AS RAZÕES DA CRISE NA EUROPA. ANÁLISE DO CONTEXTO GLOBAL E DAS RESPOSTAS POSSÍVEIS À DRAMÁTICA SITUAÇÃO ACTUAL – FRANÇA: RE-INDUSTRIALISAÇÃO PARA UM DESENVOLVIMENTO SOBERANO E POPULAR – por BERNARD CONTE – V

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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70º  aniversário do programa do Conselho Nacional da Resistência

Nice , 12 Abril 2014

França: a re-industrialisação para um desenvolvimento soberano e popular

Bernard Conte

Enseignant – Chercheur en économie

Université de Bordeaux – Sciences Po Bordeaux

Comité Valmy

Le blogue de Bernard CONTE: France: la ré-industrialisation pour un développement souverain et populaire 

24 de Abril de 2014

(CONCLUSÃO)

A fileira invertida

Em 1958, no livro L’ère de l’opulence, John Kenneth Galbraith propunha uma tese revolucionária, a da fileira invertida. Afirmava que a sociedade industrial tinha alterado fundamentalmente a equação económica. Doravante, são as empresas que impõem os produtos aos consumidores e não o inverso. “A nova missão da empresa é criar as necessidades que ela mesma procura satisfazer”. A dinâmica da fileira invertida aparece como essencial na deriva consumista. A reorientação do desenvolvimento implica uma correcção da fileira invertida.

Rectificar a fileira invertida para sair do consumismo

A redefinição das necessidades deve permitir rectificar a fileira invertida de modo que a indústria responda à solicitação da procura, em vez de ser ela a suscitar uma procura para os bens que ela-mesma fabrica. Por um lado, todo o sistema socioeconómico deve ser organizado para a satisfação prioritária das necessidades essenciais ou fundamentais. Trata-se de uma ruptura profunda com a lógica consumista do capitalismo. Por outro lado, deve também assegurar um certo grau de autonomia na satisfação das necessidades da população por uma dependência menor no que diz respeito ao abastecimento externo.

A segurança na satisfação das necessidades 

A investigação permanente da maximização do lucro conduziu as empresas multinacionais a dispersar geograficamente as operações de produção, de modo que é suficiente que um elemento da cadeia gripe para que o abastecimento se interrompa, por vezes, com consequências dramáticas.

É nomeadamente o caso no domínio farmacêutico onde “a mundialização e a complexidade crescente dos circuitos de fabricação são um elemento de fragilidade importante”, o que aumenta os riscos de rupturas de abastecimento.

“Desde 2006, os profissionais da saúde constatam um aumento importante do número de rupturas de abastecimento, que conduz à situações altamente problemáticas, ainda mais quando o produto de substituição está igualmente em ruptura ou nela se torna muito rapidamente”, constatava já no final de 2012 o Conselho da Order dos farmacêuticos [30]

No domínio da saúde como em outros domínios, a re-industrialização selectiva não deve visar a auto-suficiência, que é de resto ilusória, mas sim a segurança do abastecimento,  garantia de uma menor dependência e de um desenvolvimento soberano.

 Conclusão

A aplicação na França, inicialmente, de um novo tipo de desenvolvimento soberano e popular implicaria a definição de um projecto nacional, como o fizeram, de certa maneira, os membros do CNR, há 70 anos. No contexto actual, o referido projecto deve situar-se em ruptura com o capitalismo financeirizado actual.

O objectivo é o bem comum e o interesse geral. Para o atingir, é necessário determinar de maneira democrática as necessidades essenciais do conjunto da população que devem ser satisfeitas primeiramente por um ajustamento estrutural da produção e da sociedade em geral. Poderá acontecer, aquando o do processo de ajustamento,  que o poder de compra, em termos de consumo “forçado”, se encontre reduzido a favor de um acréscimo de consumo de bens colectivos (educação, saúde…).

A pergunta importante à qual será, sem dúvida, necessário responder é a de saber qual o lugar e o papel que devem jogar os diferentes actores no processo de definição e de aplicação de um  novo tipo de desenvolvimento.

A França deve ser o laboratório do fim do neoliberalismo e da aplicação à economia de  um novo modo de desenvolvimento. É evidente que a transição chocar-se-á com as resistências por parte todos os que se aproveitam do sistema na sua forma actual. Vencer estas resistências não se fará provavelmente sem violência.

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[30] Chloé Hecketsweiler et Pascale Santi, « Médicaments : épidémie de pénuries », Le Monde science et techno, 25/11/2013,

http://www.lemonde.fr/sciences/article/2013/11/25/medicaments-epidemie-de-penuries_3519997_1650684.html

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Para ler a Parte IV desde trabalho de Bernard Conte, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

AS RAZÕES DA CRISE NA EUROPA. ANÁLISE DO CONTEXTO GLOBAL E DAS RESPOSTAS POSSÍVEIS À DRAMÁTICA SITUAÇÃO ACTUAL – FRANÇA: RE-INDUSTRIALISAÇÃO PARA UM DESENVOLVIMENTO SOBERANO E POPULAR – por BERNARD CONTE – IV

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Ver o original em:

http://blog-conte.blogspot.fr/2014/04/france-la-re-industrialisation-pour-un.html

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