À atenção dos militantes do Partido Socialista e em particular de António Costa
(conclusão)
…
Taxa actual de desemprego no Reino Unido – algumas considerações
Taxa de desemprego de 6.2%, (Julho de 2014) – a mais baixa desde 2008. (página actualizada em 18 de Setembro de 2014)
2.02 milhões – (ONS) (uma descida de 468.000 desde há 12 meses – a maior descida desde 1988)
(Desemprego na Escócia- 6%)
Taxa de desemprego media na Europa – 11.5%
Considerações:
Porque é que o desemprego cai durante uma prolongada recessão como é o caso de 2008 a 2013?
A grande recessão de 2008 a 13 inclui uma das quedas mais sustentadas no PIB. Adicionalmente ainda, apesar da dimensão na queda do PIB, o desemprego que atingiu 8,5% tem estado a cair desde 2011. Esta queda no desemprego surpreendeu alguns economistas porque a economia continuou a estar muito fragilizada com o crescimento económico a estagnar. Numa menos severa recessão, o desemprego aumentou mais que a redução do PIB. Um nível de desemprego mais baixo na actual recessão é devido a diversos factores:
Estamos perante uma grande descida nos salários reais, com os salários nominais a crescerem apenas 0,7 % (Julho de 2014) ou seja bem menos que a taxa de inflação
Uma maior flexibilidade no Mercado de trabalho encorajando as empresas a manterem os seus trabalhadores, através de práticas de trabalho altamente flexíveis, como os contratos zero horas.
Uma queda na produtividade do trabalho a significar que as empresa mantêm os seus empregados apesar do PIB estar em queda
As mudanças na concessão de subsídios torna cada vez mais difícil a sua concessão o que obriga a que haja cada vez mais gente à procura de emprego
Um aumento no desemprego disfarçado em sub-emprego a significar menos horas trabalhadas por pessoa, ou seja, horários de trabalho mais curtos
Alguns economistas sugerem que as estatísticas sobre o PIB têm sub-estimado a dimensão da retoma. As estatísticas recentes mostram um forte crescimento económico:
O conjunto dos gráficos apresentados são demasiado eloquentes para que sejam necessários comentários e são pois o efeito de uma política de austeridade como não há memória desde a Margaret Thatcher, austeridade aplicada na Inglaterra e aplicada igualmente no seu principal parceiro comercial, a zona Euro.
A situação projectada para a França
Mas o caso que mais nos importa aqui é o da França, segundo país da Europa e da zona euro em importância económica. O texto da Attac que se segue é ele igualmente muito eloquente para que sejam necessárias quaisquer explicações. Para os leitores portugueses, este texto tem uma enorme vantagem: permite lembrar três períodos recentes da vida portuguesa; as reformas propostas por Sócrates antes da crise rebentar e que reproduziam já o neoliberalismo puro e duro subjacente ao modelo de Bruxelas, embora embalado com roupagens ditas de socialismo à portuguesa, de versão neoliberal ; as reformas propostas por Sócrates já com a crise a aprofundar-se, e em especial, as reformas codificadas com o famoso PEC IV, a adivinhar os múltiplos pacotes PEC XYZ cada um pior que o anterior que se seguiriam e pela mão agora de Passos Coelho; e, por fim, como terceiro período, temos as políticas já selvagens do actual governo, que um grande economista português um dia na televisão definiu como um bando de miúdos ao assalto do poder. As exigências actuais de Bruxelas apanham, para o caso francês, estes três períodos distintos que referimos em Portugal. Quem não se lembra da desregulação dos mercados de trabalho no tempo de Vieira da Silva? Quem não se lembra do fecho de maternidades em cidades como Elvas e outras com Correia de Campos? Que fossem parir a Espanha, dizia-se. Quem não se lembra da reforma de Bolonha, apresentada como um novo paradigma de ensino? Talvez seja melhor qualifica-la como um novo paradigma para a formação de ignorantes com diploma assegurado. Quem não se lembra da política da criação de fundações quase que a esmo? Quem não se lembra de Teixeira dos Santos e da tentativa de criação do sistema de trustees em Portugal? Quem não se lembra da política de privatizações de então? Depois quem não se lembra do PEC IV? Quem não se lembra do desmantelar da função Pública com externalização de serviços jurídicos para o privado? Quantas adaptações de directivas europeias para o quadro jurídico português terão sido feitas nos últimos dez anos e exclusivamente feitas pelos serviços públicos? Não sei, mas possivelmente nenhuma. A equivalência desta situação devemos encontra-la também no executivo de Passos Coelho. Gostava de saber por exemplo quando se gasta no Ministério das Finanças em programas informáticos específicos para a máquina de extorsão em que este ministério se tornou, gostava de saber quais as empresas fornecedoras e se não há fornecedores privilegiados como terá havido no tempo de Sócrates com os escritórios de advogados de mais relevo que os outros como terá sido o caso de Sérvulo Correia. Quem não se lembra da enorme máquina de avaliação na função pública montada por Sócrates e com muita dessa avaliação concedida a multinacionais? Modernização, chamava-lhe ele e os seus acólitos, modernização é também o que lhe chama Passos Coelho.
E quanto ao terceiro período, o deste governo, não vale a pena citar nenhuma situação de referência pois são tantas e são tão graves e profundos os crimes económica e politicamente feitos e alem do mais, todos eles de fresca memória que passemos à frente. Diremos apenas que o primeiro período de Sócrates minou fortemente os pilares da Administração Pública, que o segundo assegurou o inicio do desmantelar de todo o edifício dessa mesma Administração e, bom, o período de Passos Coelho é como um buldózer a desfazer em pó os tijolos já caídos desse mesmo edifício, para que tudo se torne irreconhecível e se possa perder a memória do que já foi.
