OS PRISIONEIROS DAS FÁBRICAS, por ALESSANDRO LEOGRANDE, FABIO ZAYED e MAILA IACOVELLI – IV

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

mapa itália

Os prisioneiros das fábricas

Obrigado a:

Alessandro Leogrande, Fabio Zayed e Maila Iacovelli,  I prigionieri delle fabbriche

Internazionale, 27 de Outubro de 2014

Nota de Júlio Marques Mota

Fotos de Fabio Zayed e de Maila Iacovelli, texto de  Alessandro Leogrande para a  Internazionale,  a que acrescentei excertos de jornais e de outros sites, geralmente assinalados no texto.

Os prisioneiros das fábricas

(CONTINUAÇÃO)

prisioneiros - XIII
Antonio Montella, trabalhador especializado na Fiat, inscrito no Cobas, transferido para o degredo de Nola.   

Como o recorda Antonio Montella, trabalhador especializado na Fiat inscrito no Cobas, acabou também ele no degredo de Nola, no polo logístico Nola, “no fim de 2008 fizeram-nos andar em cursos de formação Inail. Os professores questionaram-nos longamente, queriam saber tudo das nossas vidas, das nossas famílias, do nossa trabalho, do sindicato ao qual pertencíamos e das actividades que aí desenvolvemos, depois ainda muitas outras perguntas … Fizeram o nosso C.V psicológico e laboral e apresentaram-no à empresa para verem quem era idóneo e quem não o era.“

Os considerados não idóneos acabaram no degredo de Nola. Não somente quem, como na Fiat do director Valletta, era definido como “violento”, como agitador. Mesmo, em alguns casos, quem ficou doente ou sofria das patologias do trabalho na cadeia de montagem e isto quando no interior do polo logístico, acessível de Pomigliano somente em autocarro da empresa, não há nenhuma enfermaria.

Dia após dia, semana após semana, o trabalhador confinado é constantemente levado a pensar: porquê eu e não outro ? Ou melhor, como diz Nello Pacifico no documentário Democrazia sconfinata, “o problema não são os militantes. Esses sabem-no porque acabaram lá dentro e não têm medo. O problema são os outros, os que vivem no terror de poder acabar aqui ou que já acabaram e não compreendem bem os motivos do que lhes aconteceu “. Em Nola, por exemplo, “o problema” refere-se aos que acabam no limbo constituído pelos empregados de “reduzida capacidade produtiva”. Para eles mesmos, frequentemente, a situação de trabalhador confinado acaba por ser muito mais dura.

prisioneiros - XIV
Tarento, o estabelecimento Ilva em pano de fundo. Depois de terem duplicado as instalações, concluídas em 1975, Ilva ocupou uma área de 1. 500 hectares, duas vezes e meia a área da cidade. 

À primeira vista, os lugares de colocação dos trabalhadores em situação de degredo, os reparti confino, podem parecer um fóssil oitocentista embora nos últimos anos tenham sido criados no interior de alguns colossos do nossa sistema industrial. Não somente na Fiat, mas também na Ilva.

Em 1997, dois anos depois da privatização de Italsider de Tarento, o grupo Riva fez confinar no Pallazzina Laf Hotel (Laminação a frio) 79 empregados que não tinham aceite serem desqualificados, em que passariam de empregados a operários. Muitos deles estavam inscritos no sindicato. Outros não, aproximaram-se deste apenas na sequência dos acontecimentos, depois de terem acabado no que eles definiram como “uma espécie de manicómio”. Com o grupo siderúrgico Riva, que em Tarento tem sido sentido imediatamente como a reencarnação do Patrão das Forjas, a torção disciplinar na fábrica acentuou-se em muito pouco tempo. Aos olhos dos milhares de jovens trabalhadores empregados na situação de contratos de formação trabalho a substituírem dos trabalhadores de cinquenta anos saídos com a pré-reforma, o Palazzina Laf representou o vértice de um sistema de controlo, de recompensa e de punição que atravessou longitudinalmente todos os departamentos da maior siderurgia do país.

prisioneiros - XVII
Roberto Leone, dirigente Ilva e sindicalista Cgil, transferido para o Palazzina Laf. Esteve em tratamento psiquiátrico no Centro de Saúde Mental de  Asl de em Tarento.

Em 2001 Emilio Riva[1] (patrão de Ilva) e Luigi Capogrosso, então director do estabelecimento de Tarento, foram condenados a dois anos e três meses. A tese avançada do procurador foi sempre mantida até aos recursos feitos às instâncias superiores : pela primeira vez o degredo numa unidade fabril fui associado à uma forma subtil de violência privada.

Contudo a situação de degredo de Palazzina Laf não é somente uma história de um passado recente. Constitui, em contrapartida, um precedente que se repetiu em formas mais refinadas nos anos seguintes. Entre os milhares de páginas do inquérito “Ambiente svenduto”, no qual foram inquiridos os vértices do grupo siderúrgico pelo “desastre ambiental”, a parte mais inquietante é a reservada aos chamados “ fiduciários”, ou seja aos dirigentes sombra que teriam tido a tarefa de controlar os empregados, e até mesmos os dirigentes oficiais, com o objectivo de nunca parar uma produção concebida para ser refractária a toda e qualquer regra. “Um forma de Gladio interna[2]”, definiu-a assim um sindicalista de Fiom, Rosario Rappa. Uma pirâmide devotada à espionagem e à manutenção da disciplina e, por conseguinte, a funcionar sob a capa do silêncio, não muita divergente do laboratório de fichas feitas quarenta anos antes na Fiat.

(continua)

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[1] Depois da sua morte, alguns comentários na Net ilustram bem como era este personagem:

1- “Ensina aos anjos no Paraíso a criar lagos vermelhos como acontece em Tarento”.; 2- Finalmente Emílio Riva se enrolou nos lençóis de Tarento. A empresa Ilva mata, mas a vida não é com ele;3-Tumores em Tarento: Homens: +50 % de cancro nos pulmões, + 40% de fígado; mulheres: 24% de cancro da mama; 80% de útero. Tu fazes-nos falta ( aos cancros)

[2] Segundo Wikipédia: “Gladio (em português, “gládio”) é o nome dado a uma organização clandestina do tipo stay-behind (“ficar atrás”), constituída pelos serviços de informação italianos e pela OTAN à época da Guerra Fria, para contrapor-se a uma eventual invasão da Itália pela União Soviética.

Durante a Guerra Fria, quase todos os países da Europa Ocidental organizaram redes stay-behind sob o controle da OTAN (Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Noruega, Países Baixos, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia e Reino Unido).

No entanto, a existência da Gladio – da qual apenas se suspeitava até as revelações feitas pelo membro da Avanguardia Nazionale, Vincenzo Vinciguerra, durante seu processo, em 1984 – só foi reconhecida pelo Presidente do Conselho italiano, Giulio Andreotti, em 24 de outubro de 1990, quando se referiu a uma “estrutura de informações, resposta e salvaguarda”. A Gladio foi acusada de ter tentado influir na política interna italiana, usando a estratégia da tensão.”

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Para ler a parte III de Os Prisioneiros das Fábricas, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/11/28/os-prisioneiros-das-fabricas-por-alessandro-leogrande-fabio-zayed-e-maila-iacovelli-iii/

 

 

 

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