre a preconceitos elitistas, partilhou os seus conhecimentos de uma forma aberta e generosa, colaborando em numerosos jornais – entre outros, no Diário de Lisboa, no Diário de Notícias, em A Capital, e em diversos jornais regionais, mantendo com regularidade os seus «consultórios», colunas de resposta às questões colocadas pelos leitores, esclarecendo, ensinando sempre. Nos derradeiros anos, dividia as suas horas pelo convívio, na Casa Chinesa da Rua do Ouro, onde bem cedo tomava o pequeno-almoço numa roda de amigos; na Livraria Portugal da Rua do Carmo, onde ia pelas manhãs, cerca das nove, pois ali tinha gabinete próprio, coordenando durante mais de 50 anos o Boletim Mensal; no Restaurante Pardieiro, no Largo da Graça, onde almoçava com frequência; nas reuniões canónicas da Academia Portuguesa da História. Sempre, até ao fim, mesmo quando já se confessava cansado e doente, dedicava muitas horas à construção da sua obra, investigando, escrevendo, revendo provas, pois trazia sempre diversos projectos em execução. Poucos terão sido os que deixou por realizar. Tive a honra de ser seu amigo e seu editor e este artigo (adaptado de um outro que publiquei no Estrolabio), é a modesta homenagem que presto à memória de José Pedro Machado, ao filólogo, ao amigo, pai de um outro amigo – o nosso João Machado. Pela sua extensão, este texto é dividido em quatro partes – serão todas publicadas na edição de hoje. Um texto biográfico mais completo está publicado em VIDAS LUSÓFONAS – http://www.vidaslusofonas.pt/jpm.htm
