“Estamos todos condenados: somos os sacrificados”
(“Canção de Craonne”)
V
As virtudes da guerra
Quem nos ama mais? A nossa mãe ou a nossa pátria? O quê… Nunca se questionaram sobre o amor pátrio? Não verificaram que lugar ocupa em relação ao materno? É todavia uma interrogação da sentinela – simples soldado – em “Um drama na noite”[1]. Mateus considera “o serviço que estava prestando não unicamente como um dever mas como uma honra”[2] – uma honra que naquela noite o conduzirá à morte. Entretanto, pouco antes de morrer, ainda se questiona: “Mas acima do amor materno não estaria o amor pátrio?”[3].
– Completamente inverosímil. Ou então a criatura perdeu a cabeça…
Protestam os leitores. Na verdade não se trata de uma alienação individual mas uma tentativa de manipulação coletiva: o objetivo é convencer o leitor contemporâneo – o combatente tal o pai e a mãe dele, a noiva, a avó e o cão – de que o preto tem a alvura dos lençóis que secam ao sol.
Em “O amputado” Francisco sente “o desejo violento de combater (…) para ennobrecer o seu país”[4]. [Um “desejo violento de combater” satisfaz-se na carnificina – ora isto enobrece? Em contrapartida aprender, trabalhar, criar filhos, escrever, votar, plantar árvores, pintar paredes, apagar incêndios, enfim, todas as atividades criativas e produtivas do tempo de paz parecem não bastar aqui para tornar um país mais nobre.] Este mesmo Francisco regressa a casa amputado, mas os habitantes da povoação acorrem, “trajados de festa, para o saudar”[5]: aplaudem o guerreiro.
No conto “Do terror ao heroísmo” a população reclama a entrada na guerra: “Apressou o passo, (…), juntando-se aos que se manifestavam pela entrada de Portugal na guerra europeia.”[6]. [João Grave sonha aqui com o sucesso da sua propaganda. A população reclama escolas, hospitais, estações de correios?… Não, nem pensar: quer apenas uma boa guerra para entreter os rapazes.]
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