Selecção, tradução, adaptação e notas de Júlio Marques Mota
Os prisioneiros das fábricas
Obrigado a:
Alessandro Leogrande, Fabio Zayed e Maila Iacovelli, I prigionieri delle fabbriche
Internazionale, 27 de Outubro de 2014
Nota de Júlio Marques Mota
Fotos de Fabio Zayed e de Maila Iacovelli, texto de Alessandro Leogrande para a Internazionale, a que acrescentei excertos de jornais e de outros sites, geralmente assinalados no texto.
Os prisioneiros das fábricas

No dia 21 de Maio do 2014, Maria Baratto, operária de 47 anos, suicida-se no pequeno apartamento em que vivia sozinha em Acerra, esfaqueando-se várias vezes no abdómen. O seu corpo permaneceu no chão da casa durante quatro dias. Ninguém a procurou, ninguém a chamou. São os vizinhos a darem o alarme, suspeitando do cheiro cada vez mais intenso que vinha da sua habitação.

Maria Baratto estava na situação de desemprego técnico (cassa integrazione) na Fiat há seis anos, vivia com 800 euros por mês. Mas não é uma situação de desemprego técnico num sítio qualquer. Maria é um dos 316 trabalhadores colocadas na prateleira e enviados pela Fiat para uma zona de desterro, Nola, para ficarem num desolado hangar industrial a vinte quilómetros das instalações de Pomigliano Arco e que está totalmente desactivado em termos de produção. A partir do fim de 2008, para aqui foram transferidos todos os trabalhadores que pela sua actividade sindical ou por “reduzida capacidade produtivas” (ou seja mesmo quando doentes) não aguentaram ou não quiseram aceitar os ritmos da inovação tecnológica.

Embora se fale muito pouco, na Itália existem ainda muitos degredos deste tipo, os reparti confino, onde se colocam os trabalhadores na prateleira, como é o caso de Vittorio Valletta. Estes reparti confino são pois locais para onde são transferidos e relegados trabalhadores, frequentemente depois de terem sido desqualificados por serem empregados considerados como “violentos”, “agitadores”, “ingovernáveis ” ou “não geríveis”, a ficarem depois na situação de desemprego técnico. Estes locais, por vezes têm aspecto de palacetes não renovados ou de armazéns vazios ou até de escritórios desactivados e que como tal permanecem.

Aos trabalhadores “confinados” não é pedido que produzam, mas que passem os dias sem estar a fazer nada, olhando para o tecto ou distraindo-se a torcer os dedos, até atingir aquele lento, prolongado estado de inacção que não se transforma numa forma extrema de violência contra a própria mente, contra o seu próprio corpo. O trabalhador na situação de “confinato “, desterrado na situação de desemprego técnico, trabalhador colocado de forma violenta na prateleira como se diz em Portugal, vive numa condição de eterna suspensão em que a fábrica acaba por lhe parecer como um mundo à parte, que pode ser observado apenas através de um buraco. Em resumo, o confinado assume o papel de aviso, de advertência para todos os outros, para todos, ou seja, para todos os que continuam a trabalhar nas cadeias de montagem. Se alguém não se portar bem, aí está pois, o que o espera … Ao mesmo tempo, que é enviado para um local de degredo, o trabalhador confinado é constantemente exposto à chantagem de passar da situação de trabalhador “confinado” à situação de despedido, em suma, de cair da panela para cima das brasas.

Um caso que diz muito é o de Mimmo Mignano, empregado inscrito no Cobas e transferido para Nola. Por três vezes foi despedido da Fiat sem justa causa e por três vezes foi reintegrado, graças a uma sentença do tribunal do trabalho, que obrigou a empresa a readmiti-lo.

Nestes últimos anos, três dos trabalhadores que foram “confinados” para o hangar de Nola suicidaram-se. Mas estas mortes são apenas os sinais individuais de um mal-estar e de uma cólera muito mais difusa. Em 2012 tinha sido realmente Maria Baratto a escrever no site do Comité mulheres trabalhadoras de Pomigliano que “não se pode continuar a viver durante anos à beirinha de cair no abismo dos despedimentos”. Este texto, relido agora, aparece tanto como um sufoco, como também um grito lançado para os ventos: “ Da tentativa de suicídio de hoje cometida por Carmine P., a quem desejamos de todo o coração que se recomponha rapidamente e bem, ao suicídio de Agostino Bova, [1]de há poucos dias, que depois de ter recebido a carta de despedimento de Fiat por fúteis razões ficou louco de desespero e matou a mulher e tentou matar a filha antes de se suicidar a seguir, estes factos são apenas a ponta do iceberg da barbárie industrial e social em que a Fiat lançou os seus trabalhadores[2]”.

De Maria há poucas fotografias na rede, quase todas ligadas aos artigos que falam do seu suicídio. Em todas elas na sua cara está bem espelhada a fadiga, como na primeira foto acima reproduzida, os olhos de um azul celeste marcados por grandes olheiras, os cabelos castanhos longos. Nos lábios, nota-se a extrema dificuldade em sorrir. Em muitas outras fotografias aparece mesmo muito mais nova. Em 2009 tinha sido entrevistada para um documentário de Luca Rossomando, La fabbrica incerta[3]. Num dado momento, mal olhando para a câmara, dizia: “ Aos 22 anos montava os limpa-para-brisas da parte de trás sobre o Alfa 33, hoje tomo psicotrópicos”.
(continua)
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[1]Perante o suicídio de Bova, um ex-empregado da Fiat, em 2011, afirmou o governador Lombardo : “Quando ci si comporta da farabutti, i lavoratori vengono portati all’esasperazione e si arriva alla disperazione”. Citado por La Reppublica de Palermo, 29 de Julho de 2011. Tradução proposta : quando os patrões se comportam como tubarões, os trabalhadores são levados à exasperação e acabam por cair no desespero total.
[2] Nota de Tradução. Veja-se Comitato Moglio Operai Pomigliano, SUICIDI IN FIAT di Maria Baratto, texto disponível em http://www.comitatomoglioperai.it/?p=63
[3] Veja-se https://www.youtube.com/watch?v=FT4mj_h_E_Q
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Ver:
http://www.internazionale.it/articolo/2014/10/27/reparti-confino-in-italia-9


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