Pois bem, o que se projecta agora para a França é a simultaneidade destas três fases de Portugal. As “reformas”, a “modernização” apressada são aí bem evidentes e tal como cá, encontramos as maternidades a fechar, tal como cá iremos encontrar as intervenções cirúrgicas com permanência de um só dia no Hospital que Paulo de Macedo quer também impulsionar no nosso país, e assim sucessivamente. O texto da Attac mostra a rapidez com que a França vai entrar em recessão e com isso, dado o peso que esta tem na zona euro, dadas as suas ligações comerciais com os outros parceiros da zona euro, significa que vai ainda aprofundar mais a recessão em que estão todos os outros já colocados. Piores tempos se avizinham já no horizonte.
Num trabalho sobre Obama e sobre os resultados eleitorais da semana passada, dizia-nos o jornalista Kevin Drum de Mother Jones:
“Obama e a sua equipa foram bem sucedidos na transformação da sua campanha dando uma muito grande importância aos dados e às métricas em ligação com as organizações a trabalhar no terreno. E fizeram-no por duas vezes. Mas o presidente não transformou a política. Para bater as esperadas vagas relativas à oposição e já previsíveis em 2010 e 2014, Obama precisava de utilizar formas não convencionais, imaginativas e eficazes como o fez em 2008 e 2012. Ele precisava de manter ao seu lado os independentes e os cidadãos eleitores de tendência democrática, particularmente aqueles que de outra maneira se tornariam indiferentes para com a política, precisava que estes se envolvessem de uma forma ou de outro no processo eleitoral. E tinha que o fazer ao mesmo tempo que enquanto Presidente se situaria acima de Washington que parecia ser um miasma da desordem e enquanto ao mesmo tempo se confrontava com uma economia a não estar bem e com todo esse inferno que se desencadeava no estrangeiro. Era necessário que ele mantivesse o Nós neste caldeirão de coisas difíceis.”
Mas este texto vale a pena ser lido ainda por outra razão adicional: ao longo da exposição vai-se mostrando o que seria necessário para a França sair a caminho de uma retoma sustentada e eficaz. Ao lê-lo com atenção descobrimos que são exactamente as mesmas coisas que nós precisamos. No fundo precisamos de com medidas concretas inverter a marcha para a destruição. Esperemos que os dirigentes do PS saibam ler o presente texto e que dele tirem para o nosso país as ilações consequentes. Talvez a partir dele se possa encontrar a “outra política”, talvez a partir dele se consigam encontrar as “formas não convencionais, imaginativas e eficazes”, a quer aludia o jornalista americano, capazes de recriar o sentimento que nos leve a poder sentir, sim, Nós podemos e que a partir desse mesmo sentimento nos leve a criar a plataforma de cimento onde esse sim, Nós podemos possa ser sustentado, o que só será possível se nos sentimos todos nós como fazendo parte de um projecto colectivo, o da reconstrução do nosso país, o da construção do futuro dos nossos filhos e netos. Haverá no PS coragem, lucidez, rasgo para novas formas de fazer política, competência para as executar, para isso, ou será que cairemos numa situação equivalente à italiana que é dominada pela coligação Berlusconi-Matteo Renzi? Esta última hipótese significaria que todo o espectáculo que foi criado no Verão passado no Partido Socialista seria a confirmação de mais do mesmo, seria a confirmação do que afirma Salinas: é necessário mudar alguma coisa para que tudo possa ficar na mesma. Por outras palavras, as eleições no PS teriam sido então uma palhaçada para corresponder amigavelmente aos desígnios de Bruxelas, seria a certeza de que continuaríamos colectivamente a marcha, por vontade própria, para o abismo em que a actual coligação nos quer empurrar. É uma hipótese que nunca poria nas costas de António Costa[1]. Admitir esta hipótese seria então considerar que a política no interior do PS expressa o mais puro cinismo e isso é coisa em que não posso sequer acreditar e, por isso, é uma hipótese que não posso jamais considerar. Prefiro a esperança como regra, como bússola, não o cinismo, e por isso faço minhas as palavras que Obama acaba de escrever aos seus apoiantes:
“The hardest thing in politics is changing the status quo. The easiest thing is to get cynical.
So don’t get cynical. Cynicism didn’t put a man on the moon. Cynicism has never won a war, or cured a disease, or built a business, or fed a young mind. Cynicism is a choice. And hope will always be a better choice.
I have hope for the next few years, and I have hope for what we’re going to accomplish together.”
Queremos acreditar portanto na primeira hipótese acima levantada, apenas nessa, a de que há no PS coragem, lucidez, rasgo para novas formas de fazer política, competência para as executar, queremos acreditar na hipótese que assenta na esperança de que iremos ver a situação a melhorar. Não tenho racionalmente outra hipótese como horizonte e como suporte lógico para a minha esperança, senão a de que se Seguro caiu exactamente por causa da sua suposta ausência de coragem para os enormes desafios que a Portugal se levantam, então é porque com a sua queda, com a sua substituição, é suposto que a coragem, o rasgo, a lucidez, passem a ser as qualidades dominantes nas esferas de decisão do Partido Socialista e, neste caso, o texto de Attac é uma muito boa peça de referência.
E boa leitura para todos.
Júlio Marques Mota
________
[1] Sublinho que no momento em que escrevo estas linhas não conheço ainda o texto da moção de António Costa. Apenas o de que dizem dela um ou outro blog, o que aqui é irrelevante.
________



